domingo, 17 de janeiro de 2016

O Norte


Primeiro, as verdades.
O Norte é mais Português que Portugal.
As minhotas são as raparigas mais bonitas do País.
O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela.
As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram. Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.
Mais verdades.
No Norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal.
Mas há uma verdade maior. É que só o Norte existe. O Sul não existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte. No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista? No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro. Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. Não haja enganos. Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte. Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular.
É esta a verdade. Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.
No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade. Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.
O Norte é feminino. O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso. As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos. Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente. Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos.

Miguel Esteves Cardoso
(pintura de Sonia Delaunay)
https://www.youtube.com/watch?v=enETSUKdjH0

domingo, 10 de janeiro de 2016

Ode à paz


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
                               deixa passar a Vida!


Natália Correia
(pintura de Carmo Pólvora)
https://www.youtube.com/watch?v=92IdbcZZjeQ

sábado, 2 de janeiro de 2016

As meninas

                       

                         lavam os dentes, já tomaram banho,
                         e em suas camisinhas de flanela
                         dão boas-noites numa tarantela,
                         são cinco-réis de gente no tamanho.

                         as meninas já estão a bom recato.
                         não queriam ir dormir. choramingaram.
                         houve histórias de fadas em que entraram.
                         depois, tombou o livro num sapato.

                         amanhã de manhã levam vestida
                         a blusinha de lã azul xadrez,
                         a saiinha encarnada, as meias pretas,

                         mas no país da bela adormecida
                         há flores e pintainhos e talvez
                         um gato, um peixe, um cão e borboletas.

                          Vasco Graça Moura
                          (pintura de Domingos Sequeira)
                          https://www.youtube.com/watch?v=DvQLdN8pHwE

domingo, 27 de dezembro de 2015

O fósforo na palha

                     
                          Choro
                          como um seixo. Reconheço a ferida
                          que o meu peso marca sobre a areia,
                          sulco inútil. O vento
                          limpa a duna, cobre
                          o eco do meu rastro.

                          Como um seixo! Se ao menos
                          uma criança me erguesse e me guardasse
                          no bolso do babeiro!

                          Egito Gonçalves
                          (escultura de Rui Chafes)
                          https://www.youtube.com/watch?v=FtrBUuVzpMY

sábado, 19 de dezembro de 2015

Os Girassóis de Van Gogh


                                     Hoje eu vi
                                     Soldados cantando por estradas de sangue
                                     Frescura de manhãs em olhos de crianças
                                     Mulheres mastigando as esperanças mortas.

                                     Hoje eu vi homens ao crepúsculo
                                     Recebendo o amor no peito.
                                     Hoje eu vi homens recebendo a guerra
                                     Recebendo o pranto como balas no peito.

                                     E, como a dor me abaixasse a cabeça,
                                     Eu vi os girassóis de Van Gogh.

                                     Manoel de Barros
                                     https://www.youtube.com/watch?v=lLBDAXy8FuA

domingo, 13 de dezembro de 2015

Confidências


Bom-Dia, Mãe!
Senta-te ao meu lado, que eu vou contar-te a viagem que eu fiz. Dá-me a tua mão para que eu a conte bem!
Dei a volta ao mundo, fiz o itinerário universal. Tudo consta do meu diário íntimo onde é memorável a viagem que eu fiz desde o universo até ao meu peito quotidiano. Vim de muito longe até ficar dentro do meu próprio peito e defendido pelo meu próprio corpo.
Durante a viagem encontrei tudo disposto de antemão para que nunca me apartasse dos meus sentidos. E assim aconteceu desde aquele dia inolvidável em que reparei que tinha olhos na minha própria cara. Foi precisamente nesse dia inolvidável que eu soube que tudo o que há no universo podia ser visto com os dois olhos que estão na nossa cara. Não foi, portanto, sem orgulho que constatei que era precisamente por causa de cada um de nós que havia o universo. 
E assim foi que todas as coisas que a princípio me pareciam tão estranhas começaram logo desde esse dia inolvidável a dirigirem-se-me e a interrogarem-me, quando ainda ontem era eu que lhes perguntava tudo. Ontem, cada um de nós viajava por todas as partes do universo, com aquele desejo íntimo de se encontrar, e se a viagem demorou mais do que devia é que não seria fácil acreditar imediatamente que cada um de nós estava, na verdade, em todas as partes do universo.
Ainda ontem o universo me parecia um gigante colossal capaz de me atropelar sem querer; e enquanto eu procurava a maneira de não ficar espezinhado pelo gigante, quem poderia, Mãe, ter-me convencido de que éramos nós próprios o gigante?
Todas as coisas do universo aonde, por tanto tempo, me procurei, são as mesmas que encontrei dentro do peito no fim da viagem que fiz pelo universo.

Almada Negreiros
(pintura de Almada Negreiros)
https://www.youtube.com/watch?v=dZknZcVtGr8

sábado, 5 de dezembro de 2015

Com licença poética

               

                  Quando eu nasci, um anjo esbelto,
                  desses que tocam trombeta, anunciou:
                  vai carregar bandeira.
                  Cargo muito pesado p´ra mulher,
                  esta espécie ainda envergonhada.
                  Aceito os subterfúgios que me cabem,
                  sem precisar mentir.
                  Não sou tão feia que não possa casar,
                  acho o Rio de Janeiro uma beleza e
                  ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
                  Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
                  Inauguro linhagens, fundo reinos
                  - dor não é amargura.
                  Minha tristeza não tem pedigree,
                  já a minha vontade de alegria,
                  sua raiz vai ao meu mil avô.
                  Vai ser coxo na vida é maldição p´ra homem
                  Mulher é desdobrável. Eu sou.

                  Adélia Prado
                 ( Pintura de Paula Rego)
                  https://www.youtube.com/watch?v=cs4d3QOHHsE