terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O Bem e o Mal

AUTO DA BARCA DO INFERNO

Levado à cena pela primeira vez em 1517, O “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente passa-se num cais onde chegam, após a sua morte, várias personagens representativas da sociedade da época. Aí, um Anjo e um Diabo assumem o papel de juízes e discutem quem entrará na barca de cada um, conduzindo os seus passageiros à viagem para o Céu ou para o Inferno.



CENA I - Diabo e Companheiro

DIABO – (ao companheiro) À barca, à barca! 
Vamos lá! Que é muito boa a maré! Puxa a vela pra cá!
DIABO – Bem está!
Vai ali e, sem demora,
estica bem aquela corda
e libera aquele banco para a gente que virá.
À barca, à barca, uuh!
Depressa! Temos que ir!
Ah! Bom tempo de partir!
Louvores a Belzebu!
Ora, pois, que fazes tu?
Desocupa esse espaço!
COMPANHEIRO – É pra já! Pronto, está feito!
DIABO – Abaixa logo esse rabo!
Deixa preparado o cabo
E ajeita a corda de içar.
COMPANHEIRO- Vamos lá! Içar, Içar!

CENA II - Diabo e Fidalgo

DIABO – Oh! Que caravela esta!
Põe bandeiras, que é festa!
(vendo um Fidalgo que se aproxima)
Oh! Poderoso dom Henrique!
Vós aqui? Que coisa é esta?
Vem o FIDALGO acompanhado de um rapaz 
com uma cadeira. Chegando à barca do Inferno, diz:
FIDALGO- Esta barca, que sai agora,
Aonde vai tão preparada?
DIABO- Vai para a ilha danada
E há de partir sem demora.
FIDALGO- Para lá vai a senhora?
DIABO- (corrigindo irritado)
Senhor!... A vosso serviço.
FIDALGO- Isso parece um cortiço.
DIABO- Porque olhais lá de fora.
FIDALGO- A que terra passais vós?
DIABO- Para o inferno, senhor.
FIDALGO- (irónico)
Hum! Terra bem sem sabor!
E passageiros achais
Para tal embarcação?
DIABO- Ora pois, tu és a cara
Dessa embarcação!
FIDALGO- Parece-te mesmo assim?
DIABO- Onde esperas salvação?
FIDALGO- Eu deixo na outra vida
Quem reze sempre por mim.
DIABO- Quem reze sempre por ti?
Hi,hi,hi,hi,hi,hi,hi.
Tu viveste a teu prazer
Pensando aqui ter perdão
Porque lá rezam por ti?
Embarca já!
FIDALGO – (apavorado)
Quê?! É assim que a coisa vai?
DIABO – (impaciente)
Embarcai! Embarcai logo!
Segundo o que lá plantastes
Agora aqui recebereis.
E como a morte já passastes,
Passai agora este rio (...)


"INFERNO" DE DANTE

Canto III

A porta do Inferno - Vestíbulo

POR MIM SE VAI À CIDADE DOLOROSA; POR MIM  SE VAI ÀS PENAS  ETERNAS; POR MIM SE VAI À PERDIDA GENTE; DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!

Estas palavras estavam escritas em tom escuro, no alto de um portal. Eu, assustado, confidenciei ao meu guia:
- Mestre, estas palavras são muito duras.
- Não tenhas medo - respondeu Virgílio, experiente - mas não sejas fraco! Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei, onde encontraríamos as almas sofredoras que já perderam seu livre poder de arbítrio. Não temas, pois tu não és uma delas, tu ainda vives.
Em seguida, Virgílio segurou a minha mão, sorriu para me dar confiança, e guiou-me na direção daquele sinistro portal.
Logo que entrei ouvi gritos terríveis, suspiros e prantos que ecoavam pela escuridão sem estrelas. Os lamentos eram tão intensos que não me contive e chorei. Gritos de mágoa, brigas, queixas iradas em diversas línguas formavam um tumulto que tinha o som de uma ventania. Eu, com a cabeça já tomada de horror, perguntei:
- Mestre, quem são essas pessoas que sofrem tanto?
- Este é o destino daquelas almas que não procuraram fazer o bem divino, mas também não buscaram fazer o mal. - respondeu o mestre. - Misturam-se com aquele coro de anjos que não foram nem fiéis nem infiéis ao seu Deus. Tanto o céu quanto o inferno os rejeita.
-Mestre - continuei -, a que pena tão terrível estão esses coitados submetidos para que se lamentem tanto?
- Dir-te-ei em poucas palavras. Estes espíritos não têm esperança de morte nem de salvação. O mundo não se lembrará deles, a misericórdia e a justiça ignoram-nos. Deixa-os. Olha só e passa.
E então olhei e vi que as almas formavam uma grande multidão, correndo atrás de uma bandeira que nunca parava. Estavam todos nus, expostos a picadas de enxames de vespas que os feriam em todo o corpo. O sangue escorria, juntamente com as lágrimas, até aos pés, onde vermes doentes ainda os roíam. Como reconheci alguns deles imediatamente percebi e fiquei certo de que aquela era a seita dos cobardes, que a Deus não agradam nem aos seus inimigos.

Pormenor de "O Juízo Final" de Michelangelo




Visão à Jerónimo Bosch


Uma torre humana muito alta

A certa altura começa a desabar

Os indivíduos tentam agarrar-se uns aos outros

Mas continuam a escorregar mais e mais

De vez em quando um leve burburinho

Caiu uma pessoa que tenta equilibrar-se

E deambula às voltas meia tonta e seminua

O mesmo vai acontecendo a todas as outras

Conheço bem algumas destas criaturas.

HN



O EXILADO

Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.
Os sentidos em alarme gritam:
O demónio tem mais poder que Deus.
Preciso vomitar a vida em sangue
Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.
Passam ao largo os navios celestes
E os lírios do campo têm veneno.
Nem Job na sua desgraça
Estava despido como eu.
Eu vi a criança negar a graça divina
Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos
E a multidão me apontando como o falso profeta.
Espero a tempestade de fogo
Mais do que um sinal de vida.

Murillo Mendes

Menez






sábado, 27 de dezembro de 2025

Voto de Natal



Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.


David Mourão-Ferreira


LADAÍNHA DOS PÓSTUMOS NATAIS recitado por David Mourão Ferreira:

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Tempo de Natal










 O QUADRO DO FUTURO


Havemos de ir ao futuro.

Havemos de ir ao futuro e, quando lá chegarmos, hão-de estar no 
sofá os nossos pais
a cuidar dos sonhos que nos deram, os nossos avós a encher de 
luzes a árvore de Natal,
os nossos filhos e os filhos deles, espantados e atrevidos como nós.

Havemos de ir ao futuro e, quando lá chegarmos, hão-de estar todos 
juntos numa festa
à nossa espera, mesmo os amigos que perdemos no caminho.
Hão-de lá estar todos
com balões de várias cores, bolo-rei e, ao fundo da sala, um cartaz
do tamanho da nossa idade, onde se lê:
ainda bem que vieram.

Havemos de ir ao futuro ou, se não houver boleia para todos
ao mesmo tempo,
havemos de nos encontrar lá.

Havemos de ir ao futuro e, no futuro, estará finalmente tudo
como dantes.

Filipa Leal