sábado, 28 de fevereiro de 2026

Amazónia

A Floresta Amazónica é a maior floresta tropical do mundo, estendendo-se por aproximadamente 6,7 a 7 milhões de quilómetros quadrados na América do Sul. Abrange nove países/territórios e é frequentemente comparada com a Europa devido à sua vastidão. O Brasil ocupa 60% da totalidade da Floresta Amazónica.
De 1985 a 2024 o desmatamentoa da Amazónia provocou o desaparecimento de vegetação nativa numa área equivalente ao tamanho da França.


O Rio das Amazonas?

Coube ao explorador espanhol Francisco de Orellana, o primeiro a descer o Amazonas de ponta a ponta, rebatizar em 1542 aquele marzão doce – a princípio chamado pelos colonizadores, justamente, Rio Santa Maria de la Mar Dulce – de Rio (das) Amazonas, após enfrentar uma tribo de ferozes guerreiras armadas de arco e flecha às suas margens. Seriam tapuias? 
Segundo uma tese, as “guerreiras” de Orellana eram na verdade mancebos cabeludos. De uma forma ou de outra, a maioria dos estudiosos é firme ao sustentar que o mito grego das amazonas está por trás de tudo, tratando como mera curiosidade a tese alternativa de que a palavra teria vindo de amassunu, termo indígena para “águas ruidosas”.
Como a etimologia é um campo de batalha em que pululam versões e mal-entendidos, a palavra amazona também carrega um qüiproquó de origem. O vocábulo foi provavelmente importado do iraniano ha-mazan (“guerreiras”), mas, adotado no grego, ganhou o apoio da chamada etimologia popular, aquela que parte de uma ideia falsa ou de uma aproximação sonora para alterar o curso de uma palavra: amazona foi interpretada como li gada a a + mazos, isto é, “sem seios”. Espalhou-se então a crença de que tais guerreiras se mutilavam para melhor manejar o arco. Mas nas representações artísticas da Antiguidade, o corpo das  amazonas  não é retratado de forma diferente.
Fica faltando explicar o porquê de Amazónia mas isso é o mais simples. Basta aplicar às amazonas o sufixo latino indicativo de lugar que é usado em Itália, Lusitânia, Brasília etc.

Sérgio Rodrigues



Júlio Pomar "O banho das crianças no Tuatuari,1997


A criação do mundo

Lenda do povo Araweté, habitante da região do riu Xingu

Houve um tempo em que o mundo era sem morte e sem trabalho. Existiam na terra os índios e os Mais, uma tribo de imponentes homens-deuses. Não havia as roças e nem o fogo; todos colhiam o mel e as frutas. Não se conheciam a doenças; a velhice e a morte não existiam. A floresta era amiga e os animais, dóceis. Durante as noites, os índios e os Mais fumavam grandes charutos, cantavam e dançavam; não se tinha inventado a mentira e a maldade; todos eram amigos, casava-se entre si e viviam em harmonia.
O chefe Mai, Ananãmi, havia se casado com uma índia. Moravam felizes em uma aldeia ao lado de árvores cheias de frutos e cipós floridos.
Um dia, sem motivo nenhum, a mulher de Anañami discutiu com ele. Levantou a voz e, aos gritos, o insultou. O mundo todo parou surpreso. Aquilo jamais havia sido visto.
O grande chefe Mai percebeu então que o paraíso estava morto. Chamou seu sobrinho Hehede, pegou seu chocalho de pajé e começou a cantar e a fumar. Foram rodeados por toda a aldeia, que se espantou quando o solo de pedra, onde estavam os dois, começou a subir sem parar até desaparecer nas alturas. Foi assim que surgiu o céu.
Estava feita a confusão na terra.
Muitos Mais subiram com Anañami. O céu povoou-se de guerreiros divinos, que levaram o paraíso com eles. As melhores plantas, os melhores animais foram viver nas alturas. Alguns Mais subiram mais alto, criando o céu vermelho que era o céu do céu.
Abandonada e perdendo o seu suporte de pedras, a terra começou a se dissolver em água; jacarés e piranhas esfomeados saíram dos rios e devoraram os índios. 
Os índios foram desaparecendo um a um. Os que não foram devorados acabaram por afogar-se. Só três pessoas escaparam. Dois homens e uma mulher, mais rápidos que os demais, subiram em um pé de bacaba e de lá assistiram ao desastre. Viriam a ser, depois, os pais de todos os índios.
Quando as águas desceram, a terra estava diferente. Aos poucos, povoou-se de animais ferozes; as árvores já não ofereciam tantas frutas; os sobreviventes tiveram que passar a pescar, caçar e plantar para viver. Anañami teve pena deles e mandou um pássaro vermelho para lhes ensinar a fazer fogo, plantar os roçados, construir canoas e tratar a grande quantidade de doenças que surgiram e enterrar os mortos.
A vida no céu era muito diferente da que se levava na terra. Lá as sementes brotavam sozinhas, as frutas e o mel estavam ao alcance da mão. Anañami levou para o céu o segredo da juventude e não havia nada a fazer além de cantar, dançar e beber cauim. E, como o tempo não se fazia sentir ao passar, então a vida deles era sempre presente e não existia futuro.
Na terra existia o tempo, o envelhecer, o esperar o dia de amanhã. O futuro. Na terra existia a esperança. Isso foi um presente de Anañami aos homens.

Vera do Val (texto com supressões)



Júlio Pomar "Pajé tocando Jakiu", 1988

Em 1988, Pomar passou perto de dois meses no Alto Xingú, um território em Mato Grosso, na bacia do Amazonas, habitado pelos Txicão, os Kamaiuras, os Iawalapitis e outras tribos indígenas, num acampamento montado para a rodagem do filme de Ruy Guerra baseado no romance ‘Quarup’, de António Calado, a convite do produtor Roberto Fonseca.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Os pobres são de Deus


Muito embora as primeiras disposições legais visando restringir a mendicidade, a ociosidade e a vadiagem datem de 1375 e, posteriormente, tenham sido implantados vários sistemas de repressão da mendicidade e da vadiagem, no princípio do século XX, em Portugal, reconhecia-se ao mendigo um lugar público nas malhas do sistema social.
No mundo rural, a sua actividade era marcada por vários percursos e ritmada por determinados acontecimentos — festas, feiras, procissões, funerais, etc. —, onde a sua presença era aceite e, tantas vezes, indispensável. Habitualmente, pernoitavam num cabanal cedido, num palheiro de um lavrador ou, noutras regiões, dormiam, por direito de costume, em certas construções colectivas.
Também nas cidades a mendicidade era uma realidade socialmente tolerada e até mesmo legitimada pelas autoridades, quando desenrolada de acordo com os regulamentos administrativos(,,,)
Por sua vez, a esmola constituía um sistema de prestações e contraprestações, reproduzido através de gestos e palavras relativamente estereotipados. O mendigo estendia a mão, exibia as suas enfermidades, gemia e pedia — ‘Dê-me cinco reizinhos, pelo amor de Deus’, ‘Um tostãozinho para comprar pão para as crianças’ (…) Aquele que passava, assistia à procissão ou à romaria, menos pobre ou mais rico, por compaixão, sentimentalismo, ostentação, etc., dava. O mendigo retribuía a esmola recebida por intermédio de uma contraprestação, não material, indirecta e mediatizada por Deus;  contudo, para o bom funcionamento da troca, a contra dádiva do mendigo deveria ser um equivalente culturalmente definido e expectado da coisa recebida: uma prece — ‘Que ganhe o céu (...) e eu o ajudarei a lá entrar com as minhas rezas’, ‘Muito obrigada, minha Santa Senhora! Hei-de rezar três padres nossos por alma do seu defunto’, ‘Seja pela memória do seu defunto e em louvor do Senhor dos Passos’,  etc...
A esmola supunha um movimento de retorno, exigia uma contra obrigação por parte do mendigo; similarmente, o doador não concebia a dádiva realizada como algo de gratuito e perdido, esperando que o beneficiário da esmola lhe retribuísse a dávida, sob a forma de uma interferência no domínio do sobrenatural.
Com efeito, frequentemente, as povoações viam no mendigo a imagem de Cristo, o próprio Jesus Cristo disfarçado e atribuiam-lhe um papel de mediador no contacto com o sagrado ou de agente sobre o divino. Especialmente nas aldeias, salientava E. Veiga de Oliveira, o mendigo revestia «aspectos quase bíblicos, com os seus andrajos indescritíveis e a sua alfaia própria: a manta e o bordão para o caminho, o ‘surrão’ para o pão e as batatas, a ‘almotolia’ para o azeite. A esmola é sempre qualitativa, alimentar, e nunca em dinheiro, e não deve ser recusada, sobretudo se está a comer, porque os pobres são de Cristo». A razão será a de que haverá sempre a ideia de que um pobre pode ser Jesus Cristo».
Equiparado a Jesus, numa canção de cegada de Trás-dos-Montes, num lema alentejano bem conhecido ‘Quem dá aos pobres empresta a Deus ou naquele outro ditado lisboeta ‘Esquecer o pobre é esquecer a Deus, o mendigo desempenhava certas funções, nomeadamente, a de possibilitar «uma caridade purificadora».

Susana Pereira Bastos (texto com supressões)
Pintura de António Ramalho "Mendigo" 1896




Natal

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser -  e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim,rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem  daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

Miguel Torga

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Lisboa, anos 50


Querubim Lapa


Os Pobrezinhos

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres uma moeda, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto.
O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico:
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros:
- O que é que o menino quer, esta gente é assim.

António Lobo Antunes /texto com supressões



Crónica de Lobo Antunes lida por ele próprio:

https://www.youtube.com/watch?v=sYNwLl8Ovf8