domingo, 21 de abril de 2013

Livro das Horas


A tradição familiar me acompanha. Cedeu-me um repertório de acertos e desacertos. Uma bagagem que atualiza certos episódios, como os dois anos vividos em Borela, em comunhão com a natureza galega.
Na casa da avó, o mundo me exaltava. Sentia-me Atlas a reter a esfera da Terra em suas mãos. Enfrentava, destemida, a geografia adversa, enquanto aprendia o galego, o espanhol, os costumes locais, o substrato da grei  de que me originara.
Aos poucos aprendia a respeitar as funções milenares das aldeias, a entender as peculiaridades inerentes ao camponês galego. Não me furtava a participar das ocorrências diárias, que já faziam parte da minha vida. Em especial da colheita do milho, que exigia celebração. Afinal, o milho salvava-os da fome, da inclemência do inverno.
Reunidos no pátio da casa da avó Isolina, desfolhávamos as espigas que seriam estocadas no belo hórreo, ou canastro, localizado atrás da casa.
O clima era festivo. Eu copiava a diligência com que eles retiravam a palha da espiga até ao sabugo, jogada dentro das cestas empilhadas à nossa frente. Dali a espiga iria para o canastro, construção hoje clássica do cenário galego.
O trabalho árduo só era interrompido para a merenda regada a vinho e a histórias fomentadas pelas intrigas. Na expectativa todos de surgir a qualquer momento a espiga vermelha alçada à categoria de relíquia. E isto porque quem a obtivesse ganhava o direito de cobrar um beijo de quem fosse. Um achado que propiciava festejar os sentidos, entoar canções com poemas de Rosalía de Castro e rubores no rosto, além de acanhamentos.

Nélida Piñon
http://www.youtube.com/watch?v=6fmkJoWCcw8

domingo, 14 de abril de 2013

Pequena Feiticeira



Com a idade de 17 meses
Tudo é novidade
O mundo está aí
Só para ti
Ao alcance da tua mão
dos teus passos
da tua vontade

Muito obstinada,
Adoras fazer experiências
Correr, saltar, trepar, andar para trás
Inventas variantes cada vez mais difíceis
Festejas com orgulho as tuas vitórias

Já descobriste o poder da palavra,
Minha pequena feiticeira,
Diverte-te imenso brincar com os sons
Mas repetir uma palavra exige de ti
Muita concentração.
Palminhas, palminhas,
Conseguiste!


domingo, 7 de abril de 2013

Minha Pátria


Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria
              muda,
minha pátria disentérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.

Lêdo Ivo
http://www.youtube.com/watch?v=YIrMJ_ix0FA

quarta-feira, 27 de março de 2013

Dúvida


 
















O céptico sorriso da paisagem
Quando, funéreo, o sino
Avisa o mundo de que vai cerrar-se
O véu de trevas da Semana Santa!
A seiva é tanta
A borbulhar nas vinhas,
Voam com tal volúpia as andorinhas
Rente ao chão semeado,
É tão fresco, ligeiro e perfumado
O ar que se respira,
Que tem de ser mentira
O negro pesadelo anunciado.

Miguel Torga
http://www.youtube.com/watch?v=hPtwB_ph594

domingo, 24 de março de 2013

O que a vida me ensinou


Muitas vezes ia ao Campo Pequeno. Uma vez fui lá para me sentar ou para passear. Estava cheio de gente a  conversar ou a ler os jornais. Fui para um recanto mais pequeno, onde não estava ninguém. Eu gostava muito de estar a olhar para uma árvore e não estar a pensar. Não lia o jornal,  nem nada. Sentei-me no banco e estava com a mão em cima da travessa superior, com as costas da mão para cima. Não sei se isso tem algum significado. A certa altura um pardal veio pousar uns centímetros adiante da minha mão. Eu pensei como seria interessante se o pobre pardal pousasse em cima da minha mão. E o pardal realmente, daí a uns segundos, deu um salto para a minha mão. Continuei imóvel. O pardal não ficou por aí. Começou a subir-me pelo braço esquerdo, depois pousou no ombro um bocadinho, deu a volta às minhas costas, e pousou no lado direito. Mas também não ficou por aí. Deu um salto para a minha cabeça e começou a debicar na minha cabeça. Aí está um acontecimento inexplicável, em que há um pardal que vem ter comigo e eu senti-me assim relacionado com o Universo de uma maneira que não aconteceria a conversar com qualquer pessoa ou a ler o jornal. É uma coisa insignificante ou insignificável.
A vida não me ensinou nada.

António Ramos Rosa
(depoimento recolhido por Valdemar Cruz)
http://www.youtube.com/watch?v=-DpUtM9d_sA

sábado, 16 de março de 2013

Quando os lobos uivam


A serra é nossa e muito nossa. Queremo-la assim, estamos no nosso direito. Desta forma é que nos faz arranjo. Os de Lisboa querem-na coberta de pinhal...? Semeiem pinhal nos parques e jardins onde têm empedrado e relva só para vista.
Nacomba - Vai haver sangue, não haja dúvida - vai, vai! Se o governo teima em meter aqui a pata, temo-la tramada! Dr. Rigoberto - A nação é de todos. A nação tem de ser igual para todos. Se não é igual para todos, é que os dirigentes, que se chamam Estado, se tornaram uma quadrilha. Se não presta ouvido ao que eu penso e não me deixa pensar como quero, se não deixa liberdade aos meus actos, desde que não prejudiquem o vizinho, tornou-se cárcere. Não, os serranos, mil, cinco mil, dez mil, têm tanto direito a ser respeitados como os restantes senhores da comunidade. Se os sacrificam, cometem uma acção bárbara, e eles estão no direito de se levantar por todos os meios contra tal política. Louvadeus - Quando esta aldeia estiver mais adiantada, civilizada, tenha luz eléctrica, telefone, escolas dignas, hospitais, água potável (então) fale o estado em levar por diante este número do programa. Até lá, com fome, tamancos de amieiro e barbárie em toda a linha, deixem-nos o que temos. Não nos queiram ditar a vossa lei pela bala e a baioneta. Olhe que Nós também não vamos a Lisboa cobiçar os relvados, que lá há, para pastagem das nossas vacas.

Aquilino Ribeiro
http://www.youtube.com/watch?v=Vw8A0VVMHkI

sábado, 9 de março de 2013

Budapeste





Escrever sobre Budapeste  é como contar uma história de duas cidades. De um lado do rio, Buda, palaciana e real, de ruas medievais, sobre uma altiva colina, miradouro debruçado sobre o Danúbio. Do outro lado, Peste, plana e vasta, cosmopolita e de largas avenidas arborizadas, emolduradas por belos edifícios de eclética arquitectura, estende-se protegida pelo flamejante e etéreo parlamento. O Danúbio já quase azul, salpicado de blocos de gelo, une as cidades e, as pontes são como abraços, pendurados em correntes, entre as margens.
A entrada na cidade pela aristocrática estação ferroviária, de altiva fachada em ferro e vidro, é o melhor convite que a cativante Budapeste nos oferece. Depois foi o percurso curto até um delicioso hotel familiar e revivalista, onde os quartos ostentam nomes do Jazz, Blues e do cinema com as paredes plenas de imagens das primeiras décadas do passado século. Na cave, uma sala de jogo de visual vagamente clandestino e um bar de luzes ténues e difusas esperavam por nós. Em Budapeste, sentimo-nos bem, perdemo-nos propositadamente, entre praças e cafés de confortáveis sofás e tectos de estuques pintados. Os Húngaros são simpáticos, o ‘’goulash’’ saboroso, o chá doce e a cerveja convidam-nos a conversas amenas e a gargalhadas espontâneas. Os dias correm velozes e a última noite aproxima-se. Atravessamos a Praça dos Heróis, vastíssima como longa é a história da Hungria. Passamos junto às pistas de gelo, onde centenas de pessoas patinam e, eis-nos num enorme complexo de nascentes termais. Uma experiência indelével espera por nós; na noite gelada de Budapeste, a céu aberto, a água jorra a cerca de 40º centígrados e a temperatura exterior ronda os 0º. Os músculos gritam de dor, quando saímos do edifício aquecido, o choque térmico é violento, mas sorriem de prazer ao mergulhar na água quente. Depois e por mais de uma hora, sentimo-nos felizes e quentes, flutuamos entre neblinas de vapor e apenas um céu protector nos cobre. Na hora da saída, admirem-se os cépticos, não sentimos o frio gelado da noite, o corpo adormecido, resiste bem à temperatura exterior.
Rui Neves Munhoz e Tiago Costa (texto adaptado)
http://www.youtube.com/watch?v=monaXOpmH1U