domingo, 25 de novembro de 2018

Testamento de Vieira da Silva


Eu lego aos meus amigos

Um azul cerúleo para voar alto.
Um azul cobalto para a felicidade.
Um azul ultramarino para estimular o espírito.
Um vermelhão para o sangue circular alegremente.
Um verde musgo para apaziguar os nervos.
Um amarelo ouro: riqueza.
Um violeta cobalto para o sonho.
Um garança para deixar ouvir o violoncelo.
Um amarelo barife: ficção científica e brilho; resplendor.
Um ocre amarelo para aceitar a terra.
Um verde veronese para a memória da primavera.
Um anil para poder afinar o espírito com a tempestade.
Um laranja para exercitar a visão de um limoeiro ao longe.
Um amarelo limão para o encanto.
Um branco puro: pureza.
Terra de Siena natural: a transmutação do ouro.
Um preto sumptuoso para ver Ticiano.
Um terra de sombra natural para aceitar melhor a melancolia negra.
Um terra de Siena queimada para o sentimento de duração.

   
                           Maria Helena Vieira da Silva 
                        (Arpad Szenes - retrato)
                        https://www.youtube.com/watch?v=pzmpiL1R9YM

sábado, 17 de novembro de 2018

Prenda para os teus 7 anos


A belharara é uma espécie muito rara
B aleipato passeia feliz com o seu fato
C abralesma faz o pino e está na mesma 
D ragãochita agarra o balão com a guita
E matigre canta e escreve sempre alegre
F ocalince brinca e ri com tanta tolice 
G irafante dança o tango sempre elegante
H ienarã liga à irmã logo de manhã
I guanimpala traz um boné com pala
J oanigata nunca se cala e pouco se rala
K oalarrato lança ao ar o seu sapato
L eopardal cozinha tudo com muito sal
M acacobra come imenso e nada sobra
N ialacamelo gosta de limonada com gelo
O kapintarroxo entra aos saltos e é coxo
P ulgafalhoto anda com o colete num oito
Q uiparapandu não é nada inventei tudo
R inoceboi picou-se na patinha e dói
S apopanda traz o chapéu meio à banda
T artaruburra cai na neve e não se esmurra
U rsorrola voa dentro de uma passarola
V eadocorvo passa sem causar estorvo
W hale diz-se assim baleia em inglês
X ipaletónico podia ser um animal supersónico.
Y atulmerido também não existe e é querido
Z ebraranhão adora andar no seu avião.

HN, 14 Nov. 2018 
(arte de Celeste Capitão)


domingo, 11 de novembro de 2018

Imaginação


Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.


José Gomes Ferreira
(arte de Beatriz Bagulho)
https://www.youtube.com/watch?v=Hch9bWQ3hhk

domingo, 4 de novembro de 2018

Railroad Sunset


A casa do agulheiro abandonada
e o alpendre da sinalização.
Por detrás de cretones e flores
secavam as malgas de marmelada.
O mar dos comboios já não pára aqui
O cartaxo de cabeça preta
canta nos fios telegráficos
entre taludes e cascalho.
A desolação do crescimento faz comércio
noutros lugares.
Nos baldios crepúsculos vermelhos
por charnecas que voltam a ser verdes
regressam as inseguras coisas naturais.

Joaquim Manuel Magalhães
(pintura de Edward Hopper)
https://www.youtube.com/watch?v=K-CvKEwjxBU

domingo, 28 de outubro de 2018

O Poema Pouco Original do Medo


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos



Alexandre O'Neill
(pintura de Graça Morais)
https://www.youtube.com/watch?v=Kt2AB7QeaY0

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Uma questão de tempo


Do outro lado da casa, as crianças brincam com o tempo
que corre para que elas não brinquem com ele. Na casa
ao lado, um cão vê o tempo passar e ladra-lhe
para ele fugir como se fosse um ladrão. Na rua, o mendigo
pede a toda a gente a esmola de um tempo, e toda
a gente diz que não tem tempo para lhe dar. No café, peço
uma chávena de tempo, curto e bem forte
porque não tenho tempo para dormir, mas
a meu lado há quem peça uma chávena bem cheia
de tempo para que o tempo demore a beber. Há
quem corra por falta de tempo, e o tempo vai
atrás dele para o apanhar. No metro, a rapariga
atravessa o cais, devagar, como se tivesse mais tempo
do que todos os que contam o tempo para
não lhes descontarem no tempo. E quando me perguntam
se tenho tempo, olho para o relógio, como se ele
estivesse cheio de tempo, e peço que tirem de dentro
dele todo o tempo, e que o esvaziem até ao último
segundo, para eu ficar com tempo para
ver quanto tempo passou.

Nuno Júdice
(pintura de Álvaro Lapa)
https://www.youtube.com/watch?v=HQap2igIhxA


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Rua de Camões


A minha infância 
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe

Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho

Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva

E havia a Dona Laura
senhora distinta
e sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça

O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia

A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes

Não olhes para os rapazes
que é feio.

Inês Lourenço