Florença é considerada o berço do Renascimento (séc. XV e XVI). Com o patrocínio da poderosa e riquíssima família Medici, a cidade conseguiu captar os melhores artistas e cientistas da época. Os Medici não só encomendavam obras a artistas famosos do seu tempo como Donatello e Botticeli, como proporcionavam aos jovens com talento a sua formação e sustento. Michelangelo teria uns 15 anos quando foi acolhido no palácio dos Medici onde viveu e estudou durante cerca de dois anos.
Os Medici investiram na construção de muitas das obras públicas e religiosas da cidade e promoveram o estudo de manuscritos antigos (gregos e romanos) que estavam em risco de desaparecer após a queda de Constantinopla.
A preocupação dos Medici em se rodearem das mentes mais avançadas do seu tempo, explica a escolha de Galileo Galilei para tutor dos seus filhos e a protecção que lhe foi concedida para as suas investigações científicas.
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| Lorenzo de Medici por Giorgio Vasari |
Os Medici descendiam de comerciantes de textéis que enriqueceram e fundaram o Banco Medici, a instituição financeira mais famosa da época. Com o seu poder económico e uma influência política sem precedentes, governaram Florença durante gerações sem possuírem títulos de nobreza iniciais, usando apenas o poder do dinheiro e das alianças. O domínio dos Medici estendeu-se ao Vaticano conseguindo eleger quatro papas da sua família.
Florença para o Cavaleiro de Sophia...
Sophia de Mello Breyner Andresen era uma grande admiradora da cultura e da arte italianas. Na sua obra "Cavaleiro da Dinamarca" narra as aventuras deste Cavaleiro nórdico do séc. XV que decidiu viajar para conhecer a Terra Santa. Na viagem de regresso a casa não quis perder a oportunidade de visitar outros lugares importantes da nossa civilização. Um deles, como não podia deixar de ser, era Florença, o berço do Renascimento.
E no princípio de Maio chegou a Florença.
Vista do alto das colinas floridas, a cidade erguia no céu azul os seus telhados vermelhos, as suas torres, os seus campanários, as suas cúpulas. O Cavaleiro atravessou a velha ponte sobre o rio, ladeada de pequenas lojas onde se vendiam coiros, colares de coral, armas, pratos de estanho e prata, lãs, sedas, jóias de oiro.
Depois foi através das ruas rodeadas de palácios, atravessou as largas praças e viu as igrejas de mármore preto e branco com grandes portas de bronze esculpido.
Por toda a parte se viam estátuas. Havia estátuas de mármore claro e estátuas de bronze. Outras eram de barro pintado. E a beleza de Florença espantou o Cavaleiro,tal como o tinha espantado a beleza de Veneza. Mas aqui tudo era mais grave e austero.
Procurou a casa do banqueiro Averardo, para o qual o seu amigo veneziano lhe tinha dado uma carta.
O banqueiro recebeu-o com grande alegria e hospedou-o em sua casa.
Era uma bela casa, mas nela não se via o grande luxo dos palácios de Veneza. Havia uma biblioteca cheia de antiquíssimos manuscritos e nas paredes estavam pendurados quadros maravilhosos.
Ao fim da tarde chegaram os amigos do banqueiro Averardo.
Sentaram-se todos para cear e, enquanto comiam e bebiam, iam conversando.
Então o espanto do Cavaleiro cresceu.
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| David de Michelangelo |
Falavam de estátuas antigas, falavam de pinturas acabadas de pintar. Falavam de passado, do presente e do futuro. E falavam de poesia, de música, de arquitectura. Parecia que toda a sabedorda terra estava reunida naquela sala.
Entrevista
No centro de Florença, ainda é possível sofrermos do síndroma de Stendhal (desordem psicossomática provocada pelo contacto com uma obra artística); Stendhal sentiu-a quando visitou pela primeira vez a Galeria degli Uffizi]?
É possível senti-lo, tão esmagadora é a presença de obras de arte únicas. Mas há que fazer um exercício prévio de purificação. Há que colocar um filtro: não olhar para os turistas, não ver as mulheres gordas, os homens barrigudos, as crianças malcriadas… Não ver! E seguir diretamente para os Uffizi. Depois, ninguém pode ir lá pela primeira vez e pôr-se na fila para ir ver toda as salas do museu, não faz sentido; há que escolher o que se quer ver, como intróito a visitas futuras.
Da última vez que lá estive, fui direto aos quadros de Fra Filippo Lippi e do filho, Filippino Lippi, que pude apreciar com tempo, até porque estava pouca gente naquelas salas. A incomparável Madonna de Lippi pai dá vertigens… Mas esta é a única possibilidade hoje em dia de ainda se ‘desmaiar esteticamente’ numa cidade como Florença, que, entretanto, foi invadida pelos turistas.
A Itália é um país ferozmente desigual; onde a igualdade será sempre aparente e não mais do que aparente. Há que admitir que, ali, ao longo dos séculos, a riqueza, o património, a arte, a cultura, a arquitectura, geraram produtos de beleza absolutamente incomparáveis.
Conto-lhe uma história curiosa. Há muitos anos, uns vinte, houve uma discussão extraordinária, durante a Feira do Livro de Frankfurt, entre um deputado social-democrata alemão e José Saramago. A certa altura, o deputado começou a falar contra os Papas, os papistas e a ostentação do poder do Vaticano. Saramago ergueu-se…
… e imagino que do alto do seu realismo-socialista… [risos]
… apostrofou o deputado luterano: que ele não percebia nada, que, se não tivesse havido os papas, não teríamos tido o Renascimento, não teríamos as obras de arte barrocas, não teríamos isto e aquilo, e que, apesar de tudo, o cristianismo legou à Humanidade coisas que o luteranismo não foi capaz de legar. Chapeau! Porque há que reconhecer que o facto de a Itália ser extraordinária é fruto da enorme desigualdade que sempre marcou a sua história.
A Itália, na verdade, é um país muito recente: data do século XIX. Durante grande parte da sua história pós-romana, foi um espaço fragmentado em vários reinos e cidades-estado.
Assim florescem, ao mesmo tempo, na Idade Média, Florença, Siena, a 50 quilómetros, ou Prato, a apenas 19 quilómetros. Havia muitas micro-cidades-Estado, que eram autónomas, soberanas, e que, na maior parte dos casos, cunharam moeda própria, até à invenção do florim.
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| Verrocchio e Leonardo da Vinci |
Esse ADN mantém-se até à actualidade. Os regionalismos, os particularismos de cidade contra cidade — Lucca contra Pistoia, Florença contra Siena… — mantêm-se no norte e, com particular fulgurância, no centro de Itália. Porque, atenção, não existe uma identidade italiana, existem identidades italianas.
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| Botticelli |
Num referendo recente sobre a autonomia das regiões italianas, 95% dos votantes na Lombardia e em Veneto votaram a favor. É simples: as regiões mais ricas e mais estruturadas, a norte, não querem participar no esforço económico do resto da Itália. O Mezzogiorno [sul] é paupérrimo. A Sicília poderia ser rica, mas não é.
Extratos da entrevista de Filipa Melo a António Mega Ferreira, 18/07/2019
Fotos de obras expostas na Galeria dos Uffizi
Poema para Galileo
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| Galileo Galilei por Justus Susterma |
Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei! (...)
Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando um perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios. (...)
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal. (...)
António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho (1906-1997)
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| Túmulo de Galileo na Basílica de Santa Croce |
Como um pombo...
(dedicado à mãe do poeta)
voo, rua a rua, no céu de Florença.
Procuro chegar ao telhado,
à destruída casa de teus pais.
Ficou no ar um pouco, que sorvo,
de amor e angústia. Bebo no Arno
a tua última lágrima, igual
à matéria do rio. Chego ao ponto
mais alto do Campanile de Giotto e ouço
os sinos que percorrem Fiesole, as colinas
e casas colónicas. Leonardo
comprava no Mercato di San Lorenzo
aves para lhes dar, de novo, asas.
Agora sou eu quem voa amando por ti
e por mim a sua triste e orgulhosa
alma, pouso no Battistero
porque sei que Dante foi ali baptizado
e conspurco em Orsanmichele a cabeça de San Giorgio
tocando no bronze que teve a mão de Donatello.
Ó coisas ocres, de açafrão, enegrecidas,
sobre as quais voo buscando pedaços de pão
que transeuntes dadivosos oferecem.
E à espera que uma persiana se abra
e encontre, Mãe, um rosto que lembre o teu
e onde nessa mão eu chegue e coma.
António Osório (1933-2021); a mãe era de Florença

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