domingo, 18 de setembro de 2016

Desenhos da série "Poeta" (Júlio)

                             

                               Vais pela estrada fora:
                               os teus passos de vento
                               percorrem florestas e cidades
                               como se cada hora,
                               cada momento,
                               te desse um novo rosto sem idade.

                               Vais pela estrada sem fim
                               e o teu olhar tem asas;
                               transformas-te em palhaço, em arlequim,
                               e atravessas mil ruas com mil casas
                               onde há sempre um segredo,
                               a música do mundo que se entrega
                               à tua  fantasia.
                               Vá lá, não tenhas medo:
                               cada palavra cega
                               é a luz do teu dia.

                               Nunca desistas - mesmo que procures
                               sem saber onde um sonho antigo,
                               os milagres que esperas
                               algures
                               virão ter contigo.

                               Fernando Pinto do Amaral
                               (desenho de Júlio/ Saúl Dias)
                               https://www.youtube.com/watch?v=zfW31OxTmv4

                         


                             

domingo, 11 de setembro de 2016

Um escritor confessa-se


Tinha-me deixado possuir da feitiçaria das coisas ternas da natureza, de que só então dei conta que existiam. Eu reintegrava-me no meio de que derivara, e nessa operação sentia a delícia das delícias. Era como o lagarto que, depois de hibernar, se espreguiça ao sol.
Na nossa propriedade, contígua à casa, a batata, o feijão e outros primores da terra medravam a bom medrar, bafejados pela graça, representada pela abundante água da mina, o esterco dos estábulos, sacho constante e sol. Minha mãe fazia já a sopa com "beijinhas", as vagens tenras que ia ela própria cortar dos feijoeiros, adubando-a a presunto e salpicão. Mandava todas as manhãs tirar batatas novas, tão tenras que bastava friccioná-las na mão fechada para despirem o fino manto da pele. Aferventadas, derretiam-se na boca como bombons. O homem prende-se pela gula, como todo o vivente. Há um sentido que vem após. Com efeito, ao gozo e prazer da liberdade corresponde qualquer órgão no animal, ilocalizado como o da direcção em certos bichos, tão premente que ele lá está ora e sempre, e chega a prevalecer mesmo aos demais sentidos.
Esse sentimento, concluí eu mergulhando no poço escuro interior, era porventura o que acima de tudo me prendia na serra. Aqui eu ia para onde os passos me levavam, em franca locomoção, através de montes e vales, de manhã, à noite, que não havia muro, letreiro, relógio que me limitassem o rumo. Só assim o homem é senhor do espaço, como as aves e os bichos monteses. E, já que fora à cidade buscar olhos para ver, direi mesmo, sentidos para gozar a natureza, pela qual dantes passava com uma indiferença perfeitamente selvagem, gozava-a com todos os poros e à farta.

Aquilino  Ribeiro
(escultura de José Rodrigues)
https://www.youtube.com/watch?v=mFp0L_L_5FE

domingo, 4 de setembro de 2016

Ucanha


Ferreirim fica num vale que é a bacia do rio Varosa. O sítio é duma beleza suavíssima, sucedem-se as cortinas de árvores, por toda a parte se esgueiram estreitos caminhos, é como se a paisagem fosse feita de sucessivas transparências, mutáveis à medida que o viajante se desloca. E assim será em todo este percurso de pé-coxinho que o levará a Ucanha, a Salzedas, a Tarouca e a São João de Tarouca, sem dúvida alguma uma das belas regiões que o viajante tem encontrado, por todo um equilíbrio raro, de espaço e cultivo, de habitação de homens e morada natural.
Num salto se chega a Ucanha. Está situada na margem direita do Varosa, já alastrando para o lado de lá, e precisamente junto ao rio está a torre que lhe deu fama. Diga-se logo que é uma construção inesperada no nosso país. O telhado de quatro águas, as altas varandas de pedra assentes em modilhões, a janela de mainel, o arco abatido da passagem, a robustez do conjunto são características que reunidas se não encontram em construções medievais portuguesas. Quem por Itália viajou, não se surpreenderia se lá encontrasse esta torre. Em Portugal, é total surpresa. O viajante namora cá de baixo a preciosa imagem da Virgem coroada, com o Menino ao colo, acomodada numa edícula e protegida por um varandim de ferro. E é terra que estima os seus filhos, como se vê por esta lápide que regista ter cá nascido Leite de Vasconcelos, etnólogo, filósofo e arqueólogo dos melhores, autor de obras ainda hoje fundamentais.

sábado, 27 de agosto de 2016

Encostas do Douro


O grande pedregulho de que o homem obstinado extrai a melhor fruta do mundo e o melhor vinho do mundo, o líquido dourado que sabe a sol e é um extracto de sol. Criado nas encostas, a um calor senegalesco, o mais perfeito, dizem, é o que ouve ranger a espadela do barqueiro, nos sítios onde o homem bate o queixo com febre, e onde a terra grita de dor ao céu - e o céu sem lhe acudir. É nesta secura de inferno, que aquele tipo que além vês magro e reduzido a pele e osso pela labareda, planta a vinha, cava, escava, calça, sulfata. Ajuda-o a mulher tão feia e seca como ele. Ajuda-o o sol que assa sardinhas nos rails do caminho de ferro. Que diabo de figura é esta, para quem olho com respeito, que se atreveu com o pedregulho e o abriu a marreta e a ferro, e às vezes a dinamite, até pulverizar o chão para lhe meter os bacelos? Donde ninguém tiraria senão pedras, tirou ele, não só o melhor vinho do mundo, mas os figos que sabem a mel e as laranjas como torrões de açúcar que deixam a boca perfumada.
O Douro é o rio mais belo, mais dramático e mais variado de Portugal. Cenários sobre cenários, nos dias soturnos em que o fraguedo lhes parecia ainda mais trágico, com o rio esganado entre pedras e montanhas socalcadas pelo homem, para aguentarem alguns bocados de terra a esboroar-se. O Alto Douro, a terra do vinho fino, é também a terra dos panoramas tétricos, dos sítios onde reina a febre, das povoações concentradas, recozendo ao sola fealdade - uma aqui, outra além, Pocinho, donde vai a linha para Moncorvo.

Maria Angelina - Raul Brandão
https://www.youtube.com/watch?v=jgVWPF3k85s

domingo, 21 de agosto de 2016

Tormes


Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...
Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:
- Que beleza!
E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:
- Que beleza!
Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por trás das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam as suas maçãs verdes, porque as não tinham maduras. Todos os vidros de uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente quando nós passámos. Muito tempo um melro nos seguiu, de azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores.
Assim, vagarosamente e maravilhados, chegámos àquela avenida de faias, que sempre me encantara pela sua fidalga gravidade. Atirando uma vergastada ao buro e à égua, gritou:- Aqui é que estemos, meus amos! - E ao fundo das faias, com efeito, aparecia o portão da quinta de Tormes, com o seu brasão de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais envelhecia.


domingo, 31 de julho de 2016

Paisagem Portuguesa



Concebe-se, sem dificuldade, a razão de ser da indústria turística, com todos os benefícios que dela possam advir, mas é legítimo não a estimarmos, em tão larga escala, para nós. Sobretudo, porque ao turista preferimos, mil vezes, o forasteiro. Este, não nos incomoda ver e sentir vibrar a nosso lado, sempre que nos encontramos, sem binóculo nem máquina fotográfica, perante um trecho marítimo ou bucólico da nossa paisagem. É que o forasteiro, mesmo oriundo de estrangeira terra, é um ser humano que transporta, quando não ideais, pelo menos objectivos desinteressados e um gosto, bom ou mau, mas muito seu. O outro é um sujeito de gosto convencional e de vontade colectiva. Só irá, em rebanho, aonde o levarem ou lhe disserem que deve ir. Desprovido de sensibilidade e de imaginação, seria, por exemplo, incapaz de perder-se, de propósito, em Sintra, para gozar o prazer de descobrir vistas inéditas, jardins solitários, nascentes ocultas na espessura das encostas. Viaja para cumprir os roteiros oficiais. Consulta o guia, assesta o binóculo, tira fotografias e sorri. Pode ser, internacionalmente, inofensivo - e, até, muito útil - mas macula a paisagem. Por isso a nossa paisagem não gosta de turistas. Eu já sonhei-como-se-visse um florido vale esconder-se, de repente, em densa névoa, por causa da maneira indiscreta, quase insolente, como um turista olhava para ele. Porque, se a paisagem pode ser feminina (no que a palavra sugere de peculiar beleza, de fecunda e carinhosa amorosidade) talvez não exista nenhuma que o seja tanto como a nossa.

domingo, 24 de julho de 2016

Este é o tempo


Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura 

Este é o tempo em que os homens renunciam.

Sophia de Mello Breyner Andresen
(pintura de Pollock)
https://www.youtube.com/watch?v=7atmvDynyBg