segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Brueghel e o fascínio



Lembro-me de estar no Museu do Prado e de me encontrar com O Triunfo da Morte, de Brueghel.
Não poderia descrever aqui o caos generalizado daquele mundo atacado por esqueletos ceifando, degolando, enredando, afogando, enterrando homens e mulheres de todas as classes e idades e profissões - que, em pânico, gritam, fogem, tentam ignorar ainda o massacre. Não é sequer uma dança macabra, mas a mais simples chacina. Um Apocalipse sem Jerusalém celeste. 
Há muito que ver. Num canto, um esqueleto mostra a um rei, vestido de arminhos e armadura, uma ampulheta inexorável. Algures, outro esqueleto apalpa as mamas de uma nobre roliça, enquanto um terceiro serve uma sopa de tíbias e caveira. Noutro canto, dois amantes trocam melodias e palavras de amor - logo imitados por um esqueleto, cheio de cínica complacência.
Por que não consigo desligar os olhos deste quadro?
Primeiro, porque é o maior jogo de massacre que conheço. Sem paciência: a morte tem de ser toda - e já - e não há desculpas para ninguém!
Em segundo lugar, porque há nessa sincronia tantas histórias citadas, tantas anedotas e provérbios e exegeses bíblicas e paródias e ironias e antíteses! O olhar fascinado não pára de desvendar micro-narrativas.
E finalmente: porque é tão divertido!
O quê, a morte?
Sim, claro, a morte.

Pedro Eiras
Pintura O Triunfo da Morte de Brueghel (Pormenores)
https://www.youtube.com/watch?v=S_nswb0Mh14

domingo, 20 de outubro de 2019

De repente...

                     

                 De repente, sem o teres esperado, a flor
                 nasce a partir do seu centro. Depois recebe
                 as cores, a flexibilidade da haste, o círculo
                 à volta de cada pétala. Aproximas-te mais
                 ao sentires o perfume e reparas na forma
                 que tinha sido por ti há muito imaginada,
                 o seu anel. É aí que tudo existe. Outras folhas
                 nasceram; por vezes estremecem. Segura-a
                 nos teus dedos. Está alta para tu a colheres.

                 Fernando Guimarães
                              Arte de Lourdes Castro
                              https://www.youtube.com/watch?v=fqKN4qKO0BM

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

As bolas de sabão

                       

                          As bolas de sabão que esta criança
                          Se entretém a largar de uma palhinha
                          São translucidamente uma filosofia toda.
                          Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
                          Amigas dos olhos como as coisas.
                          São aquilo que são
                          Com uma precisão redondinha e aérea,
                          E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
                          Pretende que elas são mais do que parecem ser.

                          Algumas mal se vêem no ar lúcido.
                          São como a brisa que passa e mal toca nas flores
                          E que só sabemos que passa
                          Porque qualquer coisa se aligeira em nós
                          E aceita tudo mais nitidamente.

                           Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
                           Pintura de Manet
                           https://www.youtube.com/watch?v=xyFF_5a02g4

domingo, 29 de setembro de 2019

O sol

                      

                 o sol,                    
                 a poeira 
                 lentíssima do sul

                 a pedra do ar
                 clara e mordida,

                 a branca e nua
                 e tão antiga
                 poeira do sol,

                 vem poisar-me 
                 nos olhos.

                 Ainda.

                 Eugénio de Andrade
                              Desenho de Álvaro Siza
                              https://www.youtube.com/watch?v=F0NvAjKGy6A

sábado, 21 de setembro de 2019

A casa do mar


Dentro de casa o mar ressoa como no interior de um búzio. Quando abro as gavetas a minha roupa cheira a maresia como um molho de algas. Profundos os espelhos reflectem demoradamente os dias. E em frente das janelas o mar brilha como inumeráveis espelhos quebrados. Os móveis são escuros e finos, sem verniz, encerados. O chão é esfregado, as paredes caiadas. Em todas as coisas está inscrita uma limpeza de sal. A exaltação marinha habita o ar. A casa é aberta e secreta, veemente e serena. Nela o menor ruído - tinir de louça, degrau que range, respiração do vento, comboio que ao longe passa - é escutado. A casa está atenta a cada coisa. Todos os dias a renovam. A mais leve nuvem que passa ensombra o vidro dos espelhos. Nela cada dia é único e precioso como se contivesse a totalidade do tempo. No brilho da mesa, na transparência do copo, há como que uma intensidade repousada. 
À esquerda da copa, no lado da casa que dá para a praia, fica a sala de jantar. Tem no meio uma mesa comprida rodeada de cadeiras e em cada ângulo dos muros pequenas cantoneiras de madeira.
No centro da mesa há um fruteiro redondo onde maçãs vermelhas se recortam sobre a madeira escura e contra a cal das paredes. Polidas e redondas as maçãs brilham e parecem interiormente acesas, como se as habitasse o lume de uma intensa felicidade à qual responde o luzir do mar cujo azul cintila entre as persianas. E, quando as vidraças estão abertas, o perfume seco das dunas mistura-se com o perfume das maçãs.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Desenho de Júlio Reis Pereira
https://www.youtube.com/watch?v=OoVjz14Rx98

domingo, 15 de setembro de 2019

Saúdo o que não conheço

             

                Saúdo o que não conheço
                o inominável obscuro
                com palavras da mais pura incoerência
                ou que desejariam sê-lo e são ainda a trama demasiado consistente
                por onde passa o fulgor verde da matéria submersa
                Ah nós vivemos e morremos sem conhecer
                a glória da identidade intangível
                na sua secreta continuidade sob o manto do olvido!
                Procuramos uma abertura para o bosque interior
                e tentamos abrir o diafragma levemente
                para que a transparente rosa da transpiração floresça
                Em cada hausto procuramos a unidade pura
                em que o nosso hálito se confundiria com o sopro cósmico
                como uma constelação à plácida baía das águas superiores

                António Ramos Rosa
                Pintura: "Fábula" de El Greco
                https://www.youtube.com/watch?v=8daGqy3Jles

sábado, 7 de setembro de 2019

Plaza de Cólon

Plaza de Cólon com a estátua de Cristóvão Colombo



Plaza de Cólon, Monumento a Colombo

Madrid, 4 de Dezembro de 1892
Cristóvão Colombo, marítimo, casado em Lisboa na freguesia de Santos, hóspede do Sr. Agostinho de Ornelas na ilha da Madeira, sócio da Sociedade de Geografia, sucedeu-lhe um dia descobrir a América, e assim principou a festa.
Por esse eufemismo "descobriu a América", se deve entender unicamente que o que ele fez foi ir lá. Enquanto a descobri-la, a verdade é que a América nunca esteve - como por exemplo a nossa ameixa de Elvas - coberta. Pela regra por que Cristóvão Colombo a descobriu, também o primeiro americano que veio à Europa descobriu a Europa, e não há ninguém que na sua classe, mais ou menos, não tenha descoberto alguma coisa... não azedemos, porém, o debate com reivindicações pungentes, posto que justificadas, e narremos com serenidade os acontecimentos.
Com o pretexto de que ele a descobriu, fez-se-lhe um centenário. Bosch, o malogrado alcaide, gizou as festas. 
Forasteiros vieram. Hotéis subiram preços. Chuva caía. Grupos de provincianos, de gorra encarnada e medalha ao peito, passavam tossindo por baixo de gotejantes chapéus de chuva, e eram os órfãos. Lamentáveis estudiantinas em traje escolar do século XVll, colher de pau no chapéu de dois bicos, tacões tortos pateando o lamaçal, eram a mocidade estudiosa. Perante Bosch, constituído em júri de exame, pilhos em folga e mendigos em vilegiatura prorrompiam em saltos de tigre e em uivos de chacal, para o fim de serem contratados como feras do mato virgem na cavalgada histórica...

Ramalho Ortigão
https://www.youtube.com/watch?v=g1TFPPL6JRY