António Lobo Antunes
Crónica de Lobo Antunes lida por ele próprio:
António Lobo Antunes
Crónica de Lobo Antunes lida por ele próprio:
A Morais Soares do séc. XXI
A Morais Soares não é uma rua: é uma jangada apinhada de gente, um misterioso coração pulsante, uma metrópole imensa dentro do recinto da “Lisboa, cidade triste e alegre”, e paralela a ele. Em nenhuma outra parte Portugal é tão cosmopolita e global. Em nenhum outro ponto do seu território se parece tanto a São Paulo, a Xangai ou a Nova Iorque. A impressão que se tem, quando se sobe da Praça do Chile até ao Alto de São João, é que as mais de noventa nacionalidades que habitam atualmente o perímetro da freguesia de Arroios estão concentradas no trasfego daquela encosta desamparada, nos redemoinhos, manifestos ou subterrâneos, daquele mestiço lufa-lufa, que melhor descrito vem se o transformarmos em lufa-luta, porque o mundo, para quem o quiser ver, é isso: uma vitrina do espanto e da dor, do escombro e do combate, do abalo e da esperança que existir representa.
Quando este arruamento nasceu, há mais de um século, toda a área era então o termo da cidade. E ainda hoje o é, mesmo se de outra forma. “Aqui a terra acaba e o mar começa”, poderíamos dizer. Talvez, por isso, a Morais Soares tenha aquela vitalidade que se fareja nos sobreviventes; o constante sangue novo dos que chegam em busca de oportunidades; o instinto, a vulnerabilidade e a resiliência de quem se agarra com unhas e dentes a um mundo de passagem (...)
Tolentino Mendonça, 2020
O cardeal Tolentino Mendonça conhece muito bem a rua Morais Soares, pois morava na freguesia de Arroios antes de ir viver para Roma para desempenhar as novas funções para que foi nomeado pelo Papa Francisco, no Vaticano.
No tempo das tertúlias nos cafés
HN
Cinquenta anos de história
“Como habitualmente, vou a caminho do Café Flor do Império. Da última vez que lá estive vi um rapaz e acho que ele também reparou em mim. Era moreno e tinha uma grande cabeleira. Acabei por descobrir que se chama Carlos.
Entro no café… Ele não está cá. Sento-me na minha mesa habitual ao lado da Luísa, uma amiga que conheço daqui e pedimos o nosso lanche: dois cafés e dois pastéis de nata.
Como estou de costas para a porta não o vejo entrar, mas vem diretamente para a nossa mesa. A Luísa cumprimenta-o, apresenta-nos (parece que eles já se conhecem) e começam a conversar. A certa altura falam do seu jantar, portanto perco a esperança, já que ele namora e vive com uma das minhas amigas. Quando o Carlos se vai embora, ela pede desculpa pelo irmão que nos tinha interrompido. IRMÃO! Afinal estava enganada.
A seguir, a Luísa levantou-se e assim que ela sai porta fora, o Carlos vem ter comigo e pergunta se pode sentar-se. Falamos de tudo. Da ditadura (somos os dois contra), da faculdade, do café onde nos encontramos e até sobre a Luísa.
Já é de noite, mas ainda não ficámos sem tema, por isso decidimos ir jantar os dois.”
Esta é a história dos meus avós. Casaram-se dois anos mais tarde. Passaram o 25 de Abril juntos e tiveram um filho.
No ano de 2025, comemoraram 50 anos de casados. Isto mostra que uma coisa tão séria, importante e duradoura pode começar de uma forma tão simples.
Na mesa de um café.
AUTO DA BARCA DO INFERNO
CENA II - Diabo e Fidalgo
DIABO – Oh! Que caravela esta!
Põe bandeiras, que é festa!
(vendo um Fidalgo que se aproxima)
Oh! Poderoso dom Henrique!
Vós aqui? Que coisa é esta?
Vem o FIDALGO acompanhado de um rapaz
com uma cadeira. Chegando à barca do Inferno, diz:
FIDALGO- Esta barca, que sai agora,
Aonde vai tão preparada?
DIABO- Vai para a ilha danada
E há de partir sem demora.
FIDALGO- Para lá vai a senhora?
DIABO- (corrigindo irritado)
Senhor!... A vosso serviço.
FIDALGO- Isso parece um cortiço.
DIABO- Porque olhais lá de fora.
FIDALGO- A que terra passais vós?
DIABO- Para o inferno, senhor.
FIDALGO- (irónico)
Hum! Terra bem sem sabor!
E passageiros achais
Para tal embarcação?
DIABO- Ora pois, tu és a cara
Dessa embarcação!
FIDALGO- Parece-te mesmo assim?
DIABO- Onde esperas salvação?
FIDALGO- Eu deixo na outra vida
Quem reze sempre por mim.
DIABO- Quem reze sempre por ti?
Hi,hi,hi,hi,hi,hi,hi.
Tu viveste a teu prazer
Pensando aqui ter perdão
Porque lá rezam por ti?
Embarca já!
FIDALGO – (apavorado)
Quê?! É assim que a coisa vai?
DIABO – (impaciente)
Embarcai! Embarcai logo!
Segundo o que lá plantastes
Agora aqui recebereis.
E como a morte já passastes,
Passai agora este rio (...)
"INFERNO" DE DANTE
Canto III
A porta do Inferno - Vestíbulo
POR MIM SE VAI À CIDADE DOLOROSA; POR MIM SE VAI ÀS PENAS ETERNAS; POR MIM SE VAI À PERDIDA GENTE; DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!Visão à Jerónimo Bosch
Uma torre humana muito alta
A certa altura começa a desabar
Os indivíduos tentam agarrar-se uns aos outros
Mas continuam a escorregar mais e mais
De vez em quando um leve burburinho
Caiu uma pessoa que tenta equilibrar-se
E deambula às voltas meia tonta e seminua
O mesmo vai acontecendo a todas as outras
Conheço bem algumas destas criaturas.
HN
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! (...)
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas- doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado-,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) 15-10-1929
À minha querida mamã
Ó terras de Portugal
Ó terras onde eu nasci
Por muito que goste delas
Inda gosto mais de ti.
Fernando Pessoa, 26-7-1895 (com apenas 7 anos)
Maria Bethânia recita "Num meio dia de fim de Primavera..." de Alberto Caeiro
https://www.youtube.com/watch?v=GV7uRmEdCSs
Maria Bethânia recita "Prece"de Fernando Pessoa