sábado, 4 de janeiro de 2025

Não gosto tanto de livros


Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever

Adília Lopes
Pintura de Jonathan Wolstenolme

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Receita de Ano Novo


https://www.youtube.com/watch?v=TaFr7cYlRNo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade
Caricatura de Bordallo Pinheiro

sábado, 21 de dezembro de 2024

Casa de família




Av. Dr. Lourenço Peixinho, 1953

Iluminaçóes de Natal 2022

Era na casa de Aveiro que toda a família se reunia, para comemorar as datas importantes como o Natal e passar uns dias de férias. No tempo da avó juntavam-se as quatro gerações: a avó, os seus filhos, netos e bisnetos. Era  uma casa de portas abertas onde, por princípio, se arranjava sempre mais um lugar à mesa e uma cama para dormir para os familiares e amigos.
Normalmente reinava a boa disposição à mesa, todos brincavam e gozavam uns com os outros. Além disso se, por acaso, alguma iguaria era muito do agrado de alguém, este utilizava a táctica de começar a dizer mal, mas mesmo muito mal da comida, porque se os outros não comessem, mais ficava para ele! Existia um “Livro de Reclamações”, como em qualquer unidade hoteleira que se preze (!), colocado bem à vista de todos na casa de jantar. Às vezes divertiam-se imenso a reler, por exemplo, as queixas apresentadas pelos netos, quando ainda eram crianças e adolescentes.
Voltando mais atrás, esta casa testemunhou e tinha sofrido imenso com as traquinices dos filhos quando crianças (principalmente dos dois mais velhos). Imaginem sapatinhos a voar pelas janelas para grande desespero da avó e, melhor ainda, uma vez arremessaram paus (daqueles normalmente utilizados para ajustar o tapete aos degraus das escadas) através da janela do sótão estilhaçando violentamente os vidros que recobriam o espaço entre os dois prédios. E que dizer das escavações que fizeram nas paredes do sótão, como se procurassem algum tesouro! 
Na verdade, na sua meninice, os filhos tiveram a sorte de gozar de bastante liberdade para brincar dentro de casa. Podiam andar  de triciclo e  até de comboio com as cadeiras  que arrastavam  pelo corredor! Quando os pais saíam à noite era um forrobodó: saltavam em cima dos colchões das camas que serviam de trampolim e treinavam a pontaria com as almofadas tentando acertar nas cabeças uns dos outros. Contavam com a cumplicidade da empregada, nesse tempo interna que, enfim, era apenas um pouco mais velha do que eles.
Mais tarde, como todos os adolescentes, gostavam de ouvir música (discos em vinil, normalmente um long play) com o volume de som tão alto que se ouvia do outro lado da avenida. O avô sentia um grande orgulho na sua aparelhagem que, pela sua qualidade (as colunas eram enormes, o gira-disco com uma agulha especial), suscitava a admiração dos amigos dos filhos.
Não foram muitos, mas ficaram famosos os bailes que tiverem lugar nesta casa, apadrinhados pela avó, para comemorar o aniversário dos seus descendentes, possibilitando um convívio rapazes/raparigas pouco habitual antes do 25 de Abril.
Entretanto os filhos cresceram, tornaram-se  adultos e cada um foi à sua vida… No entanto a ligação à casa de família em Aveiro manteve-se e foi transmitida às gerações mais novas.
Falta dizer que esta avó era uma espécie de castelã e esta casa o castelo encantado de todas as crianças que por aí  passaram.

HN


terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Retrato do artista quando coisa


A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não
aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que 
compra pão às seis horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc.etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros
Aguarela de Maria Keil




segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

O mundo que virá

Os amigos esperavam-me mais adiante
mas por engano ou por instinto
saí do comboio naquele lugar
uma estação vazia onde não se chega 
mas se naufraga
um mundo diferido, estirado como uma pantera
sem caminho de regresso
do qual não restará história

Será que se compreende melhor 
a vida em sítios assim
que parecem a princípio mais pavorosos
do que a realidade?

A fuligem deixada a intervalos pelas camionetas
os blocos de apartamentos que repetiam
no espaço visível o mesmo erro
um grupo de jovens africanos acantonados
as mãos como se cada veia lhes tremesse
rostos magros, com um sorriso ingénuo
por qualquer razão era triste passar através deles

Só a piedade pode falar ao mundo que virá
e restolhar entre o destino quando escurece
como se de facto aguardássemos 
um outro nome

José Tolentino Mendonça

Pintura de Malangatana

https://www.youtube.com/watch?v=GNEbEAk5dCA


sábado, 23 de novembro de 2024

A caminho do seminário




Tomei o comboio na estação de Castanheira, depois que o Calhau deixou de me abraçar.
Foi ele que me trouxe no carro de bois de D. Estefânia, em cuja casa, como se sabe, me talharam o destino. Minha mãe veio ainda à igreja, pela madrugada, ver-me partir; mas sentindo-me tão distante como se eu fosse preso, como se eu já pertencesse a um mundo que não era o seu - mal me falou. Por seu lado, D. Estefânia disse-me brevemente que fosse na paz de Deus - e desapareceu. 
Sozinhos no carro, Calhau abismava-se no grande silêncio da manhã. Apenas de vez em quando, emergindo da solidão, mas fixo ainda na radiação de tudo, dizia coisas naturais da terra e das sementes, ou perguntava de novo a que horas era o comboio. 
- Às nove - respondia eu. 
- Chegamos a tempo. 
E outra vez se calava, de capote às orelhas, sentado na borda do carro, com as pernas suspensas. Mas logo depois murmurava de novo:
- Tens sorte. Olha eu que nunca pus os pés num comboio. Já o vi três vezes com esta. Mas nunca lá pus os pés. Tens sorte. 
A névoa da madrugada desprendia-se dos campos, ia envolvendo a montanha. Dobrado de frio, o queixo nos joelhos, a saca da roupa ao lado, eu sentia-me quase feliz, mas de uma estranha felicidade inquietante. Perturbavam-me de prazer a trepidação da partida, o halo da novidade e sobretudo o apelo intrínseco e doce de todas as pequenas coisas que ficavam mais perto de mim, como o fato novo, estreado esse dia, e o farnel da merenda para comer no comboio. Fechado nestas quimeras, eu calava-me também, como se com o silêncio me defendesse de tudo o que era ameaça à minha roda. Porque tudo para mim era estranho e ameaçador, desde a montanha imóvel na enorme manhã circular até ao espectro do Calhau e dos bois, tão insólitos na sua placidez inicial, como se viessem carregando o carro, submissamente, através de longos séculos... Afinal chegámos meia hora antes do comboio. De modo que, aproveitando esse bónus de espera, Calhau e eu pusemo-nos a estudar as linhas, os vagões nos desvios, a engrenagem das agulhas. 
Um homem fardado veio à plataforma dar avisos de corneta, uma inquietação nova centrou a atenção de todos. E, bruscamente, entre dois grandes penhascos, o comboio rompeu enfim como um rancor subterrâneo, alucinado de ferros e fumarada. E tive medo. Pela primeira vez estremeci de medo até aos limites da vida, não tanto, porém, da fúria do comboio, como dessa coisa insondável e enorme, tão grande para mim, que era partir.

Vergílio Ferreira

Cartaz do filme "Manhã Submersa" do realizador Lauro António baseado na obra homónima de Vergílio Ferreira

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Estação ferroviária


Sou de um tempo e lugar em que os comboios eram lentos, tão vagarosos que pareciam arrependidos da viagem. Na estação, não havia despedida. Nada de separação traumática, o golpe definitivo da partida. Tudo era tão lento e esfumado que se convertia em irrealidade. A despedida como repentina ruptura eu aprendi mais tarde, no meu primeiro aeroporto. Voar é o sonho da própria poesia. Mas o voo tem despesas de afecto muito pouco poéticas.
Nasci e vivi entre meandros de rios, preguiçosas águas que se apegavam às margens. A estação ferroviária obedecia a essa líquida paisagem. O comboio era um barco e eu entendia porque se chamava "cais" àquela plataforma onde as mães agitavam os lenços brancos. Para mim, os modos lentos do comboio não resultavam de incapacidade motora. Eram, sim, gentileza. Uma afabilidade para com essas pequenas mortes, que são as despedidas.
Muitas vezes me desloquei para a estação dos caminhos-de-ferro com o fim de não me deslocar para lado nenhum. Ficava no banco de madeira a olhar a gente transitando. E me abandonava naquele assento durante horas, sem que o tempo me pesasse. Talvez eu viajasse mais que os próprios passageiros que chegavam e partiam. A minha cidade era pequena, tão pequena que os domingos, com seu tédio antecipado, não eram notados. Eu inventava os meus tempos fora do Tempo, ali na arrastada azáfama da estação ferroviária.
Não tive propriamente uma educação religiosa. Apenas de quando em quando eu entrava em recinto de igreja. Fazia-o porque havia ali um sossego que me refrescava a alma. Qualquer coisa parecida com o que eu encontrava na gare ferroviária. Com a diferença de que a estação me facultava um recolhimento do lado de dentro da Vida, um resguardo entre as pessoas e as almas que eu nelas inventava. Os fantasmas da igreja moravam na sombra fria. Os da estação eram solarentos, riam alto e falavam línguas que eu desconhecia.
Algo me ficou desse estacionamento de alma, como se eu ganhasse residência perene nas velhas estações de todo o mundo. Afinal, essa contemplação me trouxe como que um irreparável vício: ter um banco de madeira onde eu possa ver desfilar pessoas em flagrante viagem.

Mia Couto
Pintura de Paul Delvaux