domingo, 1 de fevereiro de 2026

Lisboa, anos 50


Os Pobrezinhos

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres uma moeda, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto.
O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico:
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros:
- O que é que o menino quer, esta gente é assim.

António Lobo Antunes

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A Morais Soares ontem e hoje

Este arruamento nasceu em 1906 como Rua do Conselheiro Morais Soares, no troço da antiga Estrada de Circunvalação compreendido entre a rotunda (hoje, Praça do Chile) no término da Avenida da Dona Amélia (hoje, Avenida Almirante Reis) e a Parada do Cemitério Oriental (hoje Parada do Alto de São João). 
Foi após a implantação da República que, pelo Edital Municipal de 27/11/1916, passou a chamar-se Rua Morais Soares, já que o título de conselheiro recordava o regime monárquico, por ser atribuído pelo soberano, tradicionalmente aos magistrados do Supremo Tribunal e, por vezes, a pessoas que tinham prestado serviços honrosos.






A Morais Soares do séc. XXI

A Morais Soares não é uma rua: é uma jangada apinhada de gente, um misterioso coração pulsante, uma metrópole imensa dentro do recinto da “Lisboa, cidade triste e alegre”, e paralela a ele. Em nenhuma outra parte Portugal é tão cosmopolita e global. Em nenhum outro ponto do seu território se parece tanto a São Paulo, a Xangai ou a Nova Iorque. A impressão que se tem, quando se sobe da Praça do Chile até ao Alto de São João, é que as mais de noventa nacionalidades que habitam atualmente o perímetro da freguesia de Arroios estão concentradas no trasfego daquela encosta desamparada, nos redemoinhos, manifestos ou subterrâneos, daquele mestiço lufa-lufa, que melhor descrito vem se o transformarmos em lufa-luta, porque o mundo, para quem o quiser ver, é isso: uma vitrina do espanto e da dor, do escombro e do combate, do abalo e da esperança que existir representa.
Quando este arruamento nasceu, há mais de um século, toda a área era então o termo da cidade. E ainda hoje o é, mesmo se de outra forma. “Aqui a terra acaba e o mar começa”, poderíamos dizer. Talvez, por isso, a Morais Soares tenha aquela vitalidade que se fareja nos sobreviventes; o constante sangue novo dos que chegam em busca de oportunidades; o instinto, a vulnerabilidade e a resiliência de quem se agarra com unhas e dentes a um mundo de passagem (...)

Tolentino Mendonça, 2020

O cardeal Tolentino Mendonça conhece muito bem a rua Morais Soares, pois morava na freguesia de Arroios antes de ir viver para Roma para desempenhar as novas funções  para que foi nomeado pelo Papa Francisco, no Vaticano.



No tempo das tertúlias nos cafés 



Na rua Morais Soares, antes do 25 de Abril, o Café Flôr do Império era um local de encontro de amigos, de namorados, de estudantes, de conhecidos e desconhecidos que se empolgavam em discussões filosóficas, políticas e religiosas dispostos a lutar, ou talvez mesmo arriscar a vida, por um mundo melhor e mais justo para todos.
Era no café Flôr do Império, com a bica em cima da mesa, depois das aulas e do trabalho, que se passava todo o tempo disponível, pela noite dentro. Mas havia outro tipo de clientes: os PIDES e, devido à proximidade do quartel, os da chamada Legião Portuguesa. Estes mais não eram que os olhos e os ouvidos do regime e discretamente tentavam escutar as nossas conversas.  
Não frequentaram o Café Flôr do Império escritores, cineastas, pintores, cançonetistas ou actores famosos como no Café Gelo, no  Monumental, no Monte Carlo, no Ribadouro ou no VáVá, mas ali se licenciaram médicos, professores. engenheiros, advogados e se formaram muitos políticos dos diferentes partidos que surgiram depois do 25 de Abril. 
O café Flôr do Império ainda existe, mas agora os tempos são outros e é apenas mais um local de passagem onde em 5 minutos, ao balcão, de pé, se come um pastel e se bebe um café. Não há tempo para nos sentarmos e muito menos para conversas.

HN


Cinquenta anos de história 

“Como habitualmente, vou a caminho do Café Flor do Império. Da última vez que lá estive vi um rapaz e acho que ele também reparou em mim. Era moreno e tinha uma grande cabeleira. Acabei por descobrir que se chama Carlos.
Entro no café… Ele não está cá. Sento-me na minha mesa habitual ao lado da Luísa, uma amiga que conheço daqui e pedimos o nosso lanche: dois cafés e dois pastéis de nata.
Como estou de costas para a porta não o vejo entrar, mas vem diretamente para a nossa mesa. A Luísa cumprimenta-o, apresenta-nos (parece que eles já se conhecem) e começam a conversar. A certa altura falam do seu jantar, portanto perco a esperança, já que ele namora e vive com uma das minhas amigas. Quando o Carlos se vai embora, ela pede desculpa pelo irmão que nos tinha interrompido. IRMÃO! Afinal estava enganada.
A seguir, a Luísa levantou-se e assim que ela sai porta fora, o Carlos vem ter comigo e pergunta se pode sentar-se. Falamos de tudo. Da ditadura (somos os dois contra), da faculdade, do café onde nos encontramos e até sobre a Luísa.
Já é de noite, mas ainda não ficámos sem tema, por isso decidimos ir jantar os dois.”

Esta é a história dos meus avós. Casaram-se dois anos mais tarde. Passaram o 25 de Abril juntos e tiveram um filho.
No ano de 2025, comemoraram 50 anos de casados. Isto mostra que uma coisa tão séria, importante e duradoura pode começar de uma forma tão simples.
Na mesa de um café.

Sofia Gabriel
(14 anos)

   

 

                                                                                                                                    








quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

EUA, meados do séc. XXI...




Caricaturas do artista americano Robert Berkeley (Bob Minor) (1884-1952).

1.
Uma nova lei no espaço mais consevador
dos Estados Conservadores e Unidos.
Cronologicamente é possível enumerar factos
que levaram a este estado de coisas.

Primeiro, em meados do século XXI,
no estado mais conservador dos Estados Unidos, 
alguém murmurou, em pontas de pés e voz finita,
a hipótese de um dia ser legalmente aconselhável
os ricos não procriarem com os pobres.

Não tanto por haver algo a lamentar no método
usado classicamente para a procriação
- essa forma, dizia Ted, de um pénis largar a sua carga de futuro
na hospedeira dos nove meses seguintes do mundo -
mas sim porque nada garantia que essa peste estranha,
caída em plena cabeça dos sem-abrigo e dos sem emprego,
não pudesse subitamente mudar de direcção,
como um búfalo desnorteado,
e dirigir os seus cornos mortais para a classe média e rica.

2.
Daí que a cautela legislativa não pareça excessiva;
e como em tempos se proíbira que homem copulasse com homem
e muitíssimas outras restrições em muitíssimas outras variantes,
também agora, porque não? existir uma lei que tornasse claro
que pobre não pode copular com rico nem filho de pobre 
com filho de rico.

O certo é que o governador do Estado do Texas, Ted Trash, aprovou;
setenta votos contra 666 do lado vencedor, na câmara das leis.
Discussões existiram em redor, por exemplo, 
da mínima linha, acima e abaixo da qual um pobre é pobre
e discussões ainda sobre se variantes afectivas,
não capazes de gerar descendência,
deveriam ser enquadradas na lei (...)

Gonçalo M. Tavares

Antena  3 - "Prova Oral" com Gonçalo M. Tavares sobre a obra "O fim dos Estados Unidos da América":


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O Bem e o Mal

AUTO DA BARCA DO INFERNO

Levado à cena pela primeira vez em 1517, O “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente passa-se num cais onde chegam, após a sua morte, várias personagens representativas da sociedade da época. Aí, um Anjo e um Diabo assumem o papel de juízes e discutem quem entrará na barca de cada um, conduzindo os seus passageiros à viagem para o Céu ou para o Inferno.



CENA I - Diabo e Companheiro

DIABO – (ao companheiro) À barca, à barca! 
Vamos lá! Que é muito boa a maré! Puxa a vela pra cá!
DIABO – Bem está!
Vai ali e, sem demora,
estica bem aquela corda
e libera aquele banco para a gente que virá.
À barca, à barca, uuh!
Depressa! Temos que ir!
Ah! Bom tempo de partir!
Louvores a Belzebu!
Ora, pois, que fazes tu?
Desocupa esse espaço!
COMPANHEIRO – É pra já! Pronto, está feito!
DIABO – Abaixa logo esse rabo!
Deixa preparado o cabo
E ajeita a corda de içar.
COMPANHEIRO- Vamos lá! Içar, Içar!

CENA II - Diabo e Fidalgo

DIABO – Oh! Que caravela esta!
Põe bandeiras, que é festa!
(vendo um Fidalgo que se aproxima)
Oh! Poderoso dom Henrique!
Vós aqui? Que coisa é esta?
Vem o FIDALGO acompanhado de um rapaz 
com uma cadeira. Chegando à barca do Inferno, diz:
FIDALGO- Esta barca, que sai agora,
Aonde vai tão preparada?
DIABO- Vai para a ilha danada
E há de partir sem demora.
FIDALGO- Para lá vai a senhora?
DIABO- (corrigindo irritado)
Senhor!... A vosso serviço.
FIDALGO- Isso parece um cortiço.
DIABO- Porque olhais lá de fora.
FIDALGO- A que terra passais vós?
DIABO- Para o inferno, senhor.
FIDALGO- (irónico)
Hum! Terra bem sem sabor!
E passageiros achais
Para tal embarcação?
DIABO- Ora pois, tu és a cara
Dessa embarcação!
FIDALGO- Parece-te mesmo assim?
DIABO- Onde esperas salvação?
FIDALGO- Eu deixo na outra vida
Quem reze sempre por mim.
DIABO- Quem reze sempre por ti?
Hi,hi,hi,hi,hi,hi,hi.
Tu viveste a teu prazer
Pensando aqui ter perdão
Porque lá rezam por ti?
Embarca já!
FIDALGO – (apavorado)
Quê?! É assim que a coisa vai?
DIABO – (impaciente)
Embarcai! Embarcai logo!
Segundo o que lá plantastes
Agora aqui recebereis.
E como a morte já passastes,
Passai agora este rio (...)


"INFERNO" DE DANTE

Canto III

A porta do Inferno - Vestíbulo

POR MIM SE VAI À CIDADE DOLOROSA; POR MIM  SE VAI ÀS PENAS  ETERNAS; POR MIM SE VAI À PERDIDA GENTE; DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!

Estas palavras estavam escritas em tom escuro, no alto de um portal. Eu, assustado, confidenciei ao meu guia:
- Mestre, estas palavras são muito duras.
- Não tenhas medo - respondeu Virgílio, experiente - mas não sejas fraco! Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei, onde encontraríamos as almas sofredoras que já perderam seu livre poder de arbítrio. Não temas, pois tu não és uma delas, tu ainda vives.
Em seguida, Virgílio segurou a minha mão, sorriu para me dar confiança, e guiou-me na direção daquele sinistro portal.
Logo que entrei ouvi gritos terríveis, suspiros e prantos que ecoavam pela escuridão sem estrelas. Os lamentos eram tão intensos que não me contive e chorei. Gritos de mágoa, brigas, queixas iradas em diversas línguas formavam um tumulto que tinha o som de uma ventania. Eu, com a cabeça já tomada de horror, perguntei:
- Mestre, quem são essas pessoas que sofrem tanto?
- Este é o destino daquelas almas que não procuraram fazer o bem divino, mas também não buscaram fazer o mal. - respondeu o mestre. - Misturam-se com aquele coro de anjos que não foram nem fiéis nem infiéis ao seu Deus. Tanto o céu quanto o inferno os rejeita.
-Mestre - continuei -, a que pena tão terrível estão esses coitados submetidos para que se lamentem tanto?
- Dir-te-ei em poucas palavras. Estes espíritos não têm esperança de morte nem de salvação. O mundo não se lembrará deles, a misericórdia e a justiça ignoram-nos. Deixa-os. Olha só e passa.
E então olhei e vi que as almas formavam uma grande multidão, correndo atrás de uma bandeira que nunca parava. Estavam todos nus, expostos a picadas de enxames de vespas que os feriam em todo o corpo. O sangue escorria, juntamente com as lágrimas, até aos pés, onde vermes doentes ainda os roíam. Como reconheci alguns deles imediatamente percebi e fiquei certo de que aquela era a seita dos cobardes, que a Deus não agradam nem aos seus inimigos.

Pormenor de "O Juízo Final" de Michelangelo




Visão à Jerónimo Bosch


Uma torre humana muito alta

A certa altura começa a desabar

Os indivíduos tentam agarrar-se uns aos outros

Mas continuam a escorregar mais e mais

De vez em quando um leve burburinho

Caiu uma pessoa que tenta equilibrar-se

E deambula às voltas meia tonta e seminua

O mesmo vai acontecendo a todas as outras

Conheço bem algumas destas criaturas.

HN



O EXILADO

Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.
Os sentidos em alarme gritam:
O demónio tem mais poder que Deus.
Preciso vomitar a vida em sangue
Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.
Passam ao largo os navios celestes
E os lírios do campo têm veneno.
Nem Job na sua desgraça
Estava despido como eu.
Eu vi a criança negar a graça divina
Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos
E a multidão me apontando como o falso profeta.
Espero a tempestade de fogo
Mais do que um sinal de vida.

Murillo Mendes

Menez






sábado, 27 de dezembro de 2025

Voto de Natal



Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.


David Mourão-Ferreira


LADAÍNHA DOS PÓSTUMOS NATAIS recitado por David Mourão Ferreira:

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Tempo de Natal










 O QUADRO DO FUTURO


Havemos de ir ao futuro.

Havemos de ir ao futuro e, quando lá chegarmos, hão-de estar no 
sofá os nossos pais
a cuidar dos sonhos que nos deram, os nossos avós a encher de 
luzes a árvore de Natal,
os nossos filhos e os filhos deles, espantados e atrevidos como nós.

Havemos de ir ao futuro e, quando lá chegarmos, hão-de estar todos 
juntos numa festa
à nossa espera, mesmo os amigos que perdemos no caminho.
Hão-de lá estar todos
com balões de várias cores, bolo-rei e, ao fundo da sala, um cartaz
do tamanho da nossa idade, onde se lê:
ainda bem que vieram.

Havemos de ir ao futuro ou, se não houver boleia para todos
ao mesmo tempo,
havemos de nos encontrar lá.

Havemos de ir ao futuro e, no futuro, estará finalmente tudo
como dantes.

Filipa Leal








terça-feira, 25 de novembro de 2025

F. Pessoa: saudades do passado?


José de Guimarães, Fernando Pessoa 1985


ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,

O que fui de coração e parentesco,

O que fui de serões de meia-província,

O que fui de amarem-me e eu ser menino.

O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...

A que distância!...

(Nem o acho...)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! (...)


Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,

O aparador com muitas coisas- doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado-, 

As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) 15-10-1929


Natal... Na província neva

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Fernando Pessoa


 À minha querida mamã

Ó terras de Portugal

Ó terras onde eu nasci

Por muito que goste delas

Inda gosto mais de ti.


Fernando Pessoa, 26-7-1895 (com apenas 7 anos)



Maria Bethânia recita "Num meio dia de fim de Primavera..." de Alberto Caeiro

https://www.youtube.com/watch?v=GV7uRmEdCSs

Maria Bethânia recita "Prece"de Fernando Pessoa

https://www.youtube.com/watch?v=ElXe3nsuHR0