sexta-feira, 18 de março de 2011

Provincianas


Olá! Bons dias! Em Março
Que mocetona e que jovem
A terra! Que amor esparso
Corre os trigos, que se movem
Às vagas dum verde garço!

Como amanhece! Que meigas
As horas antes de almoço!
Fartam-se as vacas nas veigas
E um pasto orvalhado e moço
Produz as novas manteigas.

Toda a paisagem se doura;
Tímida ainda, que fresca!
Bela mulher, sim senhora,
Nesta manhã pitoresca,
Primaveral, criadora!

Bom sol! As sebes de encosto
Dão madressilvas cheirosas
Que entontecem como um mosto.
Floridas, às espinhosas
Subiu-lhes o sangue ao rosto.

Cresce o relevo dos montes,
Como seios ofegantes;
Murmuram como umas fontes
Os rios que dias antes
Bramiam galgando pontes.

Pois bem. O Inverno deixou-nos.
É certo. E os grãos e as sementes
Que ficam doutros outonos
Acordam hoje frementes
Depois de uns poucos de sonos.

Cesário Verde
http://www.youtube.com/watch?v=4qQFxirB5Rc

domingo, 13 de março de 2011

Aveiro Ilustre


1884.
                                                                                              Meu caro Luís

Os nossos queridos amigos já lhe terão contado que uma verdadeira montanha de provas, uma serra de prosa a desbastar, se interpõe, à última hora, entre mim e o seu palheiro. Tive pesar em não tomar parte nessa bela peregrinação de amizade. Mas não desisto de ir palmilhar as areias da Costa e os pinhais da Gafanha. E, querendo Deus, talvez domingo apareça, se a V. ainda lhe restar paciência para alojar amigos. O sentimento de hospitalidade gasta-se: procure V. conservar uma parcela até que eu chegue. Hoje, tenciono ir para a Granja, estar com o Manuel um ou dois dias. Escreva V. para lá uma palavra (ao cuidado do Conde de Resende), dizendo se se sente em disposição de ver, logo depois da partida de dois amigos, chegar outro amigo, com outra mala, outro apetite, outra literatura, outra admiração convencional pela beleza do mar, outros defeitos e outros abraços...
                                                                                                       Muito amigo,
                                                                                                         QUEIROZ.


 http://www.youtube.com/watch?v=rj8yjZQDbhY

sexta-feira, 4 de março de 2011

Tuyutuya


"Acha que suportaria viver para sempre?" Tuyin não hesitou: "Claro que sim", garantiu. "Está bem, mas, antes de qualquer coisa, vamos fazer um teste", disse Tizanu. "O sono é uma espécie de morte provisória, um ensaio da morte. Se for capaz de dispensá-lo durante sete dias consecutivos, proporei aos deuses que transfiram minha imortalidade para você." Tuyin concordou mas, antes que se completassem quatro dias de vigília, adormeceu. Desapontado, tomou o caminho de volta para a sua cidade.
Vinha triste e chegou a Tuyutuya ao rair do dia. Mas ao deparar-se com a cidade orvalhada, sob a claridade do amanhecer, sua tristeza acabou. Ficou ali contemplando-a: Tuyutuya parecia sorrir-lhe, acolhedora. Um galo cantou glorioso: outro, mais distante, respondeu. Enternecido, Tuyin viu as primeiras pessoas saírem das casa, com seus instrumentos de trabalho, e rumarem para o campo. Demorou-se um pouco mais olhando de longe os muros patinados, as paredes das casas, os telhados, as janelas ainda fechadas. As coisas todas pareciam tocadas de eternidade. Aquela era a sua cidade, tudo o que ali vivera se impregnara na caliça das paredes, na madeira das portas, na pedra das calçadas. "A existência é para sempre em cada momento", pensou, invadido por uma renovada alegria.
Assim, atravessou a ponte levadiça e penetrou em Tuyutuya, reconciliado com o seu destino de homem.

Ferreira Gullar
http://www.youtube.com/watch?v=5menXv-eZbY&feature=related

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Retrato Do Artista Quando Coisa


Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insectos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca
em meu olho
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer
por cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.

Manoel de Barros
http://www.youtube.com/watch?v=a-HDwM3jebY&feature=related

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Alegria Breve


Mas de súbito ergo-me, percorro a casa escura no prazer e no medo de ouvir os meus passos. Ouço-os. São fortes, ó tu - tu quem? São fortes, ressoam pela noite, são os passos do primeiro homem do mundo. Uma alegria terrível inunda-me. É uma alegria absoluta, imperiosa e todavia calma como a lentidão da terra. Armo o gira-discos, abro as janelas e saio.
Absurdamente, não cortaram a energia eléctrica para a aldeia. Há mesmo três ou quatro lâmpadas que ainda acendem. Decerto as outras fundiram-se. Fora o ar nítido corta-me, filtrado, branco. Pureza do limite, ó recomeço perfeito. Passo pelas ruas abandonadas, de casa mudas. Fitam-me, rondam-me, coalhadas de vozes e de sombras. Sou eu, estou aqui - se gritasses? Quase todas caem aos bocados, as janelas desconjuntadas, algumas de portas abertas. Se gritasses? Certa noite Águeda e eu ouvimos um grande estrondo como de tremor de terra: um telhado que abatera. Mas agora, nenhum rumor. Só a música(...)
Subitamente, um uivo subiu longo, angustiado. Vem dos  fundos da serra, serpeia à sua volta, sobe ainda por sobre mim, em espiral. Outro uivo respondeu de longe, torneando pelo ar. Os cães, os cães. Deviam ter abalado há muito, como os outros que se foram. Mas estes ficaram ainda, à espera do impossível. Agora os uivos multiplicam-se, enovelando-se na música. Em giros lentos, sobem da fundura dos córregos, circulam em torno da montanha, erguem o desespero até às estrelas. É uma noite sem lua, plácida e nítida, verdade simples(...)
E repentinamente, absurdamente, ressoa no adro deserto uma forte badalada.  Estremeço: a aprendizagem é difícil. Algum pássaro nocturno que embateu no sino? Já não ouço ali a música. Um gato bufou, uma ave, uma sombra, grifando o ar em diagonal  como uma seta. Os cães sossegaram: possivelmente a música parou. Na fímbria branca dos telhados, nas árvores ossificadas, no ar imóvel - o silêncio.  Vibra, retine como um cristal, ouço-o. Então abruptamente atiro uma patada violenta: para desentorpecer um pé? para tomar posse do mundo: um estrondo reboa com o anúncio de um Deus.(...)  Terei divindade que chegue? - tão grande o universo. Pequeno e medroso aqui. Atiro a minha patada violenta, respiro até aos ossos o universo inteiro. Sou eu. Regresso, enfim, a casa, acendo o lume. Terei de ir à mata cortar lenha. Amanhã? Talvez amanhã. Dorme. Estás tão cansado. Amanhã é um novo dia.

Vergílio Ferreira
http://www.youtube.com/watch?v=Nj_X-Uv7yyA

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Foguete de lágrimas


Poesia é carne e é flores,
é suor cristalizado,
trepidação de motores
num céu diurno e estrelado.

É canção de altifalante
no largo da feira-franca,
perfume de saia branca,
copo de vinho estuante.

É corpo e é coisa mental,
nebulosa primitiva,
espasmo de matéria viva,
ressonância universal.

É cozimento de olhares,
de sons, de cheiros, sabores,
onde corre, em capilares,
sangue de todas as cores.

No poço da morte impura
goteja a humana agonia.
Da angustiosa aventura
tudo que fica é poesia.

António Gedeão
http://www.youtube.com/watch?v=_ySQMv1_NSs

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Portugal


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O´Neill
http://videos.sapo.pt/cZa4nTi1Ts2rLIpRbz3C