A sua história perde-se no tempo, é uma cidade de recantos e encantos, atravessada pelo Rio Séqua e Gilão, que também tem histórias e lendas para contar.
sexta-feira, 2 de setembro de 2022
Lendas de Tavira
A sua história perde-se no tempo, é uma cidade de recantos e encantos, atravessada pelo Rio Séqua e Gilão, que também tem histórias e lendas para contar.
domingo, 21 de agosto de 2022
Uma conversa sem palavras
segunda-feira, 8 de agosto de 2022
Testamento
Vou partir de avião
E o medo das alturas misturado comigo
Faz-me tomar calmantes
E ter sonhos confusos
Se eu morrer
Quero que a minha filha não se esqueça de mim
Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
E que lhe ofereçam fantasia
Mais que um horário certo
Ou uma cama bem feita
Dêem-lhe amor e ver
Dentro das coisas
Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
Em vez de lhe ensinarem contas de somar
E a descascar batatas
Preparem minha filha para a vida
Se eu morrer de avião
E ficar despegada do meu corpo
E for átomo livre lá no céu
Que se lembre de mim
A minha filha
E mais tarde que diga à sua filha
Que eu voei lá no céu
E fui contentamento deslumbrado
Ao ver na sua casa as contas de somar erradas
E as batatas no saco esquecidas
E íntegras.
Ana Luísa Amaral
https://www.youtube.com/watch?v=VLtGgQjachs
Pintura de Peter Paul Rubens
sexta-feira, 5 de agosto de 2022
Europa
Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno
E disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?
É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.
Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.
Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,
Nem sequer contra o insólito, contra o desespero.
Tu disparas contra a luz.
Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.
Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.
Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.
Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.
Há tantos meses que não chove – reparaste?
A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.
Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.
Quem deve. Quem empresta. Quem paga.
Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.
Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.
Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.
Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,
Nós não queremos disparar.
Filipa Leal
domingo, 31 de julho de 2022
A ordem do mar
À medida que ver se completa em arco
de uma harmonia que reúne o espaço inteiro
a flor se ergue em fantasia calma e se decanta
na brisa que a inclina e a rodeia e a aviva.
Não mais a máscara, não mais a mímica, não mais
as flautas e as palavras flutuantes. Só a canção
do mar, a sua ordem múltipla e monótona,
os seus artifícios frescos, a sua fragância funda.
É uma voz que torna o céu mais amplo e a folha
mais azul. É o conhecimento de uma ordem
em que as sombras se combinam com o vento,
em que os corpos são formas do verdadeiro oceano.
António Ramos Rosa
Pintura de Manuel Amado
https://www.youtube.com/watch?v=W6ijeWSrDHk
quinta-feira, 21 de julho de 2022
Convento da Arrábida
Alta Serra deserta, donde vejo
As águas do Oceano duma banda,
E doutra já salgadas as do Tejo.
Daqui mais saudoso o sol se parte;
Daqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo, se reparte
Aqui sob-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.
Duvido poder ser que se desfaça
Com água clara, e branda a pedra dura
Com quem assim se beija, assim se abraça.
Eis por cima da rocha áspera descem
Os troncos meio secos encurvados,
Eis sobem os que neles enverdecem.
Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às plantas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Assim com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo
Que outras que há, ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razão, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Frei Agostinho da Cruz
quarta-feira, 20 de julho de 2022
A Serra da Arrábida
E seguimos; e à maravilha segue a maravilha: agora começa-se
a descer a Estrada do Professor Gentil, três quilómetros que nos levam ao
Portinho.
Que pena não poder durar mais tempo esta nossa paragem! É
que aqui é o ponto mais belo que até agora encontrámos: em nossa frente
ergue-se, piramidal, o Monte do Guincho, onde a Mata do Solitário nasceu e
vingou. Os
pássaros cantam a liberdade dos bosques. E nós baixamos até ao Portinho, onde
havemos de almoçar. Uma baía que abraça amorosissimamente um mar estático... Uma
fortaleza mandada construir por D. Pedro II para defesa da costa (piratas que
gostariam de passar aqui o seu fim-de-semana) e que é hoje a Estalagem de Santa
Maria... Mato a nascer ao rés das ondas dir-se-ia que tem a raiz na água
salgada... Uma luz que fere a vista, mas de que a vista se enamora, a vestir as
coisas todas de um brilho que não é deste mundo... Gaivotas que não são sinal
de temporal - são antes as pombas de uma paz única e primitiva... Todo o
Portinho (que poeta lhe pôs este nome?) a ser um cais sobre a Poesia, uma
janela que dá para a Beleza... Sabe-nos bem estarmos vivos.
Mas não deixemos de ver a Lapa de Santa Margarida - uma
gruta enorme que o mar enche com a sua voz sagrada. Humildemente escondida na
sombra, uma capelinha tosca onde por vezes se reza missa.
Depois Alportuche, uma pequenina praia a que nos conduz uma alameda de eucaliptos. E se tomarmos um bote poderemos ainda visitar a Praia dos Coelhos e a de Galapos.
Chegou a hora da partida. Passamos a dois passos da Mata Coberta... Um minuto mais e aparece o Convento. Ali se concentra a religiosidade esparsa pela Serra; parece que é ali a fonte mística, quando o contrário é o que afinal acontece; ali desemboca, vindo de todos os cantos, trazido por todos os ventos, o espírito que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido. Ali é que se apercebe com nitidez a Arrábida mais verdadeira, que não é a Arrábida dos banhos, nem a Arrábida das caldeiradas, nem a Arrábida das romarias encantadoramente pagãs, nem sequer a Arrábida do turismo; é o que aquelas paredes contam...
Sebastião da Gama (texto com supressões)
https://www.youtube.com/watch?v=8ZEHtt_5Ja4

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