segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A Morais Soares ontem e hoje

Este arruamento nasceu em 1906 como Rua do Conselheiro Morais Soares, no troço da antiga Estrada de Circunvalação compreendido entre a rotunda (hoje, Praça do Chile) no término da Avenida da Dona Amélia (hoje, Avenida Almirante Reis) e a Parada do Cemitério Oriental (hoje Parada do Alto de São João). 
Foi após a implantação da República que, pelo Edital Municipal de 27/11/1916, passou a chamar-se Rua Morais Soares, já que o título de conselheiro recordava o regime monárquico, por ser atribuído pelo soberano, tradicionalmente aos magistrados do Supremo Tribunal e, por vezes, a pessoas que tinham prestado serviços honrosos.






A Morais Soares do séc. XXI

A Morais Soares não é uma rua: é uma jangada apinhada de gente, um misterioso coração pulsante, uma metrópole imensa dentro do recinto da “Lisboa, cidade triste e alegre”, e paralela a ele. Em nenhuma outra parte Portugal é tão cosmopolita e global. Em nenhum outro ponto do seu território se parece tanto a São Paulo, a Xangai ou a Nova Iorque. A impressão que se tem, quando se sobe da Praça do Chile até ao Alto de São João, é que as mais de noventa nacionalidades que habitam atualmente o perímetro da freguesia de Arroios estão concentradas no trasfego daquela encosta desamparada, nos redemoinhos, manifestos ou subterrâneos, daquele mestiço lufa-lufa, que melhor descrito vem se o transformarmos em lufa-luta, porque o mundo, para quem o quiser ver, é isso: uma vitrina do espanto e da dor, do escombro e do combate, do abalo e da esperança que existir representa.
Quando este arruamento nasceu, há mais de um século, toda a área era então o termo da cidade. E ainda hoje o é, mesmo se de outra forma. “Aqui a terra acaba e o mar começa”, poderíamos dizer. Talvez, por isso, a Morais Soares tenha aquela vitalidade que se fareja nos sobreviventes; o constante sangue novo dos que chegam em busca de oportunidades; o instinto, a vulnerabilidade e a resiliência de quem se agarra com unhas e dentes a um mundo de passagem (...)

Tolentino Mendonça, 2020

O cardeal Tolentino Mendonça conhece muito bem a rua Morais Soares, pois morava na freguesia de Arroios antes de ir viver para Roma para desempenhar as novas funções  para que foi nomeado pelo Papa Francisco, no Vaticano.



No tempo das tertúlias nos cafés 



Na rua Morais Soares, antes do 25 de Abril, o Café Flôr do Império era um local de encontro de amigos, de namorados, de estudantes, de conhecidos e desconhecidos que se empolgavam em discussões filosóficas, políticas e religiosas dispostos a lutar, ou talvez mesmo arriscar a vida, por um mundo melhor e mais justo para todos.
Era no café Flôr do Império, com a bica em cima da mesa, depois das aulas e do trabalho, que se passava todo o tempo disponível, pela noite dentro. Mas havia outro tipo de clientes: os PIDES e, devido à proximidade do quartel, os da chamada Legião Portuguesa. Estes mais não eram que os olhos e os ouvidos do regime e discretamente tentavam escutar as nossas conversas.  
Não frequentaram o Café Flôr do Império escritores, cineastas, pintores, cançonetistas ou actores famosos como no Café Gelo, no  Monumental, no Monte Carlo, no Ribadouro ou no VáVá, mas ali se licenciaram médicos, professores. engenheiros, advogados e se formaram muitos políticos dos diferentes partidos que surgiram depois do 25 de Abril. 
O café Flôr do Império ainda existe, mas agora os tempos são outros e é apenas mais um local de passagem onde em 5 minutos, ao balcão, de pé, se come um pastel e se bebe um café. Não há tempo para nos sentarmos e muito menos para conversas.

HN


Cinquenta anos de história 

“Como habitualmente, vou a caminho do Café Flor do Império. Da última vez que lá estive vi um rapaz e acho que ele também reparou em mim. Era moreno e tinha uma grande cabeleira. Acabei por descobrir que se chama Carlos.
Entro no café… Ele não está cá. Sento-me na minha mesa habitual ao lado da Luísa, uma amiga que conheço daqui e pedimos o nosso lanche: dois cafés e dois pastéis de nata.
Como estou de costas para a porta não o vejo entrar, mas vem diretamente para a nossa mesa. A Luísa cumprimenta-o, apresenta-nos (parece que eles já se conhecem) e começam a conversar. A certa altura falam do seu jantar, portanto perco a esperança, já que ele namora e vive com uma das minhas amigas. Quando o Carlos se vai embora, ela pede desculpa pelo irmão que nos tinha interrompido. IRMÃO! Afinal estava enganada.
A seguir, a Luísa levantou-se e assim que ela sai porta fora, o Carlos vem ter comigo e pergunta se pode sentar-se. Falamos de tudo. Da ditadura (somos os dois contra), da faculdade, do café onde nos encontramos e até sobre a Luísa.
Já é de noite, mas ainda não ficámos sem tema, por isso decidimos ir jantar os dois.”

Esta é a história dos meus avós. Casaram-se dois anos mais tarde. Passaram o 25 de Abril juntos e tiveram um filho.
No ano de 2025, comemoraram 50 anos de casados. Isto mostra que uma coisa tão séria, importante e duradoura pode começar de uma forma tão simples.
Na mesa de um café.

Sofia Gabriel
(14 anos)

   

 

                                                                                                                                    








quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

EUA, meados do séc. XXI...




Caricaturas do artista americano Robert Berkeley (Bob Minor) (1884-1952).

1.
Uma nova lei no espaço mais consevador
dos Estados Conservadores e Unidos.
Cronologicamente é possível enumerar factos
que levaram a este estado de coisas.

Primeiro, em meados do século XXI,
no estado mais conservador dos Estados Unidos, 
alguém murmurou, em pontas de pés e voz finita,
a hipótese de um dia ser legalmente aconselhável
os ricos não procriarem com os pobres.

Não tanto por haver algo a lamentar no método
usado classicamente para a procriação
- essa forma, dizia Ted, de um pénis largar a sua carga de futuro
na hospedeira dos nove meses seguintes do mundo -
mas sim porque nada garantia que essa peste estranha,
caída em plena cabeça dos sem-abrigo e dos sem emprego,
não pudesse subitamente mudar de direcção,
como um búfalo desnorteado,
e dirigir os seus cornos mortais para a classe média e rica.

2.
Daí que a cautela legislativa não pareça excessiva;
e como em tempos se proíbira que homem copulasse com homem
e muitíssimas outras restrições em muitíssimas outras variantes,
também agora, porque não? existir uma lei que tornasse claro
que pobre não pode copular com rico nem filho de pobre 
com filho de rico.

O certo é que o governador do Estado do Texas, Ted Trash, aprovou;
setenta votos contra 666 do lado vencedor, na câmara das leis.
Discussões existiram em redor, por exemplo, 
da mínima linha, acima e abaixo da qual um pobre é pobre
e discussões ainda sobre se variantes afectivas,
não capazes de gerar descendência,
deveriam ser enquadradas na lei (...)

Gonçalo M. Tavares

Antena  3 - "Prova Oral" com Gonçalo M. Tavares sobre a obra "O fim dos Estados Unidos da América":