Mário de Carvalho
sábado, 18 de fevereiro de 2023
Estique, stick
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023
Os derrubadores de beleza - Crise de meditação
domingo, 5 de fevereiro de 2023
Crescer
Dorme muito e come bem
Na dúvida eu perguntei:
- O Papá vai ficar pequenino?
Ele dorme pouco também…
E continuei a crescer
Rodeada de amigos
De todo o género e feitio:
“As fadas… eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar…
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, à beira do mar”. (1)
Um dia anunciei à família:
- Eu vou à terra das fadas.
- Mas como? – Perguntaram
- É fácil. Entro na televisão.
Ah!Ah! Estava a brincar!
A brincar com a minha irmã
E divertimo-nos a cantar
No carro, em casa e na escola
Para quem quiser ouvir
Fados, Rap o que calhar:
“Alacazém
Ziriguidum
Vão chegar um a um
Alacazum
Ziriguidenha
Quem não quiser que não venha”(2)
Um dia na Serra da Estrela
Estive dentro duma nuvem
Enorme, leve e fofinha…
Como gostava de a provar
Abri a boca e… saboreei
Oh, mas que fresquinha!
“É tão bom ser nuvem,
Ter um corpo leve,
E passar, passar.”(3)
- Estás uma menina crescida
Vais para a escola a sério!
E não poupavam elogios
A mim, à nova escola, a tudo!
Na verdade eu pensava
Que ler é muito difícil…
Com os olhos eu já sabia
Com a boca não conseguia!
Setembro começou a escola
Gostei logo, é muito fixe!
Ao princípio achava estranho
E não conseguia entender
A professora ficava zangada
E não me deixava responder
Quando eu sabia as respostas!
“Se estou contente,
sei perfeitamente:
todo o alfabeto
não há que enganar.”(4)
Agora tenho mais amigos
Falo com tudo e com todos
Converso até com as pedras!
Foi com grande entusiasmo
Que na escola, a minha turma
Fez uma linda escultura
Que ficou num jardim público
Com um cartaz que dizia:
“As pedras falam? Pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.”(5)
Não vou falar mais de mim
Só gostava de dizer
Que já tenho um namorado.
Será que ele gosta de mim?
Tinha um cravo no meu balcão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não? (6)
HN
Extractos de poemas de:
1 – Antero de Quental
2 – Margarida Mestre e António-Pedro
4 e 5 – Maria Alberta Menéres
3 e 6 - Eugénio de Andrade
sábado, 28 de janeiro de 2023
Dormir vestido
Despede-te
todos os dias de cada coisa que amas ( a vida é um veneno que
só se toma uma vez). Descansa os olhos no mundo
(a dor
assinala o centro)
há uma flecha em viagem com o nome
de cada um. É como
apanhar boleia no guarda-chuva de alguém
(deves pagar a viagem exigindo
segurá-lo). Ou como dormir vestido (estar sempre
pronto a partir) levando
em ti o
o que aprendeste na universidade
do interior.
João Luís Barreto Guimarães
Pintura de Henri Matisse
domingo, 15 de janeiro de 2023
A guerra
Musa, pois cuidas que é sal
o fel de autores perversos,
e o mundo levas a mal,
porque leste quatro versos
de Horácio e de Juvenal.
Se tu de ferir não cessas,
que serve ser bom o intento?
Mais carapuças não teças;
que importa dá-las ao vento,
se podem achar cabeças?
Que tens tu que ornada história
diga que peitos ferinos,
em sanguinosa vitória,
inumanos, assassinos,
são do mundo a honra e a glória?
Sem causa, entre dentes trazes
a grande arte das batalhas;
murmuras de seus sequazes;
e, quando da guerra ralhas,
outra com a língua fazes.
Dizes que uma guerra acesa
é teatro de impiedade;
chamas-lhe crua fereza,
flagelo da Humanidade,
triste horror da natureza.
Pintas um bravo guerreiro,
e a meus olhos vens mostrá-lo,
para ferir mais ligeiro,
metendo o ardente cavalo
sobre o exangue companheiro.
A um lado e a outro lado
a morte mandando vai
co sanguinoso traçado,
até que ele mesmo cai
de um pelouro atravessado.
Co’as cabeças abatidas,
vão de ferro vil marcados,
maldizendo as tristes vidas,
mil cativos manietados,
vertendo sangue as feridas.
Entre horrorosos troféus,
o general desumano
manda falso incenso aos céus,
e de espalhar sangue humano
vai dando louvor a Deus.
sábado, 7 de janeiro de 2023
Olho-me ao espelho
domingo, 1 de janeiro de 2023
Ano Novo
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.
Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).
Ferreira de Gullar






