domingo, 11 de fevereiro de 2018

Caminho imperfeito


Não sou o meu corpo, não sou o meu nome, não sou esta idade, não sou o que tenho, não sou estas palavras, não sou o que dizem que sou, não sou o que penso que sou.
Não sou o meu corpo porque existo fora da minha pele, para além dela, transcendo-a delicadamente ou à bruta. Não sou o meu nome porque não sou apenas o meu nome. Não sou esta idade porque esta idade só existe agora - eu fui e serei. Não sou estas palavras porque eu não sou apenas palavras. Não sou o que dizem que sou porque aquilo que sou não se diz. Não sou o que penso que sou porque penso vagamente que sou mais do que consigo pensar. Essa ideia é demasiado vaga e eu sou concreto no mundo concreto, sou real no mundo real.
Sou um caminho.
Sou alguma coisa que vem de antes, que me foi entregue pelo meu pai. Também ele a recebeu. Foi-me entregue em palavras, no tom de voz que ainda sou capaz de ouvir, no silêncio, no olhar, na presença, no toque, no cheiro, no cuidado, na memória, no exemplo, em tudo o que o meu pai foi para mim - uma força que não fui capaz de reconhecer completamente no seu tempo, mas que se impregnava em tudo o que eu era e aprendia a ser.
Sou alguma coisa que avança.
Sou alguma coisa que continuará depois de mim, que entrego aos meus filhos. Quero muito que lhes traga valor, que lhes enobreça a experiência de estarem vivos. Tento entregar-lha em palavras - estas palavras escritas, a desejarem ser claras, como esperança, como uma manhã de claridade -, no meu amor - o melhor de mim - e em todas as minhas imperfeições - eu.
Sou este caminho.
Já vivi muito. Quando viajo na minha memória, tenho lugares incríveis onde ir. As ruas da minha aldeia são infinitas, caminho nelas para sempre. Vou da loja do senhor Heliodoro à carpintaria do meu pai, atravesso a terra inteira, digo bom dia a pessoas que já morreram...
Aonde quer que eu vá, levo tudo isto comigo.

José Luís Peixoto
(pintura de Graça de Morais)
https://www.youtube.com/watch?v=g8eoDdKAFv8&index=17&list=PLnUrHwXcADOsmZHXLZdRv5h6KlKtU5C7V

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Chão zero


A minha infância é um esgoto atravancado de detritos. A minha infância tem cheiro a fumo nos cabelos e cinzas debaixo das unhas. Um cansaço granítico, uma velhice súbita nos pés. Não sei se estou dentro ou fora, se saí de ti, se entrei em ti, desconheço-te tão bem quanto te conheço. Perco-me cá dentro, entre restos, sobras, remanescências vãs, numa casa sem bússola, mas se conseguisse subir ao sótão talvez avistasse de lá a serra e a neve no cume, e reconhecia-te outra vez. Como se mantém a vista se não existe janela para me debruçar... Como me agarro ao corrimão de uma escada que não há... Como avanço pelo corredor de sustos e escuridão, se ele está a céu aberto e não tem princípio, só fim... Como caminho nesta inexistência de chão, feita de vidros, pedras trituradas e pregos - foi o que restou... Como se faz para soterrar algo que me inclui... Como me desvio para atalhos, se todas as minhas correntes sanguíneas vão ter aí... Tenho de reportar a minha infância ardida e dão-me um formulário da Protecção Civil. Tenho de preservar a memória dos meus avós, dos avós dos meus avós, e pedem-me apólices, metros quadrados e cadernetas prediais. Eu era capaz de as encontrar, senhor vereador, de certeza, na segunda gaveta da secretária do meu avô, onde ele guardava os papéis importantes. Nenhum óbito a reportar, graças a Deus, senhor vereador, e no entanto, uma multidão insepulta. Como lhe hei-de explicar isto, senhor presidente da junta, o silêncio de uma casa carbonizada. Quanto tempo demoram a regressar os pássaros que fazem ninho nos beirais desaparecidos...E os ratos que nos infernizavam as noites com a ansiedade roedora tão bem-vindos, afinal... E os cardumes de moscas que entravam por uma janela de Verão e percorriam as funduras ondulantes dos corredores... E o cheiro enjoativo a vinho da adega, sempre gélida, onde não entrava fio de luz, agora esventrada e inundada de sol intruso. Uma casa tão misteriosa e solene, tão encantadora e assustadora, tão enraizada pelo tempo, agora uma cratera sem mistério, óbvia, nua, escancarada, despudorada...

Ana Margarida de Carvalho
Couto do Mosteiro, Santa Comba Dão, 15 de Outubro de 2017
Arte de Ric Nagualero
https://www.youtube.com/watch?v=ni9KPgFhAIw

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Ar livre

                   

                       A menina translúcida passa.
                   Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
                   Brilha em sua narina o coral do dia.

                   Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
                   Em sua pele, madrepérolas hesitantes
                   pintam leves alvoradas de neblina.

                   Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
                   É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.

                   A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

                   E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
                   em verdes lágrlmas para dentro dos seus olhos.

                   Cecília Meireles
                   https://www.youtube.com/watch?v=z1Yed10wjjg

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A minha infância


A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe

Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho

Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva

Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto

E havia a Dona Laura
senhora distinta
e sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça

O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia

A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes

Não olhes para os rapazes
que é feio.

Inês Lourenço

https://www.youtube.com/watch?v=PjIwhgj-VQY

domingo, 31 de dezembro de 2017

Cantarolar pela rua

                                 

                                    Cantarolar pela rua   Assobiar
                                    de mãos nos bolsos como quem tem dez anos ou cinquenta
                                    Ter aberto um jornal que não se lê                       
                                    Interromper sem razão uma conversa
                                    Voltar ou não voltar e afinal voltar               
                                    Contagiar desta alegria toda até então submersa
                                    os que não sabem nada disto ou disto riem
                                    e só de ver sorrir assim também sorriem
                                    confusamente sem saber porquê

                                    isto é estar vivo é bom e não se explica
                                    nem inventa


                                    Mário Dionísio
                                    http://www.centromariodionisio.org/a_pintura_mariodionisio.php

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Os animais carnívoros


Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.

Herberto Helder
(pintura de Mário Cesariny de Vasconcelos)
https://www.youtube.com/watch?v=1slAcb1Wikk

sábado, 2 de dezembro de 2017

The Sixties



Na ressaca da visita à exposição “A Revista Aspen, 1965-1971”, na Culturgest:

Minimal, pós-minimal, conceptual, pós-conceptual, psicadelismo and so on. Que sei eu? Quase nada. O que aprendi? Muito pouco. “O que faz falta é agitar a malta o que faz falta…” (José Afonso, 1972)

E em Portugal como foram os anos 60?

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.


Fernando Tordo / Ary dos Santos, 1973

Stop! Essa canção não é da década de 60. Tão bonita que apetece cantar mas como diz o poema de Miguel Torga:

“Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.”


Na verdade, a censura imposta pelo regime político pretendia manter-nos isolados, parados no tempo e, por isso, tentava impedir a divulgação de quase tudo o que se passava no estrangeiro, para nos proteger de más influências que pudessem gerar contestação.
Até aos anos 60, as artes e as letras em Portugal tinham a língua e a cultura francesas como referência. A partir dessa data assiste-se a uma mudança de paradigma. A cultura anglo-saxónica insinua-se e começa a ser muito apreciada e imitada pelos jovens. 
No campo da música, em Portugal, veja-se o caso do conjunto musical “Os Sheiks” que, além de interpretarem êxitos da música anglo-saxónica, cantavam a chamada música yé-yé. Estamos nos primórdios do rock português. O Quarteto 1111, formado por José Cid, era um projecto bastante arrojado e ficou célebre principalmente pela canção que começava: 

“ Depois de Álcácer-Quibir
El rei D. Sebastião
(oh, oh, oh…)

Perdeu-se num labirinto
Com seu cavalo real
(oh, oh, oh...)


De referir que o Festival de Vilar de Mouros, em 1971, o nosso Woodstock, contou com a participação de grandes nomes da música internacional, como Elton John, além de bandas e cantores nacionais, o que atraiu um grande número de jovens estrangeiros, muitos deles “hippies”. O facto de Vilar de Mouros se situar num local de difícil acesso, longe dos grandes centros urbanos, no meio da natureza, uma espécie de paraíso, acabou por contribuir para o ambiente especial que se criou, o encantamento de que falam todos os portugueses que estiveram presentes, porque nem em sonhos acreditavam que tal pudesse acontecer no nosso país! 

Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer 

 Manuel Freire / António Gedeão, 1969                                                                               (continua)

HN, 30/11/2017
(em homenagem ao Fernando a quem, por motivos óbvios, pertencia o cartaz acima reproduzido)
https://www.youtube.com/watch?v=y1tydtIldYU