sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Conhece este parque natural?


Foi criado em 1979, mas a história do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros começa há 175 milhões de anos, quando os dinossauros saurópodes faziam desta região o seu habitat natural. As pegadas deixadas por estes simpáticos gigantes fazem da região destas duas serras o parque jurássico português e o Monumento Natural das Pegadas dos Dinossáurios em Ourém - Torres Novas é um bom ponto de partida para conhecer a longa e rica história natural local.

"Serras de Aire e Candeeiros" aguarela de Roque Gameiro

Com uma área próxima dos 40 mil hectares, este Parque Natural abrange dois terços do Maciço Calcário Estremenho, uma formação geomorfológica onde o calcário branco esculpido pela água, pelos ventos e pelo Homem, origina paisagens e habitats tão belos quanto misteriosos.

Gruta de Mira de Aire

As paisagens subterrâneas das várias grutas ali existentes são um dos exemplos paisagísticos desta região. Algumas podem ser visitadas, outras são habitats exclusivos das várias espécies de morcegos que vivem nesta área protegida. Aliás, o mamífero voador é uma das espécies mais importantes do parque e o símbolo do mesmo. 

Estalactites na gruta de Mira de Aire

Devido à erosão do calcário por forma da água, este território possui uma complexa rede subterrânea de cursos de água que, em épocas de maior pluviosidade, dão origem a nascentes temporárias responsáveis pela formação de canhões fluvio-cársicos e depressões geológicas

Outro fenómeno da erosão que caracteriza este território são os grandes lagos temporários chamados poljes. O maior de todos é o “Polje de Minde” (foto 3). Nas épocas de maior pluviosidade chega a ter 2,5 quilómetros de comprimento por 800 metros de largura e 15 metros de profundidade. As gentes locais chamam-lhe o “Mar de Minde”. O sentido do nome é figurativo, afinal o Oceano Atlântico está a mais de trinta quilómetros de distância.

"Mar de Minde"

Mas apesar da distância ao mar, há água salgada no sopé da Serra dos Candeeiros. Perto de Rio Maior esta água salgada dá origem às únicas salinas interiores de Portugal e as únicas da Europa em funcionamento. O segredo das Salinas Naturais de Rio Maior  está num misterioso poço local cuja água tem um nível de salinidade sete vezes superior ao da água do mar. Este fenómeno natural atesta a presença do mar nesta região há milhões de anos, quando os dinossáurios andavam por ali.

 iNature | jun 2023 (texto com supressões)


Nascente do rio Alviela

A nascente do rio Alviela está localizada na base de uma escarpa, na fronteira geológica entre o Maciço Calcário Estremenho e a Bacia Terciária do Baixo Tejo. Neste local estão em contacto rochas com cerca de 150 milhões de anos de diferença (calcários do Jurássico e arenitos do Terciário). O rio Alviela é alimentado durante todo o ano por uma nascente permanente, mas em períodos de maior precipitação a água é também expelida através de nascentes temporárias, nomeadamente por uma saída temporária de extravasamento situada junto à nascente principal (Olhos de Água) e por uma outra situada junto ao Poço Escuro. A nascente do Alviela é uma das mais importantes do nosso país, chegando a debitar 17 mil litros por segundo, ou seja, 1,5 milhões de metros cúbicos de água por dia (pico de cheia). Desde 1880 até bem próximo da atualidade, esta nascente foi uma das principais fontes de abastecimento de água à cidade de Lisboa (através do Aqueduto do Alviela).




Praia fluvial dos Olhos de Água




Minha querida Mira de Aire

Muitas são as histórias da tua grandiosidade, da tua atividade quase metropolitana e do teu tecido industrial invejável.
Muitas são também as memórias dos grandes feitos do teu U.R.M., do ambiente fantástico que se vivia no velhinho (mas tão nosso) Campo da Fiandeira lotado em dias de jogo.  Este movimento era igualmente patente à hora de saída das centenas de trabalhadores que laboravam nas dezenas de unidades fabris em ti instaladas. Atualmente, estas memórias de ti, ou o que resta delas, encontram-se apenas guardadas nos olhos e corações daqueles que as viveram, olhos esses que se humedecem ao relembrar essa realidade tão díspar daquilo que és hoje.
Lembrado é também o estonteante movimento do café Cristal ou, mais recentemente, as loucas noites que a Discoteca Dom Papagaio proporcionava às gentes que vinham um pouco de todo o país. Mas estas histórias não as vivi eu.
Relembro apenas, ainda que vagamente, uma mão quase cheia de bares... Mas até isso acabou.
À semelhança do que acontece um pouco por todo o país, os teus filhos mais novos vão saindo debaixo da tua asa e os mais velhos vão ficando para te fazer lembrar que estás viva e que não passas de uma memória entre as serras.
O que é que se passou contigo? Porque é que te tornaste tão triste, tão escura, tão sem cor? As tuas ruas, onde outrora se respirava vida e alegria, não passam hoje de caminhos quase desertos e inundados de uma insípida monotonia. As tuas gentes parecem desinteressadas, tristes, cabisbaixas, como se previssem para ti um fim próximo. As festas e eventos que se vão organizando a muitos custo, já não têm a vitalidade de outros tempos.
Oh minha Mira, tenho saudades de uma face de ti que nunca conheci.
Mas Mira, quando saio de casa no inverno e te vejo vestida de branco ou quando vislumbro os teus filhos a incendiarem-te o coração no Natal, tenho a certeza que não vou desistir de ti. Eu não desisto de ti! Não quero saber se o que te aconteceu foram simples vicissitudes da vida, o resultado de políticas locais ou o fruto do desgaste que os teus filhos te deram… EU NÃO DESISTO DE TI!
Se vou conseguir? Não sei. Mas sei que tentarei até ao fim dos meus dias. No que depender de mim não morrerás, não serás esquecida e não te tornarás apenas naquela memória entre as serras que já te referi. 

Eu quero-te grande! Podes voltar a ser grande por favor?

Com amor,

O teu filho
João Diogo Santos
(texto com supressões)

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Firenze, a cidade dos Medici


Florença é considerada o berço do Renascimento (séc. XV e XVI). Com o patrocínio da poderosa e riquíssima família Medici,  a cidade  conseguiu captar os melhores artistas e cientistas da época. Os Medici não só encomendavam obras a artistas famosos do seu tempo como Donatello e Botticeli, como  proporcionavam aos jovens com talento a sua formação e sustento. Michelangelo teria uns 15 anos quando foi acolhido no palácio dos Medici onde viveu e estudou durante cerca de dois anos.
Os Medici investiram na construção de muitas das obras públicas e religiosas da cidade e promoveram o estudo de manuscritos antigos (gregos e romanos) que estavam em risco de desaparecer após a queda de Constantinopla.
A preocupação dos Medici em se rodearem das mentes mais avançadas do seu tempo, explica a escolha de Galileo Galilei para tutor dos seus filhos e a  protecção que lhe foi concedida para as suas investigações científicas.

Lorenzo de Medici por Giorgio Vasari
 
Os Medici descendiam de comerciantes de textéis que enriqueceram e fundaram o Banco Medici, a instituição financeira mais famosa da época. Com o seu poder económico e uma influência política sem precedentes, governaram Florença durante gerações sem possuírem títulos de nobreza iniciais, usando apenas o poder do dinheiro e das alianças. O domínio dos Medici estendeu-se ao Vaticano  conseguindo eleger quatro papas da sua família.




Florença para o Cavaleiro de Sophia...

Sophia de Mello Breyner Andresen era uma grande admiradora da cultura e da arte italianas. Na sua obra "Cavaleiro da Dinamarca" narra as aventuras deste Cavaleiro nórdico do séc. XV que decidiu viajar para conhecer a  Terra Santa. Na viagem de regresso a casa  não quis perder a oportunidade de visitar outros lugares importantes da nossa civilização. Um deles, como não podia deixar de ser, era Florença, o berço do Renascimento.


E no princípio de Maio chegou a Florença.
Vista do alto das colinas floridas, a cidade erguia no céu azul os seus telhados vermelhos, as suas torres, os seus campanários, as suas cúpulas. O Cavaleiro atravessou a velha ponte sobre o rio, ladeada de pequenas lojas onde se vendiam coiros, colares de coral, armas, pratos de estanho e prata, lãs, sedas, jóias de oiro.


Depois foi através das ruas rodeadas de palácios, atravessou as largas praças e viu as igrejas de mármore preto e branco com grandes portas de bronze esculpido. 
Por toda a parte se viam estátuas. Havia estátuas de mármore claro e estátuas de bronze. Outras eram de barro pintado. E a beleza de Florença espantou o Cavaleiro,tal como o tinha espantado a beleza de Veneza. Mas aqui tudo era mais grave e austero.


Procurou a casa do banqueiro Averardo, para o qual o seu amigo veneziano lhe tinha dado uma carta.
O banqueiro recebeu-o com grande alegria e hospedou-o em sua casa.
Era uma bela casa, mas nela não se via o grande luxo dos palácios de Veneza. Havia uma biblioteca cheia de antiquíssimos manuscritos e nas paredes estavam pendurados quadros maravilhosos.


Ao fim da tarde chegaram os amigos do banqueiro Averardo.
Sentaram-se todos para cear e, enquanto comiam e bebiam, iam conversando.
Então o espanto do Cavaleiro cresceu.


Na sua terra ele procurava a companhia dos trovadores e dos viajantes que lhe contavam as suas aventuras e as histórias lendárias do passado. Mas agora ali, naquela sala de Florença, aqueles homens discutiam os movimentos do Sol e da Lua e os mistérios do céu e da Terra. Falavam de matemática, de astronomia, de filosofia.

David de Michelangelo

Falavam de estátuas antigas, falavam de pinturas acabadas de pintar. Falavam de passado, do presente e do futuro. E falavam de poesia, de música, de arquitectura. Parecia que toda a sabedorda terra estava reunida naquela sala.




Entrevista


No centro de Florença, ainda é possível sofrermos do síndroma de Stendhal (desordem psicossomática provocada pelo contacto com uma obra artística); Stendhal sentiu-a quando visitou pela primeira vez a Galeria degli Uffizi]?

É possível senti-lo, tão esmagadora é a presença de obras de arte únicas. Mas há que fazer um exercício prévio de purificação. Há que colocar um filtro: não olhar para os turistas, não ver as mulheres gordas, os homens barrigudos, as crianças malcriadas… Não ver! E seguir diretamente para os Uffizi. Depois, ninguém pode ir lá pela primeira vez e pôr-se na fila para ir ver toda as salas do museu, não faz sentido; há que escolher o que se quer ver, como intróito a visitas futuras.

Fra Filippo

Da última vez que lá estive, fui direto aos quadros de Fra Filippo Lippi e do filho, Filippino Lippi, que pude apreciar com tempo, até porque estava pouca gente naquelas salas. A incomparável Madonna de Lippi pai dá vertigens… Mas esta é a única possibilidade hoje em dia de ainda se ‘desmaiar esteticamente’ numa cidade como Florença, que, entretanto, foi invadida pelos turistas. 

Filippino Lippi

A Itália é um país ferozmente desigual; onde a igualdade será sempre aparente e não mais do que aparente. Há que admitir que, ali, ao longo dos séculos, a riqueza, o património, a arte, a cultura, a arquitectura, geraram produtos de beleza absolutamente incomparáveis. 

Uffizi

Conto-lhe uma história curiosa. Há muitos anos, uns vinte, houve uma discussão extraordinária, durante a Feira do Livro de Frankfurt, entre um deputado social-democrata alemão e José Saramago. A certa altura, o deputado começou a falar contra os Papas, os papistas e a ostentação do poder do Vaticano. Saramago ergueu-se…
… e imagino que do alto do seu realismo-socialista… [risos]
… apostrofou o deputado luterano: que ele não percebia nada, que, se não tivesse havido os papas, não teríamos tido o Renascimento, não teríamos as obras de arte barrocas, não teríamos isto e aquilo, e que, apesar de tudo, o cristianismo legou à Humanidade coisas que o luteranismo não foi capaz de legar. Chapeau! Porque há que reconhecer que o facto de a Itália ser extraordinária é fruto da enorme desigualdade que sempre marcou a sua história.

Jacopo Siliciano

A Itália, na verdade, é um país muito recente: data do século XIX. Durante grande parte da sua história pós-romana, foi um espaço fragmentado em vários reinos e cidades-estado.
Assim florescem, ao mesmo tempo, na Idade Média, Florença, Siena, a 50 quilómetros, ou Prato, a apenas 19 quilómetros. Havia muitas micro-cidades-Estado, que eram autónomas, soberanas, e que, na maior parte dos casos, cunharam moeda própria, até à invenção do florim. 

Verrocchio e Leonardo da Vinci

Esse ADN mantém-se até à actualidade. Os regionalismos, os particularismos de cidade contra cidade — Lucca contra Pistoia, Florença contra Siena… — mantêm-se no norte e, com particular fulgurância, no centro de Itália. Porque, atenção, não existe uma identidade italiana, existem identidades italianas.

Botticelli

Num referendo recente sobre a autonomia das regiões italianas, 95% dos votantes na Lombardia e em Veneto votaram a favor. É simples: as regiões mais ricas e mais estruturadas, a norte, não querem participar no esforço económico do resto da Itália. O Mezzogiorno [sul] é paupérrimo. A Sicília poderia ser rica, mas não é. 

Extratos da entrevista de Filipa Melo a António Mega Ferreira, 18/07/2019
Fotos de obras expostas na Galeria dos Uffizi




Poema para Galileo

Galileo Galilei por Justus Susterma

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece, 
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei! (...)

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo, 
que parecia impossível que um homem da tua idade 
e da tua condição,
se estivesse tornando um perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios. (...)

E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual conforme suas eminências desejavam, 
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal. (...)

António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho (1906-1997)


Túmulo de Galileo na Basílica de Santa Croce




Como um pombo...       
(dedicado à mãe do poeta)



Como um pombo do Piazzale Michelangelo
voo, rua a rua, no céu de Florença.
Procuro chegar ao telhado,
à destruída casa de teus pais.
Ficou no ar um pouco, que sorvo,
de amor e angústia. Bebo no Arno
a tua última lágrima, igual
à matéria do rio. Chego ao ponto
mais alto do Campanile de Giotto e ouço
os sinos que percorrem Fiesole, as colinas
e casas colónicas. Leonardo
comprava no Mercato di San Lorenzo
aves para lhes dar, de novo, asas.
Agora sou eu quem voa amando por ti
e por mim a sua triste e orgulhosa
alma, pouso no Battistero
porque sei que Dante foi ali baptizado
e conspurco em Orsanmichele a cabeça de San Giorgio
tocando no bronze que teve a mão de Donatello.
Ó coisas ocres, de açafrão, enegrecidas,
sobre as quais voo buscando pedaços de pão
que transeuntes dadivosos oferecem.
E à espera que uma persiana se abra
e encontre, Mãe, um rosto que lembre o teu
e onde nessa mão eu chegue e coma.

António Osório (1933-2021); a mãe era de Florença




 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Bolonha, la rossa, la dotta, la grassa



Bolonha é a capital da região italiana de Emilia-Romagna. Conta com aproximadamente 400000 habitantes na cidade e cerca de 900000 na sua área metropolitana. Reconhecida como uma das regiões mais fertéis e ricas do país, a sua capital, Bolonha, é uma das cidades italianas mais influentes e importantes. Em 2011, mereceu o título de cidade de Itália com melhor qualidade de vida entre 107 concorrentes.


Conhecida como la Rossa, este qualificativo terá surgido há muitos anos pelo que não tem qualquer relação com partidos políticos. Tudo indica que esta designação  se deve à tonalidade uniforme dos seus telhados em telha e dos seus edifícios em tijolo. Esta impressão de homogeneidade é reforçada pelos cerca de 40 km de pórticos  e arcadas medievais e renascentistas. Alguns pórticos  encontram-se  decorados com frescos em muito bom estado de conservação. É uma experiência única  andar a pé pela cidade, ao abrigo das intempéries,  no meio de verdadeiras obras de arte, ali mesmo ao alcance de todos.


Foi em Bolonha, la dotta, que se criou a primeira universidade europeia, em finais do séc. XI e ainda hoje a Alma Mater Studiorum atrai muitos estudantes devido ao prestígio da instituição e dos seus professores (por exemplo, Umberto Eco, autor do  famoso romance "O nome da Rosa").
Muitas personalidades  da literatura, da cultura e da vida italianas passaram por esta universidade desde a Idade Média como Dante, Petrarca, Erasmo, Antonioni, Pasolini... Não terá sido, com certeza, por acaso que Bolonha foi escolhida para fazer aprovar a mais importante reforma dos estudos superiores na Europa, o chamado "processo de Bolonha", em 1999, como forma de acelerar a integração europeia.
Mas Bolonha,  além de la rossa e la dotta, é também a gorda, la grassa. A fama vem de longe e não tem a ver com gordura, mas com abundância, despensa farta e cozinha rica. E com o tempo, a cidade adquiriu fama de ser a capital gastronómica de Itália, devido à maneira de cozinhar e aos inventos culinários próprios como a mortadela, que é um salame que se fabrica na cidade pelo menos há duzentos anos.
Quando se pergunta a um bolognês onde se pode comer um spaghetti alla bolognese, a sua reacção pode surpreender-nos: "Isso não existe, é uma invenção para enganar os turistas!" O que existe, explicam-nos, é a pasta fresca, o sugo de tomate e, sobretudo o ragú.

Bolonha é uma cidade onde não faltam monumentos e edifícios de grande interesse histórico e artístico. Há registo de mais de cinquenta igrejas, santuários e oratórios, só no centro histórico de Bolonha. 
Dispondo de pouco tempo para visitar a cidade, é necessário fazer opções e, nesse sentido, a Piazza Maggiore surge em primeiro lugar, com a Basílica dedicada a S. Petrónio. Petrónio, um bispo de Bolonha muito influente  no seu tempo, (séc.V), foi elevado ao estatuto  de santo protector da cidade no  séc. XIII, por ser considerado um símbolo da independência da província de Bolonha, no contexto das lutas contra o poder temporal do Papa.
A Basílica começou a ser construída no estilo gótico dominante, em finais do século XIV, com a intenção de ser a maior da cristandade. As obras foram interrompidas diversas vezes por mudança de planos e falta de verba e, no séc. XVI, por intervenção do papa que não podia tolerar que fosse maior do que a Basílica de São Pedro, em Roma. Tantas dificuldades e obstáculos explicam  que a fachada se encontre incompleta. 
A sua nave interminável (mais de 130 metros de comprimento) guarda,  no seu interior, obras que merecem a nossa admiração, muitas delas de artistas locais. 

No tecto é visível um orifício

Uma curiosidade: a linha meridiana. No lado esquerdo da Basílica,  vê-se no chão a linha meridiana (67 metros) que tem correspondência com um orifício no tecto, enquadrado pelo desenho de um sol, por entra a luz do sol. 
Ao lado da Piazza Maggiore, na Piazza Neptuno  a enorme estátua de Neptuno (séc. XVI) atrai a nossa atenção.  As quatro figuras que se encontram à volta dele simbolizam os maiores rios dos continentes conhecidos naquela época: o Ganges, o Nilo, o Amazonas e o Danúbio. Para o Papa, que encomendou esta obra, a intenção era clara: tal como Neptuno dominava as águas, assim ele dominava o mundo.


 Mas ir a  Bolonha e não visitar a Abadia de Santo Stefano seria indesculpável. Trata-se de um conjunto de edifícios religiosos construídos entre o séc. V e o séc. XIII, muito antigos e com características únicas.  Segundo a tradição popular a abadia seria constituída por sete igrejas, mas na  verdade actuamente são apenas quatro, embora se encontrem alguns vestígios que poderão ter pertencido às outras.
O bispo Petrónio (séc. V) escolheu este local para mandar construir uma réplica do Santo Sepulcro de Jerusalém. A igreja do Santo Sepulcro é a mais importante da abadia, apesar de se entrar  através de uma porta lateral na nave da igreja do Crucifixo. Mesmo ao lado da igreja do Santo Sepulcro fica a basílica dos santos Vitale e Agricola, dedicada aos dois mártires bolonheses. Depois dos clautros, chegamos à igreja da Trinità, a quarta e última deste conjunto.

 


Bolonha é famosa pelas suas torres medievais. Sobrevivem vinte, mas no séc. XIII seriam umas 180. Esta proliferação de torres está ligada às guerras entre os partidários do Papa e os do Império. Serviam de defesa e prevenção, mas também algumas delas de habitação e armazém. A Torre Asinelli com 97,20m (séc. XI) lado a lado com a Torre Garisenda, que parece em risco de desabar a qualquer momento, são talvez a imagem mais conhecida  de Bolonha.


terça-feira, 9 de junho de 2026

Reabilitar Juromenha

A Fortaleza Juromenha no início do séc. XX passou a ser irrelevante  para a defesa do território devido à evolução das estratégias e recursos bélicos. Em 1920 a praça foi definitivamente abandonada e começou o seu declínio. Matos Sequeira (in Guia de Portugal, Biblioteca Nacional de Lisboa, 1ª edição em 1927) escreveu: "Juromenha actualmente é uma ruína. Os restos das muralhas caem aos bocados, as casas onde se abriga a população civil estão, a maioria delas, desabitadas (...)". 
Muitos anos depois, cerca de 1980, José Saramago na sua "Viagem a Portugal" visita a Fortaleza de Juromenha e  pelo seu testemunho o espectáculo é ainda mais desolador: " O viajante vai ao castelo. É realmente um mar de ruínas. À entrada da cintura seiscentista, sob o arco da porta, uma vaca e um vitelo remoem pacientemente (ou obrigatoriamente) o que já comeram. Lá dentro adivinham-se os lugares onde já viveu gente: uma chaminé, a que falta o piso em que assentava, está suspensa no vazio. O recinto é vasto, o viajante não vai percorrê-lo todo. Mais ruínas, o resto duma capela, provavelmente a Misericórdia, e outras, mais pungentes, da Igreja de Nossa Senhora do Loreto, onde dorme a sesta um rebanho de ovelhas que a chegada intempestiva do viajante não basta para perturbar (...)"
Entretanto Juromenha que até 1836 fora sede de concelho, passou a sede de freguesia até 2013. Pertence actualmente à União das Freguesias do Alandroal.
Em 2011 Juromenha tinha 107 habitantes! Desde o abandono da fortaleza, em 1920, começou a perder população, situação que se mantém agravada por outros problemas que afectam o interior do país. 
 



Finalmente obras de reabilitação

Iniciada em 2021, a obra envolveu o restauro dos três níveis de muralhas, nomeadamente a islâmica, a medieval e a seiscentista e a instalação de iluminação cénica, num investimento de 5,3 milhões de euros, com apoio de fundos europeus. 
Mas este projecto, fundamental para a consolidação das muralhas e evitar novas derrocadas, não abrangia o interior da fortaleza onde se encontram, em ruinas, as igrejas da Misericórdia e de São Francisco e a Igreja Matriz de Nª Sra. do Loreto - provavelmente de meados do século XIII, com o nome de Santa Maria - a cadeia, os antigos Paços do Concelho e a cisterna.
Espera-se que agora seja encontrada uma solução para reabilitar todo este património e dar a este monumento a dignidade que ele merece.



Prémio nacional para Jeromenha

Em cerimónia realizada hoje no Museu Vista Alegre, em Ílhavo, a intervenção de restauro e conservação da Fortaleza e Castelo de Juromenha recebeu o Prémio Nacional de Reabilitação na categoria de Restauro.
Os prémios nacionais de reabilitação distinguem há 14 anos as melhores intervenções de reabilitação urbana em várias categorias, tendo sido admitidas este ano cerca de 80 candidaturas. A Fortaleza de Juromenha foi ainda finalista, entre três candidatos, na categoria de Estruturas.
A Fortaleza de Juromenha está integrada no Programa REVIVE prevendo-se o desenvolvendo de um projeto de natureza turística no seu interior em harmonia com o uso público do monumento.

Ana Rocha, 19 de Maio de 2026