No romance "Também há rios no céu" acompanhamos personagens de épocas distintas (séc. XIX, XX e XXI) que, por nascimento, pelas suas raízes familiares ou ainda apenas por se sentirem atraídos pela história dos povos antigos da Mesopotâmia, acabam por se encontrar com a cultura yazidi.
No seguinte extracto do romance, Narin, uma menina yazidi com 9 anos de idade, ouve a avó contar a história da criação do mundo, segundo a tradição do seu povo:
- Naqueles anos longínquos, em tempos idos - diz a avó placidamente - Muito antes de a Terra existir, só havia Deus, Xwedê, e nada mais. Nessa altura tudo era calmo e pacífico. Em todo o lado só havia silêncio puro, pois os sons ainda não tinham sido inventados. Nem sequer um sussurro. Então, uma manhã, Deus decidiu moldar uma pérola a partir da Sua essência preciosa e enchê-la de luz divina. Uma pérola tão brilhante que Ele podia admirar o Seu próprio reflexo na superfície.
Deus confiou a pérola a um pássaro mágico chamado Anfar, e o pássaro guardou-a no seu ninho como se fosse um ovo. A gema permaneceu ali, invisível, intacte, incólume. esse estado abençoado durou quarenta dias - ou, talvez, quarenta mil anos. Não havia diferença, pois também o tempo estava dentro da pérola. Ainda não tinha nascido. Não estava dividido em anos, meses, semanas ou horas. O tempo era um todo, e a pérola fazia parte do todo, como tudo o mais.
Mas então, por razões que nunca descortinaremos, Deus pisou a pérola com toda a Sua força, esmigalhando-a. Foi deste modo que Xwedê criou as montanhas, as florestas e os vales. Dos pedaços dispersos, Ele esculpiu o Sol e a Lua. Pendurou as estrelas no firmamento como decorações. Extraiu água do cerne da pérola e e encheu com ela nascentes, rios e oceanos (...)

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