sexta-feira, 15 de julho de 2022

Emigrantes

Casa onde nasceu  Ferreira de Castro, Ossela, Oliveira de Azeméis






Vista para a Serra da Freita

À hora do jantar,  feitas as pazes com Deolinda, que o prazer de a ver levara-o, logo que ela aparecera, a tudo lhe perdoar, Manuel da Bouça não se conteve mais e perguntou-lhe:
- Olha cá: de quem é aquela casa nova nos Salgueiros? 
- A casa nova? É do Nunes.
- Do Nunes?
- Sim, do Nunes da Agência. Do que vendeu a passagem e o passaporte ao pai...
- Ah! - E à admiração sucederam ideias vagas, vagos pressentimentos, mal formuladas hipóteses. - Do Nunes... Mas, então, ele está rico?
- Muito! Toda a gente deu em sair da terra e ele não tinha mãos a medir. Era em Cambra, era em Oliveira e até por aí andou um empregado dele a saber quem queria ir para o Brasil ou para a América. Correu que ele não era homem sério e até foi preso por causa de uns fulanos de Castelões que mandou sem papéis. Iam primeiro para Espanha e depois para a América, mas descobriu-se tudo. Diz-se que deu dinheiro à justiça para se livrar; não sei se é certo ou se não é; mas, lá que ele esteve preso pouco tempo, isso é verdade, porque uma semana depois de eu saber do acontecido vi-o passar no automóvel para Cambra.
- E já há muito tempo que ele tem a casa?
- Vai para três anos. Vem aqui passar o Verão, para fazer caçadas na Felgueira e pescar no rio. Traz sempre muitos criados, automóvel e tudo. Consta que é a maior fortuna que se tem feito por cá nos últimos tempos. A mim ninguém me tira da cabeça que ele tinha combinações com o Carrazedas para tirar as terras aos pobres.
- An? Que dizes?
- Toda a gente o diz à boca pequena. Não viu o pai o que aconteceu às nossas courelas?
Bateram à porta. A vizinhança, regressada pos campos, ao saber da grande nova, acorria a saudar Manuel da Bouça. Parabéns deste, parabéns daquele, Manuel da Bouça sorria e agradecia enlevadamente.
Respeitosos, servis, todos se quedavam em palreira, pergunta da esquerda, pergunta da direita e, de quando em quando, uma hábil referência à fortuna que ele conseguira ganhar.
Lisonjeado, Manuel da Bouça não tinha coragem pars negar os bens que lhe atribuíam.
- Não é tanto assim...Não é tanto assim...Fez-se o que se pôde...
Sentia que a verdade quebraria a vitória daquele momento, lançando no ambiente de adulação um silêncio incómodo - amesquinhando-o, envergonhando-o. Súbita cobardia amarrava-o à mentira, perante os olhos ávidos dos vizinhos, daqueles velhos conhecidos, que o desprezariam se conhecessem a verdade.

Ferreira de Castro


sexta-feira, 1 de julho de 2022

Sou feliz só por preguiça



Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer. 
- Levanta, ó dono das preguiças.
É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina.
- Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos.
- Conversa de malandro...
- Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver...
Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.
- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida. 
- A vida, Dona Luarmina?A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não-Deus...
Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar, o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria:  o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações. 
- Não é verdade, Dona Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha dona: qual é a palavra para dizer futuro?
Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu me suficiento do actual presente. E basta.

Mia Couto
Arte de Malangatana


Que sei eu?



Que sei eu daquele caminho 

onde o olhar não decifra?

Que sei eu da água escura

tornada espelho da vida?

Que sei eu deste silêncio

quando é bandeira de luto?

Que sei eu da lua grande

sem coração que a habite?


Feliz o passo encetado

neste esplendor do agir

sem pensar muito no caso

dum louco que quis saber

dum cego que quis fugir

para um astro iluminado.


Feliz o passo acertado

pelas certezas bem juntas

a um dia ensolarado

sem a névoa das perguntas.


João Rui de Sousa

Pintura de Menez

https://www.youtube.com/watch?v=zfjOXvykoic



domingo, 19 de junho de 2022

À volta de Nelas

Termas de Alcafache







Caldas da Felgueira




BANHOS DE PRINCESAS E LÁZAROS: TERMALISMO E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

Não se engane o leitor: este não é um conto de princesas e de sapos que afinal são príncipes enclausurados em corpo de bicho à espera da redenção por um beijo na beira do lago; tão pouco é uma evocação das moiras encantadas que se escondem nas fontes das montanhas e dos vales, ou um episódio da noite de São João, quando o reflexo das águas devolve o futuro a quem nelas se olha. As princesas e os lázaros que aqui evocamos não pertencem às lendas e narrativas de águas e encantamentos que abundam no folclore europeu.

As nossas princesas e lázaros são de carne e osso, de nervos e pele, têm nomes humanos, vida social, existência histórica; e vão a banhos nas termas europeias. São princesas, duquesas e cortesãs aprisionadas em espartilhos que lhes trazem os nervos à flor da pele, procurando nas águas o refrigério para as suas hipocondrias e reais padecimentos; elas e eles, príncipes, duques e outras celebridades que as acompanham, buscando também no pretexto dos banhos o momento dos encontros, o terreno dos matrimónios, das alianças, das cumplicidades, dos negócios e até da criação literária. Igualmente reais são os leprosos e outros intocáveis que, descamando a pele e perdendo a integridade dos sentidos e dos órgãos, procuram nas águas a possibilidade de atenuar as incompletudes, as dores, o ardor das chagas; ou os paralíticos, apopléticos e reumáticos que, apoiados em bengalas ou transportados em macas, querem nos banhos aliviar dores e recuperar alguma da mobilidade perdida.

Entre monarcas e párias, príncipes e mendigos, clientes de todas as castas e qualidades partem para banhos, termas, caldas, vilas de águas, estações termais ou spas, como se têm chamado, em diferentes contextos da Europa e do mundo, os lugares em que a fama curativa das águas e a qualidade dos ares apelam a visitas e estadias de doentes, peregrinos, turistas, enfim, aquistas e termalistas. Ao longo dos séculos, com a pele descamada, os nervos inflamados, os membros paralisados, os efeitos da sífilis fazendo-se anunciar, as articulações toldadas, a gota latejando, ou simplesmente os sentidos postos numa estadia de intenso convívio e rituais de sociabilidade, muitos acorreram às águas – sagradas, santas, de virtudes, minerais, mineromedicinais, medicinais. Todos usam das mesmas águas, mas talvez não das mesmas tinas, ou das mesmas banheiras, ou sequer das mesmas nascentes. Neste partilhar e separar das águas se concentra, como mostrarei, a essência do termalismo europeu: água para todos, para tudo tratar, mas a todos de modos diferentes, cada um no seu lugar.

Cristina Bastos

De volta à Serra da Estrela






Estou a escrever um romance, comecei-o no dia 15 de junho, e escrevo às cegas, caminhando numa espécie de nevoeiro: há-de chegar o momento em que encontrarei de súbito uma clareira iluminada e então compreenderei tudo. Voltei anteontem da Serra da Estrela, ou seja de a poucos quilómetros da Serra da Estrela onde fui encher os olhos com a minha infância que segue naquelas árvores, naquelas pedras, no pinhal que já não existe e no entanto para mim permanece. Casas escuras por ali acima. E um bloco de saudade no lugar do estômago. Às vezes percebo mal no que me tornei (...). 
Quando acabar esta crónica volto ao romance. É-me impossível falar dele porque se faz sozinho, andei anos a treinar a mão para escrever sem mim. Eu em bicos de pés e a mão lá em cima, arrebanhando tudo o que apanha, pelo simples tacto, numa prateleira alta (...)
Acho que estou quase no fim, vou despedir-me. Que trabalheira sorrir, apertar mãos. Que trabalheira anoitecer, e que falta de dignidade a velhice e a doença. Óculos, Dificuldades nos ossos. Lentas misérias.
Quase no fim, disse eu. Subir para o quarto, sentar-me à mesa, fechar os olhos antes de começar. A Serra da Estrela inteira à minha frente, luzes de Seia, de Gouveia, de outras terras. Da varanda dos meus avós o alumínio dos grilos raspando, raspando. Continuarão depois de mim, continuarão para sempre, eternos como as pedras.

António Lobo Antunes



domingo, 29 de maio de 2022

O sonho


Tenho 

zonas de mim

onde há florestas,

castelos, prados

que circundam

lagos, lugares

onde a neblina

da manhã

deixa uma luz

metálica pousada

sobre as coisas,

que jamais

alguém chegou

a visitar. quando

a chuva cai, 

deito-me inteiro

sobre a relva

molhada, até o corpo

ficar impresso

sobre a terra. há

dias em que

o sol volta

a brilhar e

a tudo inunda

de cor cósmica

e antiga: o

meu olhar

serena sobre

o vasto espaço

que, adiante, é

infinito. Se

lá chego, sou

eu quem ali

chega. E

se nele ador-

meço, o sonho 

que sonhar é

a minha vida.


Bernardo Pinto de Almeida

Aguarela de Júlio Resende

https://www.youtube.com/watch?v=EMOF-LBEqL8

domingo, 22 de maio de 2022

Sonhei com lúcidos delírios

 


Sonhei com lúcidos delírios

À luz de um puro amanhecer

Numa planície onde crescem lírios

E há regatos cantantes a correr.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Ilustração - arte efémera

https://www.youtube.com/watch?v=Vj7vHmejrPA&list=RDR4bERVn6USE&index=3