sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Lendas de Tavira

Todos nós olhamos para o Algarve como sinónimo de sol, praia, mar e verão…mas Tavira é muito mais do que verão, é uma cidade encantada de arte e história.
A sua história perde-se no tempo, é uma cidade de recantos e encantos, atravessada pelo Rio Séqua e Gilão, que também tem histórias e lendas para contar. 

Diz a lenda que o cavaleiro Gilão e a princesa Séqua de facções militares opostas, apaixonaram-se e os seus encontros secretos eram de madrugada na ponte antiga. Numa madrugada, foram surpreendidos pela facção militar cristã e pela facção militar moura. Como sabiam que seriam acusados de traição, o que os levaria à morte, resolveram antecipar o sofrimento. Cada um atirou-se para um dos lados da ponte caindo os dois ao rio. Daí se explica porque um dos lados da ponte o rio de Tavira chama-se Rio Séqua e do outro lado da ponte o rio chama-se Rio Gilão…




Lenda da moura encantada

Ainda hoje a vigília de São João, é muito festejada em Tavira e quando o relógio da cidade bate meia-noite, ninguém deixa de lembrar-se da Moura encantada que vai surgir dos muros do Castelo de Santa Maria. No tempo em que D. Paio Peres Correia tomou posse do Castelo de Tavira, era seu principal senhor, como já dissemos, Aben Fabilla, e muitos sustentam embora a lenda nada afirme, que a Moura do Castelo era filha deste Senhor e quando D. Paio invadiu Tavira para a conquista por vingança dos sete cavaleiros Aben Tabilla encantou sua filha para que os soldados não abusassem dela esperando mais tarde entrar vitorioso na Vila. E não eram infundados estas esperanças porque a história nos ensina que diversas vilas algarvias entravam e saíam da Coroa Portuguesa por diversas vezes nesse tempo. E assim formando a Lenda de que a Moura era filha do Rei de Tavira, vamos transcrever do Romanceiro do Estácio da Veiga a Lenda em verso.

Estácio da Veiga (1828-1891)











domingo, 21 de agosto de 2022

Uma conversa sem palavras


No princípio era o abraço. Um abraço é uma longa conversa sem palavras. Ele foi para a maioria de nós, ao nascer, o primeiro e reconfortante embalo, mas a necessidade de um abraço acompanha a nossa existência até ao fim.
Há uma tipologia vastíssima de abraços que declina, à maneira de um silabário, aquilo que um abraço pode ser: acolhimento e despedida, congratulação e luto, reconciliação e afago, manifestação de amizade ou de paixão. Os abraços fazem parte da arquitetura íntima da existência, do seu desenho invisível, mas absolutamente presente. São plenitude consentida ao desejo de comunhão que todos trazemos e memória que revitaliza. Os abraços são um mapa para que nos reconheçamos. E isso acontece efetivamente: em abraços quotidianos e extraordinários, abraços dramáticos ou transparentes, abraços alagados de lágrimas ou em puro júbilo, abraços de próximos ou de distantes, abraços fraternos ou enamorados, abraços repetidos ou que, porventura, nem chegaram a acontecer.
O que de mais importante em nós se destina a ser dito soletra-se melhor no silêncio de um abraço, porque aí ocorre isto que é tão precioso: sem defesas, um coração coloca-se à escuta de outro coração.

José Tolentino Mendonça
Pintura de Diego Rivera

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Testamento

Vou partir de avião

E o medo das alturas misturado comigo

Faz-me tomar calmantes

E ter sonhos confusos

 

Se eu morrer

Quero que a minha filha não se esqueça de mim

Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada

E que lhe ofereçam fantasia

Mais que um horário certo

Ou uma cama bem feita

 

Dêem-lhe amor e ver

Dentro das coisas

Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes

Em vez de lhe ensinarem contas de somar

E a descascar batatas

 

Preparem minha filha para a vida

Se eu morrer de avião

E ficar despegada do meu corpo

E for átomo livre lá no céu

 

Que se lembre de mim

A minha filha

E mais tarde que diga à sua filha

Que eu voei lá no céu

E fui contentamento deslumbrado

Ao ver na sua casa as contas de somar erradas

E as batatas no saco esquecidas

E íntegras.


Ana Luísa Amaral

https://www.youtube.com/watch?v=VLtGgQjachs

Pintura de Peter Paul Rubens



sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Europa



Europa

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno

E disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?

É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.

Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.

Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,

Nem sequer contra o insólito, contra o desespero.

Tu disparas contra a luz.

Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.

Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.

Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.

Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.

Há tantos meses que não chove – reparaste?

A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.

Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.

Quem deve. Quem empresta. Quem paga.



Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.

Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.

Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.

Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,

Nós não queremos disparar.


Filipa Leal

Gravura de H. Bunting (séc. XVI)
https://www.youtube.com/watch?v=MTmo_SjR6KQ

domingo, 31 de julho de 2022

A ordem do mar

À medida que ver se completa em arco

de uma harmonia que reúne o espaço inteiro

a flor se ergue em fantasia calma e se decanta

na brisa que a inclina e a rodeia e a aviva.

Não mais a máscara, não mais a mímica, não mais

as flautas e as palavras flutuantes. Só a canção

do mar, a sua ordem múltipla e monótona,

os seus artifícios frescos, a sua fragância funda.

É uma voz que torna o céu mais amplo e a folha

mais azul. É o conhecimento de uma ordem

em que as sombras se combinam com o vento,

em que os corpos são formas do verdadeiro oceano.


António Ramos Rosa

Pintura de Manuel Amado

https://www.youtube.com/watch?v=W6ijeWSrDHk


quinta-feira, 21 de julho de 2022

Convento da Arrábida



Painel de Frei Agostinha da Cruz no Convento da Arrábida

Alta Serra deserta, donde vejo

As águas do Oceano duma banda,

E doutra já salgadas as do Tejo.

 

Daqui mais saudoso o sol se parte;

Daqui muito mais claro, mais dourado,

Pelos montes, nascendo, se reparte

 

Aqui sob-lo mar dependurado

Um penedo sobre outro me ameaça

Das importunas ondas solapado.

 

Duvido poder ser que se desfaça

Com água clara, e branda a pedra dura

Com quem assim se beija, assim se abraça.

 

Eis por cima da rocha áspera descem

Os troncos meio secos encurvados,

Eis sobem os que neles enverdecem.

 

Os olhos meus dali dependurados,

Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos

Como, quando, por quem foram criados?

 

Assim com cousas mudas conversando,

Com mais quietação delas aprendo

Que outras que há, ensinar querem falando.

 

Se pelejo, se grito, se contendo

Com armas, com razão, com argumentos,

Elas só com calar ficam vencendo.


Frei Agostinho da Cruz



quarta-feira, 20 de julho de 2022

A Serra da Arrábida









A Serra tem o ar de uma onda que avança impetuosa e subitamente estaca e se esculpe no ar; é uma onda de pedra e mato, é o fóssil de uma onda. Ri-se do mar de agora, gaivota mansinha, profundamente azul, que faz avultar, com a planície que lhe fica à esquerda, o seu dorso gigantesco.

E seguimos; e à maravilha segue a maravilha: agora começa-se a descer a Estrada do Professor Gentil, três quilómetros que nos levam ao Portinho. 

Que pena não poder durar mais tempo esta nossa paragem! É que aqui é o ponto mais belo que até agora encontrámos: em nossa frente ergue-se, piramidal, o Monte do Guincho, onde a Mata do Solitário nasceu e vingou. Os pássaros cantam a liberdade dos bosques. E nós baixamos até ao Portinho, onde havemos de almoçar. Uma baía que abraça amorosissimamente um mar estático... Uma fortaleza mandada construir por D. Pedro II para defesa da costa (piratas que gostariam de passar aqui o seu fim-de-semana) e que é hoje a Estalagem de Santa Maria... Mato a nascer ao rés das ondas dir-se-ia que tem a raiz na água salgada... Uma luz que fere a vista, mas de que a vista se enamora, a vestir as coisas todas de um brilho que não é deste mundo... Gaivotas que não são sinal de temporal - são antes as pombas de uma paz única e primitiva... Todo o Portinho (que poeta lhe pôs este nome?) a ser um cais sobre a Poesia, uma janela que dá para a Beleza... Sabe-nos bem estarmos vivos.

Mas não deixemos de ver a Lapa de Santa Margarida - uma gruta enorme que o mar enche com a sua voz sagrada. Humildemente escondida na sombra, uma capelinha tosca onde por vezes se reza missa.

Depois Alportuche, uma pequenina praia a que nos conduz uma alameda de eucaliptos. E se tomarmos um bote poderemos ainda visitar a Praia dos Coelhos e a de Galapos. 

Chegou a hora da partida.  Passamos a dois passos da Mata Coberta... Um minuto mais e aparece o Convento. Ali se concentra a religiosidade esparsa pela Serra; parece que é ali a fonte mística, quando o contrário é o que afinal acontece; ali desemboca, vindo de todos os cantos, trazido por todos os ventos, o espírito que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido. Ali é que se apercebe com nitidez a Arrábida mais verdadeira, que não é a Arrábida dos banhos, nem a Arrábida das caldeiradas, nem a Arrábida das romarias encantadoramente pagãs, nem sequer a Arrábida do turismo; é o que aquelas paredes contam...

Sebastião da Gama (texto com supressões)

https://www.youtube.com/watch?v=8ZEHtt_5Ja4