sábado, 26 de outubro de 2013

Poema enjoadinho

                               
                                Filhos...Filhos?
                                Melhor não tê-los!
                                Mas se não os temos
                                Como sabê-lo?
                                Se não os temos
                                Que de consulta
                                Quanto silêncio
                                Como os queremos!
                                Banho de mar 
                                Diz que é um porrete...
                                Resultado: filho.
                                E então começa 
                                A aporrinhação:
                                Cocô está branco
                                Cocô está preto
                                Bebe amoníaco
                                Comeu botão
                                Filhos? Filhos
                                Melhor não tê-los
                                Noites de insônia
                                Cãs prematuras
                                Prantos convulsos
                                Meu Deus, salvai-o!
                                Filhos são o demo
                                Melhor não tê-los...
                                Mas se não os temos
                                Como sabê-lo?
                                Como saber 
                                Que macieza
                                Nos seus cabelos
                                Que cheiro morno
                                Na sua carne
                                Que gosto doce 
                                Na sua boca!
                                Chupam gilete
                                Bebem shampô
                                Ateiam fogo
                                No quarteirão
                                Porém, que coisa
                                Que coisa louca
                                Que coisa linda
                                Que os filhos são!

                                Vinicius de Moraes
                                http://www.youtube.com/watch?v=5f-T3oUtSHI

domingo, 20 de outubro de 2013

Estou vivo e escrevo sol


Eu escrevo versos ao meio dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol.

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida

Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

António Ramos Rosa
http://www.youtube.com/watch?v=fFtGfyruroU

domingo, 13 de outubro de 2013

De que tristeza falam?



( a António Ramos Rosa)

Ouço dizer que anda lá fora uma tristeza. Inclino-me à janela e não a vejo. Pergunto-me então: de que tristeza falam? "Da morte." Oh, sim , morre-se muito no Outono. É esse, aliás, o tempo natural. As árvores, por exemplo, cumprem sempre. Deitam ao chão as suas chaves de ouro e fecham-se por dentro, inacessíveis. Mas a que morte se referem? A que perda, a que grande vazio se referem?
Faço a minha vigília em solidão, sem perceber de que tristeza falam. E sobre que tristeza escrevem eles. Não conhecem os rios da Irlanda? Existem, na Irlanda, rios assim: seguem pelo seu curso e, de repente, desaparecem, deixam a paisagem. E, mais longe, aparecem outra vez. Entram na terra, continuam a fluir pelos túneis do subsolo, depois emergem. É um fenómeno próprio do que ali se chama karst, formações de calcário vulneráveis à corrosão das águas pluviais. Não é um plágio da eternidade, é simplesmente aquilo que permanece ainda quando deixa de ser visto. É isso que eles ensinam, esses rios. É isso o que, apesar de uma tristeza andar lá fora, como me dizem, leva a que não a compartilhe.
Quando vier a hora de chorar já eu não estarei viva há muito tempo. Só acontecerá quando as catástrofes eliminarem a humanidade e, com ela, as palavras e, com elas, o que o António escreveu. Esse caudal.
Comparam-no alguns a um menino autocentrado e pronto a fascinar-se. O que há nele, sobretudo, é uma nobre e sábia rebelião, a que não dobra ante a realidade e quer ver tudo e ligar tudo com os fios que a luz e a pressa ocultam aos comuns. Os fios que ele descobria entre as palavras.

Hélia Correia
http://www.youtube.com/watch?v=NCID3781Xcg

sábado, 5 de outubro de 2013

Incertezas ou Evidências


Ninguém me disse: Vai por este caminho de água
ou Segue esta vereda silenciosa
Eu vivia na obscuridade com uma lâmpada negra
e a tortura do infinito na minha cabeça esguia
Mas eu amava os muros com insectos e urtigas
e os campos de verdura leve e os límpidos regatos
era um homem da terra que queria pertencer à terra
e consagrá-la numa relação viva e fértil
Eu queria construir com a matéria espessa
um edifício solar com amplas vidraças
e um terraço aberto à dinâmica languidez do mar
Não sei se o que fiz tem a solidez flexível
de um corpo vegetal mas com extensas pedras
Os que o habitarem talvez se deslumbrem com as claras planícies
e amem a tranquilidade misteriosa dos vales escuros
Mas para mim não é mais que um amontoado de folhas
algumas verdes outras secas e todas o vento varrerá

António Ramos Rosa
http://www.youtube.com/watch?v=he-R7b-15e0

domingo, 29 de setembro de 2013

António Ramos Rosa


Conversa pós-prandial com o Ramos Rosa num café. Que personagem este grande poeta. Claude Roy disse dele, salvo erro, que lembrava um Quixote surrado. Enganou-se de mundo, anda aqui por se ter distraído. Porque ele nasceu para viver noutro lado onde não haja regras de trânsito, de disciplina, de subsistência. De modo que faz um esforço enorme para se acomodar. Um grande achado para ele foram as práticas do ioga ou coisa que o valha. O mundo em que circula desarranja-lhe os mecanismos interiores. E toda a sua preocupação é consertá-los. Mas ele a compor e a realidade a estragar. Quando julga que venceu, fica radiante. Dias depois volta à oficina com o psíquico esmurrado. Não chegará nunca a tirar carta de condução no mundo. Hoje trazia outra descoberta: mastigar interminavelmente um pedaço de alimento até sentir vómitos. Isso lhe afinaria o sabor para recuperar um paladar originário. E ria. Estava feliz. Nós alimentamo-nos tão estupidamente, com um paladar tão encortiçado. Ele quer restaurar cá o sabor que deve haver talvez do lado de lá. Encantado com a descoberta. E eu com o encantamento dele. Adorável poeta. Extraordinário poeta.

Vergílio Ferreira
http://www.youtube.com/watch?v=xk3KMv7F-N0

sábado, 21 de setembro de 2013

A concha


A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou e os meus caprichos,
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa....Mas é outra história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio
http://www.youtube.com/watch?v=VPZF2Mrc4OM

domingo, 15 de setembro de 2013

Nasjonalgalleriet


Acerca da solidão não se enganaram
os jovens Mestres (quão bem entenderam a
condição humana) como está presente
enquanto outros festejam ou se abraçam ou simplesmente
conversam
entre si. Como (ante
a solidão) deve sempre haver alguém
que não queria especialmente que acontecesse.
Nunca esqueceram que a mais terrível solidão
tem uma geografia (o quarto abandonado
onde conversa sozinha ou isolada de tantos
no imo da multidão).
No Grito de Munch por exemplo:
a ponte é oblíqua como o medo. Os dois
amigos até podem não ter escutado o grito
mas tal não é determinante -
o céu em tumulto assistiu à angústia
da boca aberta (as
mãos cerrando os ouvidos ao grito essencial) e
sob o fiorde azul deu-se algo de extraordinário:
o grito chegou a acender-se mas
não se desfez em som.

João Luís Barreto Guimarães
http://www.youtube.com/watch?v=QnoGHHm_gTA