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segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Noruega IV - Bergen



A cidade de Bergen

Subindo no funicular






O bairro histórico de Bryggen 












O brasão de Bergen no tempo da Liga Hanseática era contituído: do lado esquerdo, por metade de uma águia que remete para a cidade alemã de Lubeck, uma das principais da Liga; do lado direito, um bacalhau seco.
A Liga Hanseática era uma associação comercial (Hanse em alemão antigo significa associação) que chegou a estender a sua influência por mais de 100 cidades. Controlavam o comércio no Mar Báltico e no Mar do Norte e garantiam o monopólio dos produtos sempre que possível,  entre os séc. XIII e XVI.  O crescimento de rotas comerciais alternativas foi um dos factores que ditou o seu declínio.
Bergen era uma das quatro bases comerciais mais importantes da Liga e foi ao longo do seu cais (o Bryggen) que se estabeleceram os armazéns e escritórios pertencentes aos alemães. 
Esses edifícios quase todos de madeira, sofreram vários incêndios, mas foram reconstruídos e constituem actualmente o maior conjunto arquitetónico sobrevivente da época da Liga Hanseática.
Desde 1979, o bairro de Bryggen é considerado pela UNESCO Património Histórico da Humanidade.


Mais fotos de Bergen











História das "crianças alemãs"

Na Alemanha nazista, o Projecto Lebensborn foi um dos diversos programas lançados por Heinrich Himmer, braço direito de Hitler, destinados a provar a teoria da "raça pura" - a raça ariana.
O programa consistia em promover um maior número de filhos entre casais e, também o nascimento dos filhos de mães solteiras. Prometia-se às mães abrigo, cuidados médicos, dinheiro e, se fosse vontade delas, a adopção das crianças.
O programa foi estendido aos países que a Alemanha ocupou durante a II Guerra Mundial. Chegou à Noruega em 1941.
Os soldados alemães eram incentivados a ter filhos de mulheres norueguesas que, assim como outras escandinavas, loiras e de olhos azuis, eram consideradas "clássicas arianas". Um dos centros abrigo para mães ficava em Bergen. Terão sido entre 8000 a 12000 as crianças registadas nesses centros criados pelos nazis na Noruega.
Em 1945, com o fim da guerra, os noruegueses aplicaram todo o seu ódio contra estas mulheres que foram obrigadas a desfilar em público sob os gritos de "prostituta alemã". Muitas perderam o emprego e foram presas ou internadas. 
Segundo as autoridades da época, as mulheres que haviam tido relações com soldados nazis deviam ser atrasadas mentais, deficiência essa que também iria afectar os seus filhos, pelo que muitos acabaram internados em orfanatos e instituições psiquiátricas onde sofreram todo o tipo de abusos e perderam a oportunidade de estudar.
Uma das mais conhecidas "crianças alemãs" é a cantora Frida, do grupo ABBA.
Nascida em 1945 de mãe norueguesa e de um soldado alemão, ela, a mãe e a avó tiveram de se refugiar na Suécia para escapar à perseguição dos seus conterrâneos. A mãe viria a morrer antes de Frida completar dois anos. 
Somente na primeira década do séc. XXI, um grupo de Lebensborn (cerca de 150 pessoas) decidiu recorrer à justiça norueguesa para denunciar o que consideram ter sido a cumplicidade do governo na sua tragédia pessoal. O governo, em tempos, já lamentara  a situação mas nunca reconheceu que as "crianças alemãs" tenham sido sistematicamente maltratadas. Em 2007, o Tribunal Europeu de Justiça  decidiu  a atribuição de indemnizações a estas vítimas da guerra, mas na realidade o máximo que conseguiram foi a oferta a alguns deles de uma compensação simbólica, com o argumento de que os factos relatados  ocorreram há várias décadas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Teixeira de Pascoaes






Quanto eu viver viverá em mim a visão do Tâmega a atravessar o encantado rincão de Amarante em terras de Portugal. Guardarei para sempre - Deus queira que para depois de morto - a memória daqueles dias arrancados ao tempo em companhia de Teixeira de Pascoaes, e no íntimo ambiente da sua casa natal e solarenga, e daquela subida com ele e com o seu valoroso pai Teixeira de Vasconcellos ao cimo do Marão, que estende, como rendida cauda, uma falda doce para as ridentes terras do Minho e se debruça, sobre escarpadas garras, para os campos de Trás-os-Montes.
Debrucei-me àquela santa janela - minha santa janela - onde o poeta medita e diz adeus ao sol, e fala ao vento e saúda a aurora, e lê no infinito; debrucei-me com ele àquela janela, a beber com os olhos a água do Tâmega, que vai
                        Compondo versos de neblina
                        Às árvores, ao monte e à dura frágua...
                        Elegias d´orvalho à luz divina
                        E endechas  de remanso e cantos de água...
E com ele, com o poeta dulcíssimo, com Teixeira de Pascoaes, detive-me na sua Amarante, a ver a entrada da noite, o olho de luz do Tâmega, sob o arco da ponte, e vi-o sob o céu nocturno:
                         Ó Tâmega obscuro, água dormente...
                         Ó rio, à noite, a arder todo estrelado!
                         Água meditativa ao luar nascente,
                         Água coberta de asas ao sol nado!
Sim, também o vi ao nascer o sol, coberto de asa de neblina. E este rio é todo ele poeta, rio também de águas refrescantes e musicais.

Miguel de Unamuno

domingo, 26 de junho de 2016

Ilha natal



Encontrava-me agora na ilha onde nascera; muitos anos de ausência seguida, e estava ali. Para morrer? O meu centro, o âmago, era esta terra que afinal eu não reconhecia como esperava, com alvoroço, com uma emoção porventura amarga, difícil, mas não desta maneira recuada, como se eu não fosse vulnerável aos prestígios da minha tradição. Aquilo que a vista me dava, basaltos, espumas, corolas altas fremindo, corolas animais, e as ruas e casas, os nomes, evocações de pessoas, factos, instantes vertiginosos e misteriosos, o tormento e o júbilo, os pactos irrevogáveis com o destino próprio, ali, naquele sítio - nenhuma dessas experiências, nada, nenhuma imagem confirmada pelo olhar, ou esse odor de vaza marinha, de jasmins, e o vento trazido das montanhas, nada era vivo, actual, reiterado, circulatório, nada me reatava, um ímpeto do espírito, uma religação; eram coisas, aquelas, conferidas como realidades independentes de mim, arranjos do espaço que uma espécie de indiferença lúcida achava irrecusáveis mas irrecuperáveis na consciência, a consciência não fora abalada. Eu não reconhecia o mundo, aquele. Poderia então morrer, insensível, ali? Só morremos de nós mesmos, e se existe uma figura topográfica, geográfica, talvez seja escolhida ou imposta pela inspiração que dirige profundamente a nossa vida. Esta ilha não se integrava na minha ordem espiritual e fora nela contudo que eu arrecadara os ganhos fundamentais, os primeiros, naquelas imagens, nos acontecimentos por assim dizer nascidos nesses lugares, nascidos deles, ali concebera como reitoria irreversível e inocente aquilo que, com alguma veracidade, alguma retórica, alguma fé, se chamaria destino.
Quase me apetece escrever que a alimentação mítica, a minha, se fizera daquela substância mas os elementos tanto se haviam purificado, de tal maneira tinham sido dispostos, que constituíam um universo autónomo, irreferenciável, absoluto. Fora ali que eu nascera. Mas creio haver quem nasça de si próprio e significa talvez, isto, que nada tenho a ver com a história, que a criei, eu, à história, passe a megalomania se o é.

Herberto Helder
https://www.youtube.com/watch?v=zwHsv_AsSqg