sábado, 1 de janeiro de 2022

Tempo



“Não te desejo um presente qualquer,

 Desejo-te somente aquilo que a maioria não tem.

 Tempo, para te divertires e para sorrir;

 Tempo para que os obstáculos sejam sempre superados

 E muitos sucessos comemorados.

 Desejo-te tempo, para planear e realizar,

 Não só para ti mesmo, mas também para doá-lo aos outros.

 Desejo-te tempo, não para ter pressa e correr,

 Mas tempo para te encontrares a ti mesmo,

 Desejo-te tempo, não só para passar ou para vê-lo no relógio,

 Desejo-te tempo, para que fiques;

 Tempo para te encantares e tempo para confiar em alguém.

 Desejo-te tempo para tocar as estrelas,

 E tempo para crescer, para amadurecer.

 Desejo-te tempo para aprender e acertar,

 Tempo para recomeçar, se fracassar.

 Desejo-te tempo também para poder voltar atrás e perdoar.

 Para ter novas esperanças e para amar.

 Não faz mais sentido protelar.

 Desejo-te tempo para ser feliz.

 Para viver cada dia, cada hora como um presente.

 Desejo-te tempo, tempo para a vida.

 Desejo-te tempo. Tempo. Muito tempo!”

 

 Elli Michler

https://www.youtube.com/watch?v=3Uo0JAUWijM


segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Rumor de água




Rumor de água

na ribeira ou no tanque?

O tanque foi na infância

minha pureza refractada.

A ribeira secou no verão

Rumor de água

no tempo e no coração.

Rumor de nada.


Carlos de Oliveira

Arte de Paula Rego

https://www.youtube.com/watch?v=HUf0zoG-3mo

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Ainda assim eu me levanto


“Still I Rise”

Você pode me inscrever na História
Com as mentiras amargas que contar,
Você pode me arrastar no pó
Mas ainda assim, como o pó, eu vou me levantar.
Minha elegância o perturba?
Por que você afunda no pesar?
Porque eu ando como se eu tivesse poços de petróleo
Jorrando em minha sala de estar.
Assim como lua e o sol,
Com a certeza das ondas do mar
Como se ergue a esperança
Ainda assim, vou me levantar
Você queria me ver abatida?
Cabeça baixa, olhar caído?
Ombros curvados com lágrimas
Com a alma a gritar enfraquecida?
Minha altivez o ofende?
Não leve isso tão a mal,
Porque eu rio como se eu tivesse
Minas de ouro no meu quintal.
Você pode me fuzilar com suas palavras,
E me cortar com o seu olhar
Você pode me matar com o seu ódio,
Mas assim, como o ar, eu vou me levantar
A minha sensualidade o aborrece?
E você, surpreso, se admira,
Ao me ver dançar como se tivesse,
Diamantes na altura da virilha?
Das chochas dessa História escandalosa
Eu me levanto
Acima de um passado que está enraizado na dor
Eu me levanto
Eu sou um oceano negro, vasto e irriquieto,
Indo e vindo contra as marés, eu me levanto.
Deixando para trás noites de terror e medo
Eu me levanto
Em uma madrugada que é maravilhosamente clara
Eu me levanto
Trazendo os dons que meus ancestrais deram,
Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos.
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto!

Maya Angelou
Ilustração de Jean-Michel Basquiat

sábado, 27 de novembro de 2021

Manguezal

Nos mangues do Lobito durante a maré baixa

caminhávamos horas ao longo dos ramais

indiferentes ao solo instável

ao labirinto de raízes, às aéreas transições


Ficávamos assim talvez mais próximos

da verdade sem aquela sensação

de que a haveríamos de perder

e quando atravessávamos a fronteira das águas

galhofeiros e urrando de entusiasmo

parecia-nos estranho que houvesse apenas uma palavra

para designar o mundo


Nenhuma ignomínia ou veneno

trepava os muros desses domínios

a nossa existência era uma coisa selvagem e simples

sentindo-se maravilhosamente


Só quando surpreendíamos os flamingos

prontos para os seus voos

semelhantes a uma armada

de invisíveis jangadas

compreendíamos ser testemunhas de um segredo

que não estava destinado ao olhar dos homens


José Tolentino Mendonça

Foto de manguezal, Lobito, Angola

https://www.youtube.com/watch?v=G2jSbjI9Ll4

sábado, 20 de novembro de 2021

Paisagem

O tempo passou, transformou tudo em gelo.

Sob o gelo, o futuro bulia.

Se caísses lá dentro, morrias.

 

Era um tempo

de espera, de acção suspensa.

 

Eu vivia no presente, que era

a parte do futuro que podíamos ver.

O passado pairava sobre a minha cabeça,

como o sol e a lua, visível mas inalcançável.

 

Era um tempo

governado por contradições, como

Não sentia nada e

tinha medo.

 

O inverno esvaziou as árvores, voltou a enchê-las de neve.

Como eu nada sentisse, a neve caiu, o lago gelou.

Como se eu tivesse medo, permaneci imóvel;

o meu bafo era branco, uma descrição do silêncio.

 

O tempo passou, e uma parte dele tornou-se isto.

E outra parte evaporou-se simplesmente;

podíamos vê-la a pairar sobre as árvores brancas,

formava partículas de gelo.

 

Esperas a vida inteira pelo momento oportuno.

Depois o momento oportuno

revela-se acção consumada.

 

Eu via mover-se o passado, uma fila de nuvens a avançar

da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda,

consoante o vento. Por vezes

 

não havia vento. As nuvens pareciam

ficar onde estavam,

como uma pintura do mar, mais imóveis do que reais.

 

Por vezes o lago era um lençol de vidro.

Sob o vidro, o futuro murmurava,

modesto, convidativo:

tinhas de te concentrar para o não ouvires.

 

O tempo passou; chegaste a ver parte dele.

Os anos que levou eram anos de inverno;

ninguém lhes sentiria a falta. Por vezes

 

não havia nuvens, como se

as fontes do passado tivessem desaparecido. O mundo

 

perdera a cor, como um negativo; a luz atravessava-o

de lado a lado. Depois

a imagem apagava-se.

 

Por cima do mundo

só havia azul, azul em toda a parte.

 

Louise Glück (tradução de Rui Pires Cabral)

Pintura de Van Gogh

https://www.youtube.com/watch?v=xnHEQhno7Y8


quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Figuras



A velhice é um vento que nos toma
no seu halo feliz de ensombramento.
E em nós depõe do que se deu à obra
somente o modo de não sentir o tempo,
senão no ritmo interior de a sombra
passar à transparência do momento.
Mas um momento de que baniram horas
o hábito e o jeito de estar vendo
para muito mais longe. Para de onde a obra
surde. E a velhice nos ilumina o vento.

Fernando Echevarria
Arte de Armanda Passos

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Palheiros de Mira


Tudo aqui é pobre e humilde mas não grosseiro. Os homens trigueiros, secos e fortes e as mulheres bem lançadas. Mesmo as feias têm um ar de distinção. A família é sagrada. O contacto com a terra obriga o homem a olhar para o chão, o convívio com o mar obriga-o a levantar a cabeça. Quando saem do barco e o encalham os pescadores não fazem mais nada - deitam-se na areia. O resto compete à mulher: é ela que lava as redes e o peixe, que o salga e carrega e que faz a lavoura da Barrinha.
Como vive esta gente? Vive com simplicidade nos palheiros, casa ideal para pescadores ou para um velho filósofo como eu. É construída sobre espeques na areia, com tábuas de pinho e um forro por dentro aplainado. Duram tanto ou mais qua a vida; cheiram que consolam, quando novas,  a resina, a árvore descascada e a monte; ressoam como um velho búzio e são leves, agasalhadas, transparentes. Por fora escurecem logo, e envelhecendo caem para o lado ou para a frente; por dentro conservam uma frescura extraordinária, e quando se abre um a janela, abre-se para o infinito...

Raúl Brandão
Foto de Agosto de 1975