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| António Lobo Antunes por Júlio Pomar |
O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no Verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore, mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava
-Tu
até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se embora a pensar. Do lado da serra um canavial, um sapo grande debruçado no parapeito de si mesmo, severo, a pensar também. Até que as pedras se tornem mais leves que a água. E, a partir desse momento, não escrevo mais. Deixo de existir, claro que deixo de existir: já não sou mais necessário (...)
António Lobo Antunes, crónica da revista Visão, 18/08/2016
OPINIÃO DE UMA LEITORA
Em 2018, estive presente numa conferência promovida pela revista Visão com António Lobo Antunes e, em 2019, numa aula aberta da Universidade Católica. Queria muito conhecer e ouvir o homem e o escritor.
Durante as intervenções de António Lobo Antunes, recordo o silêncio da assistência, muito atenta para apreender o sentido de todas as suas palavras. Ele parecia falar apenas consigo próprio e nós, cheios de sorte, a escutá-lo!
António Lobo Antunes era dotado de uma extraordinária memória de elefante. Não se limitava a fazer referência a uma obra, citava-a, prosa ou verso de qualquer época, como se estivesse a ler naquele momento.
Nas crónicas, António Lobo Antunes reflecte sobre variados assuntos, alguns de carácter pessoal e familiar que nos revelam a sua formação e sensibilidade. Outras vezes, retrata com argúcia e humor o comportamento de homens e mulheres de todas as camadas sociais. Não poupa nada, ninguém, nem ele próprio, mas ao mesmo tempo daquelas páginas transparece uma certa humanidade e até ternura. Não faz julgamentos, apenas mostra. E cada uma das suas crónicas é perfeita e a linguagem muito poética.
Quanto aos romances, António Lobo Antunes declara: "O livro faz-se sozinho. Não tenho personagens, não são romances. Não imagino, são vozes, não imagino corpo naquelas vozes. Aquela ideia de contar histórias que se perpetuou aqui (...) Nunca me interessou. Tinha muito claro o que queria para mim, só queria mudar a arte de escrever."
A sua influência e adesão a este novo conceito da arte de escrever verificou-se logo após a publicação do seu primeiro romance, "Memória de Elefante", que obteve um enorme sucesso. Ao longo do tempo, o processo de escrita de António Lobo Antunes tornou-se mais complexo e exigente. Por vezes os próprios temas exploram muito o lado negro das situações e das personagens e tanto pessimismo pode afectar o nosso estado de espírito. Isso é bom ou mau? Quanto a esta questão as opiniões divergem.
António Lobo Antunes merece a maior admiração e o reconhecimento do seu valor não só como escritor cuja obra muito premiada se encontra traduzida em inúmeras línguas, mas também pela sua forte personalidade e papel na cultura do nosso país.
HN
POEMA LIDO NA CERIMÓNIA FÚNEBRE DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES A PEDIDO DO ESCRITOR:
Na Mão De Deus
Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
Antero de Quental