sábado, 11 de dezembro de 2010
O Deus Da Incerta Ignorância
De que serve saber um pouco mais ou um pouco menos
se a nascente do ser não é o pensamento?
Amadurecer é despojar-se de ofuscantes lâmpadas e plumas
e encontrar a nudez e o pulmão da sombra
numa respiração leve e longínqua
que nos faz vislumbrar o paraíso do silêncio
O sábio é aquele que sabe que tudo está a mais
quando não se encontrou o centro tranquilo
em que a paixão é a sossegada estrela
que reúne nos seus raios os contrários impulsos
Quando se vê o delicado desenho de água ténue
que envolve a sombra das coisas cintilante e trémula
a mente se recolhe na sua côncava câmara
e em vez de ramificar-se em ramos vãos
condensa-se num ovo de silêncio e apaixonadamente vê
António Ramos Rosa
http://www.youtube.com/watch?v=8_CUq3_MKZU&feature=related
sábado, 4 de dezembro de 2010
Está tudo ligado - O poder da música
O primeiro violino e o primeiro contrabaixo da Filarmónica de Berlim (um israelista e um egípcio) e o timbalista principal da Filarmónica de Israel são membros da Orquestra do Divã e, de vez em quando, sentam-se na mesma secção com estudantes que só tocam os seus instrumentos há dois ou três anos. É uma excelente oportunidade para os estudantes e um acto de generosidade e dedicação da parte dos profissionais à causa da orquestra. Afinal de contas, o projecto não existe simplesmente para que a orquestra faça concertos; os profissionais que continuam a voltar à orquestra não o fazem apenas por razões musicais mas por causa da forma humanista de abordar o conflito, forma que subscrevem.
É claro que a Orquestra não pode trazer a paz. Pode, todavia, criar as condições de compreensão sem as quais é impossível falar sequer de paz.Tem a possibilidade de despertar a curiosidade de cada indivíduo para escutar o que o outro tem a dizer e de inspirar a coragem necessária para ouvir aquilo que preferia não ouvir. Muita gente se tem referido ao projecto como um maravilhoso exemplo de tolerância, termo de que não gosto, porque tolerar alguma coisa ou alguém tem implícito um aspecto negativo; é-se tolerante apesar de certos defeitos. O significado da palavra tolerância é deturpado quando entendido apenas como um aspecto de generosidade altruísta. Tem implícito um elemento de presunção - eu melhor que tu. Goethe exprimiu isto de forma sucinta quando disse: " Simplesmente tolerar é insultar; o verdadeiro liberalismo significa aceitação". A verdadeira aceitação, acrescentaria eu, significa reconhecer a diferença e a dignidade do outro.
Daniel Barenboim
http://www.youtube.com/watch?v=WyOJ-A5iv5I
terça-feira, 23 de novembro de 2010
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal,
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Fernando Pessoa
http://www.youtube.com/watch?v=Hr9sTxkO2xw
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Goa
Ao sair do aeroporto de Dabolim, aturdido pelo calor, o cansaço de duas noites sem dormir, e sobretudo o confuso alvoroço da multidão em festa, abandonei a minha mala, aliviado, nas mãos do primeiro motorista de táxi. Tive sorte. Sal parece um tipo honesto e interessante. Católico. O tablier do carro, transformado em altar, proclama isso mesmo: há uma Virgem Maria dentro de uma redoma de vidro, com pequenas luzes coloridas que piscam ao ritmo da música, uma minúscula urna com o corpo incorrupto de São Francisco Xavier, um crucifixo de prata suspenso do espelho retrovisor. Porém, o que primeiro me chamou a atenção foi a bandeira azul e branca do Futebol Clube do Porto.
- Você fala português?
Sal riu-se:
- Bom dia...
O português dele, infelizmente, resume-se a isto. Um táxi com a bandeira do Futebol Clube do Porto é uma coisa que apenas esperava encontrar na cidade do Porto. Se fosse do Sporting ou do Benfica, clubes menos regionais, não estranharia tanto. Ontem, curiosamente, em conversa com o escritor Mário Cabral e Sá, soube que nos anos cinquenta se chegou a criar um Futebol Clube do Porto de Siolim: "copiávamos tudo de Portugal" - disse-me ele com amargurada ironia. O táxi de Sal também tem uma bandeira portuguesa, colada no vidro posterior, ao lado de outra da União Europeia. Finalmente - foi isso que me conquistou - Sal deu ao seu carro um belo nome, Princesa de Goa, e escreveu-o a tinta dourada em ambas as portas.
José Eduardo Agualusa
http://www.youtube.com/watch?v=Ux2FdIHJ2rs
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Amor
Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha intensa, e mais tarde as noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.
Herberto Helder
http://www.youtube.com/watch?v=w8bk9_nzLcM
sábado, 6 de novembro de 2010
Outra vez o Tejo
Um barco atravessa o Tejo.
Vem da infância, não sei para onde vai.
É branco, dessa brancura só dada
às aves. O rio,
que não via há tanto tempo,
entra agora pelas ruas de Lisboa
ao encontro da tão amada
luz dos jacarandás.
Volto a ter oito anos neste jardim,
vou perder-me nestas ruas,
nestas calçadas, onde o grito
das gaivotas sobe a prumo,
vou correr com o vento de esquina
em esquina, subir
com as árvores, ser
com elas poeira fina.
Eugénio de Andrade
http://www.youtube.com/watch?v=HVh86j7vCMw
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
O cheiro das ondas no instante em que o ar é mais frio do que a água
Normalmente é no terceiro minuto a partir do crepúsculo que o ar da praia é mais frio do que a água. Não no segundo nem no quarto: no terceiro e durante onze segundos, o que requer discernimento, atenção e paciência. O melhor é encostarmo-nos à muralha, de queixo na palma, vigiar as gaivotas, dar fé da mudança de cor no horizonte e nisto, mal o terceiro minuto começa, tira-se a palma do queixo para que o ar poise nela e aí está: pega-se no ar da praia, mete-se no bolso e leva-se para casa sem deixar entornar. Tem de utilizar-se logo visto que no dia seguinte, a partir das dez, já o ar aqueceu. Puxa-se com cuidado do bolso e respira-se devagarinho. Quase sempre, então, os pinheiros estremecem e parece existir, nas mulheres da família, uma espécie de vontade de chorar. Não de tristeza, claro: do facto de existir para sempre, dentro delas, um búzio comovido. Só conheci um homem de mãos tão impregnadas de nuvens quanto as suas: o senhor José, duro camponês de Trás-os-Montes, no jardim dos meus pais, a fazer crescer uma flor com dedos humildes, de ossos suaves como o leite, vagarosos, certeiros. Devia ter tido o bom senso de morrer antes dele para que me fechasse os olhos para sempre. Mas descuidei-me e o senhor José lá está no cemitério, humilde, escalavrado, agreste, a fazer corpo com a terra. O seu sorriso sem dentes, a sua bondade, o pobre, gasto corpo destroçado. A língua de pedra o que dirá agora? Nasceu em São Martinho da Anta, chamava-me
- Menino
e era muito mais elegante de alma do que eu, de uma delicadeza
ia escrever aristocrática, escrevo aristocrática
que não possuí nunca: sou feito de cardos e há palavras que deixei secar dentro de mim ou a vida secou. Claro que vou escrevendo, vou respirando, até me acontece, às vezes, orvalhar-me. Mas escondo.
António Lobo Antunes
http://www.youtube.com/watch?v=j51oyMWOWEM
António Lobo Antunes
http://www.youtube.com/watch?v=j51oyMWOWEM
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