terça-feira, 9 de junho de 2026

Reabilitar Juromenha

A Fortaleza Juromenha no início do séc. XX passou a ser irrelevante  para a defesa do território devido à evolução das estratégias e recursos bélicos. Em 1920 a praça foi definitivamente abandonada e começou o seu declínio. Matos Sequeira (in Guia de Portugal, Biblioteca Nacional de Lisboa, 1ª edição em 1927) escreveu: "Juromenha actualmente é uma ruína. Os restos das muralhas caem aos bocados, as casas onde se abriga a população civil estão, a maioria delas, desabitadas (...)". 
Muitos anos depois, cerca de 1980, José Saramago na sua "Viagem a Portugal" visita a Fortaleza de Juromenha e  pelo seu testemunho o espectáculo é ainda mais desolador: " O viajante vai ao castelo. É realmente um mar de ruínas. À entrada da cintura seiscentista, sob o arco da porta, uma vaca e um vitelo remoem pacientemente (ou obrigatoriamente) o que já comeram. Lá dentro adivinham-se os lugares onde já viveu gente: uma chaminé, a que falta o piso em que assentava, está suspensa no vazio. O recinto é vasto, o viajante não vai percorrê-lo todo. Mais ruínas, o resto duma capela, provavelmente a Misericórdia, e outras, mais pungentes, da Igreja de Nossa Senhora do Loreto, onde dorme a sesta um rebanho de ovelhas que a chegada intempestiva do viajante não basta para perturbar (...)"
Entretanto Juromenha que até 1836 fora sede de concelho, passou a sede de freguesia até 2013. Pertence actualmente à União das Freguesias do Alandroal.
Em 2011 Juromenha tinha 107 habitantes! Desde o abandono da fortaleza, em 1920, começou a perder população, situação que se mantém agravada por outros problemas que afectam o interior do país. 
 



Finalmente obras de reabilitação

Iniciada em 2021, a obra envolveu o restauro dos três níveis de muralhas, nomeadamente a islâmica, a medieval e a seiscentista e a instalação de iluminação cénica, num investimento de 5,3 milhões de euros, com apoio de fundos europeus. 
Mas este projecto, fundamental para a consolidação das muralhas e evitar novas derrocadas, não abrangia o interior da fortaleza onde se encontram, em ruinas, as igrejas da Misericórdia e de São Francisco e a Igreja Matriz de Nª Sra. do Loreto - provavelmente de meados do século XIII, com o nome de Santa Maria - a cadeia, os antigos Paços do Concelho e a cisterna.
Espera-se que agora seja encontrada uma solução para reabilitar todo este património e dar a este monumento a dignidade que ele merece.



Prémio nacional para Jeromenha

Em cerimónia realizada hoje no Museu Vista Alegre, em Ílhavo, a intervenção de restauro e conservação da Fortaleza e Castelo de Juromenha recebeu o Prémio Nacional de Reabilitação na categoria de Restauro.
Os prémios nacionais de reabilitação distinguem há 14 anos as melhores intervenções de reabilitação urbana em várias categorias, tendo sido admitidas este ano cerca de 80 candidaturas. A Fortaleza de Juromenha foi ainda finalista, entre três candidatos, na categoria de Estruturas.
A Fortaleza de Juromenha está integrada no Programa REVIVE prevendo-se o desenvolvendo de um projeto de natureza turística no seu interior em harmonia com o uso público do monumento.

Ana Rocha, 19 de Maio de 2026




sábado, 6 de junho de 2026

Eis a Fortaleza de Juromenha!









A lenda

Diz a lenda que um rei visigodo desejava casar com sua irmã Mégnia ou Menha que se opunha e não dava qualquer esperança de mudar de ideias. Então o rei, para a convencer, resolveu prendê-la numa torre do castelo. Mas ela continuava a  recusar-se dizendo: Jura Menha que não… 
Ainda hoje uma das torres do castelo tem a denominação de torre da Menha, por supostamente ali ter estado presa a dita donzela.
É apenas uma lenda. Sabe-se que, na realidade, Juromenha era chamada de Julumaniya pelos muçulmanos que a habitaram e, provavelmente, eles adoptaram um topónimo já existente.


E agora a história 

A Fortaleza de Juromenha, pela sua localização na margem do rio Guadiana, desempenhou durante séculos um papel fundamental na consolidação do território português.
As suas origens são muito antigas. As descobertas feitas pelos arqueólogos provam que a ocupação deste local é anterior à época dos romanos. 
Quando a península Ibérica foi invadida pelos muçulmanos,  durante dois séculos Juromenha ocupou um lugar de destaque como posto-avançado de defesa da importante cidade de Badajoz, sob o comando do califado de Córdoba. 
A povoação e fortaleza foram conquistadas pelas tropas de D. Afonso Henriques em 1167, perdidas para muçulmanos em 1191, voltando às mãos dos portugueses  em 1242.
No interior desta Fortaleza foram celebrados dois casamentos reais: o do rei português D. Afonso IV " O Bravo" com Dª Beatriz de Castela e o do rei D. Afonso XI de Castela com Dª Maria de Portugal.
Perante a iminência de uma invasão espanhola, na sequência da Restauração Independência, ocorrida em 1 de Dezembro de 1640, procedeu-se ao reforço da praça-forte de Juromenha. Apesar disso,  foi perdida em 1662 e permaneceu ocupada por tropas espanholas até ao Tratado de Lisboa em 1668, momento em que volta à posse da Coroa portuguesa.
A fortaleza sofreu danos severos durante o terramoto de 1755 tendo sido posteriormente recuperada. Mas durante a Guerra das Laranjas em 1801 volta ao controlo de tropas espanholas e só regressa definitivamente em 1808 a mãos portuguesas. No entanto é abandonada em 1920 por impossibilidade de cumprir a sua função perante o aparecimento de  novos  meios bélicos. E assim começou o declínio da Juromenha.
A Fortaleza de Juromenha é um local com muita história, de visita obrigatória de onde podemos avistar Vila Real e Olivença, em Espanha,  na outra margem do rio Guadiana.




Tragédia na Fortaleza de Juromenha em 1659

Em Outubro de 1658, ainda na sequência da guerra da restauração da independência de Portugal (1640), a rainha Dª Luísa de Gusmão mandou organizar um exército de socorro, constituído por todas as guarnições e homens válidos que foram retirados das praças e fortalezas e substituídos por gente sem qualquer conhecimento do uso de armas, incluindo rapazes e velhos
Os estudantes não escaparam à mobilização e, um dos casos mais conhecidos foi a companhia formada com cerca de cem estudantes da Universidade e Colégio do Espírito Santo de Évora que seguiu para a Fortaleza de Juromenha.
No dia 14 de Janeiro de 1659, o exército português conseguiu uma grande vitória sobre os castelhanos, sendo a praça de Elvas, completamente libertada. A notícia chegou a Jeromenha logo no dia seguinte e, como a guarnição da praça ia voltar em breve, os estudantes deviam preparar o seu regresso a Évora.
Ora. quando estes se encontravam junto da casa do governador para se despedirem, um médico que estava a assistir um homem muito doente, mandou chamar um padre para lhe dar os Sacramentos. Apareceram logo dois padres, mas como  já era de noite, pediram um archote que baixaram para ver melhor a cara do moribundo. Não repararam nos  barris de pólvora ali guardados que explodiram, atingindo o paiol principal que também explodiu. Morreram mais de cem pessoas, incluindo os estudantes da Universidade e Colégio do Espírito Santo de Évora.