quarta-feira, 17 de abril de 2019

25 de Abril

                   

                     Esta é a madrugada que eu esperava
                O dia inicial inteiro e limpo
                Onde emergimos da noite e do silêncio
                E livres habitamos a substância do tempo

                Sophia de Mello Breyner Andresen
                (pintura de Maria Helena Vieira da Silva)
                https://www.youtube.com/watch?v=HVCt3RGcjRQ

terça-feira, 9 de abril de 2019

Casa de sol


Casa de sol onde os animais pensam
erguida nos ares com raízes na terra
ampla e pequena como um pagode
com salas nuas e baixas camas
casa de andorinhas e gatos nos sótãos
grande nau navegando imóvel
num mar de ócio e de nuvens brancas
com antigos ditados e flores picantes
com frescura de passado e pó de rebanhos
ó casa de sonos e silêncios tão longos
e de alegrias ruidosas e pães cheirosos
ó casa onde se dorme para se renascer
ó casa onde a pobreza resplende de fartura
onde a liberdade ri segura

António Ramos Rosa
(pintura de Jacet Yerca)
https://www.youtube.com/watch?v=he-R7b-15e0


quarta-feira, 3 de abril de 2019

Ó mar


Ó mar azulinho
Quem te pintou?
Foi o feiticeiro
Que aqui passou

Ó mar cintilante
Quem te dourou?
Foi o feiticeiro
Que aqui passou

Ó mar ondulado
Quem te mandou?
Foi o feiticeiro
Que aqui passou

Ó mar sereninho
Quem te salvou?
Foi o feiticeiro
Que aqui passou

Ó mar rebentação
Quem te soltou?
Foi o feiticeiro
Que aqui passou

Ó mar infinito
Quem te criou?
Foi o feiticeiro
Que aqui passou

Ó mar inconstante
Quem te mudou?
Foi o feiticeiro
Que aqui passou

Ó mar encantado
Por artes do feiticeiro
Que aqui passou
Em versos cantado
Quem te retratou?
Foi um artesão
Muito velhinho
Que aqui passou

HN
(pintura de David Hockney)

quarta-feira, 27 de março de 2019

Há muito


Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vaza

Sophia de Mello Breyner Andresen
(pintura de Sorolla)
https://www.rtp.pt/noticias/cultura/o-amor-de-sophia-pelo-mar-da-granja_v749565

domingo, 17 de março de 2019

Nascer


Estou num lugar muito elevado e livre, onde o horizonte é praticamente infinito e é muito alto o nível de percepção que julgo ter.
É por isso que me assusta a certeza de que, no momento em que se nasce, se atravessa uma espécie de barreira, onde todo o conhecimento que possuíamos se apaga.
Recomeça-se então do ponto zero, ignoramos absolutamente tudo, porque (ainda) não pertencemos àquele lugar. Chegamos portanto numa situação de fragilidade extrema, de extremo desamparo, à mercê do desconhecido. Sofremos, por conseguinte, uma queda, uma humilhação sem medida por descer de nível, e aceitamos à força a carência e a dor. O primeiro momento é um grito...
Por mim não desejo entrar nessa aventura louca, prefiro mil vezes permanecer onde estou agora. A vida lá em baixo não é compreensível. Asseguram-me que pode ser muito bela e oferecer grandes compensações, mas não quero acreditar nisso.
Por isso me deixo ficar, apenas olhando, aqui de cima. É essa a minha decisão, a minha escolha está feita.

Mas há um vento que vem não sei de onde e nos empurra, contando-nos segredos inquietantes. Convence-nos de que a solidão e o vazio estão aqui, enquanto lá em baixo há o tempo, a mobilidade e a vertigem. E o prazer da vertigem, de experimentar a vida e conhecer a experimentação.
Aqui tudo está imóvel e adormecido: no lugar do tempo há apenas um instante, sempre igual e sem fim.
O vento assegura-nos que o tédio nos invade, que a nossa solidão é sem remédio, que precisamos de estender a mão e de encontrar outra mão que segure a nossa.
E um dia não aguentamos mais e descemos...
Quisemos entrar no mundo inferior e atravessá-lo, numa existência humana. Naturalmente muito breve, mas a brevidade pareceu-nos também um atractivo.
Também a vida de uma borboleta só dura um dia: começa quando  o Sol nasce e acaba quando a noite cai. Mas entretanto ela  atravessou a existência que lhe estava destinada, cheia até ao limite de experiências novas.
Quando se morre volta-se de novo para aqui, transformado em ar. É dos que voltaram lá de baixo que é feito o vento que aqui sopra e nos canta segredos aos ouvidos...

Teolinda Gersão
(Escultura de Jorge Vieira)
https://www.youtube.com/watch?v=7PS5QMsGaRw

sábado, 9 de março de 2019

Há alguem mais belo do que eu?



A BELA ADORMECIDA NO ESPELHO

Há uma mulher mais bela que eu?

olhar doce
azul turquesa
abertos à força do rímel?
olhos que não vêem
coração que não sente
fotografia em movimentos
suaves, suaves, suaves.
Do outro lado
pano de fundo
o mundo.
Retorno
contorno a boca
por dentro, catatonia
não se transparece
na aparência oca.
Ombro reto
sobrancelha arqueada
falta pouco
para ser amada
caricatura, minha cara
ranhura na moldura
essa ruga
não devia estar aí
se multiplica
contra a vontade
no tempo gasto
para não deixar
aparecer o tempo.
me diga espelho meu

Alice Ruiz

(imagem publicada por Dan Cretu)
https://www.google.pt/search?q=conan+osiris+telemoveis&oq=conan&aqs=chrome.2.69i57j0l2j69i59j0l2.5514j0j8&sourceid=chrome&ie=UTF-8

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Verdade? Mentira?




No Teatro Aberto encontram-se duas peças de Florian Zeller, "A mentira" e "A verdade", que colocam em cena dois casais amigos  em crise.  Na peça "A mentira", o marido louva as vantagens da mentira em determinadas situações, enquanto a sua companheira defende, com  intransigência, e acima de tudo, a verdade.   Entretanto, sempre num tom de comédia, as máscaras vão caindo,  e é desvendado o motivo de assumirem posições diferentes: os seus interesses pessoais. 




VERDADE

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os dois meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram a um lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em duas metades,
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
As duas eram totalmente belas.
Mas carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade
(arte de Clay Sinclair)
https://www.youtube.com/watch?v=OnxSVow02cs