domingo, 16 de fevereiro de 2014
Ao rés da água
No loch, ao rés da água,
dorme a foca sobre a pedra,
o sol é mínimo, a luz gelada.
Ullapool.
Cumprindo o ritual aceite,
rumo à Celtic Leather.
Cabelo embranquecido
neste intervalo que pareceu tanto,
a dona envelheceu, rugas agora
e o sorriso mais doce ainda.
Embarco para Stornoway,
um clã de golfinhos desenha,
à ilharga do ferry, os seus arcos
de graciosidade e alegria.
Depois a demanda de Callanish
e o aguardado pulsar de energia
daquelas pedras,
que de tão milenares,
parecem do princípio do tempo.
É lugar de renovação,
onde a mente se repousa
e atingimos o branco.
Devo, outrora, ter vivido ali.
Ou morrido ali.
João Alaiz
http://www.youtube.com/watch?v=GYnmfpA6yaQ
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Os meus Açores
Um lugar nunca é apenas "aquele" lugar: aquele lugar somos um pouco também nós. Seja como for, sem o sabermos, trazíamo-lo dentro de nós e um dia, por acaso, chegamos lá. Chegamos no dia certo ou no dia errado, conforme, mas isso não é responsabilidade do lugar, depende de nós. Depende de como lermos esse lugar, da nossa disponibilidade para o acolhermos dentro dos nossos olhos e dentro da nossa alma, de estarmos alegres ou melancólicos, eufóricos ou disfóricos, de sermos jovens ou velhos, de nos sentirmos bem ou de nos doer a barriga. Depende de quem somos no momento em que chegamos a esse lugar. Estas coisas aprendem-se com o tempo e, sobretudo, viajando. Mas há muitos anos, quando fiz a minha primeira viagem aos Açores, ainda não o sabia.
"Reconheces-me tu, ar, cheio dos lugares que uma vez foram meus?" É um verso de Rainer Maria Rilke que neste livro é recorrente. Alguém está a regressar a um lugar que conheceu noutros tempos e pede ao ar (o espírito do lugar?) que o reconheça, porque ele próprio não reconhece já esses lugares. Não reconhece o que contemplou noutros tempos nem o que nesse tempo sentia ao contemplar: as suas emoções, o seu eu de então. Cada lugar a que chegamos de viagem é uma espécie de radiografia de nós próprios. Muitas vezes, ingenuamente, tiramos fotografias com a ilusão de levarmos alguma coisa connosco. Mas as imagens são apenas a pele, pura aparência: o que esse lugar provoca em nós ao contemplá-lo e vivê-lo não é fotografável. Acontece o mesmo que com os sonhos. Impelidos pelo desejo de comunicar a emoção sentida a alguém e quase com espanto damo-nos conta de que a história daquele sonho era banal, era um sonho como outro qualquer: assim ao contá-lo, não comunica nenhuma emoção, nem em quem nos escuta nem a nós próprios que o contamos. O que é que tinha então de tão especial para ter provocado tanta emoção? Nada. O importante daquele sonho não era o que acontecia, mas a maneira como o estávamos a viver: o sonho era a nossa própria emoção. Com um lugar é a mesma coisa. Contá-lo não significa descrevê-lo, mas conseguir transmitir, mesmo numa ínfima parte, as emoções que nos suscitou.
http://www.youtube.com/watch?v=W4qjkIsYb4Y
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Neto-Avô
Quando eu estou num bando alegre de crianças,
Ou num grupo de bons e trémulos velhinhos,
Sinto uma paz estranha: eu vejo pombas mansas
Com ramos de oliveira a arquitectar os ninhos.
Ao pé dos velhos sinto um mórbido desmaio,
Mas, se as crianças vêm, renasce-me o vigor;
Porque elas são a flor das árvores em Maio,
E os velhos são o Outono, as árvores em flor...
Contudo ao ver, em torno, as criancitas belas,
Brincando como uma ave, a rir como as andorinhas,
Os velhos a brincar e rindo como elas,
Transformam-se, bom Deus! Em velhos-criancinhas.
Os velhos são o inverno, a infância é o sol ardente:
No entanto, apesar disso, ao ouvi-los falar,
Eu sinto-me feliz e regalado e quente,
Como ao pé dum bom fogo, entre a expansão dum lar...
Inflamo-me, se escuto as suas idas glórias,
Com que guerreiro amor brandiam as espadas!...
E às crianças, então eu conto-lhes histórias,
Em que entram moiras, reis e príncipes e fadas...
De modo que hesitante, ó murchas esperanças!
Entre a velhice e a infância, entre esses dois caminhos,
Penso que sou avô, ao lado das crianças,
E julgo-me criança, ao lado dos velhinhos...
António Nobre
http://www.youtube.com/watch?v=A86rdOJzcgY
domingo, 26 de janeiro de 2014
Abracadabra
O conhecimento
do poder oculto da palavra
tinha-se perdido há muito.
Sabia-o.
Ali, frente à porta bloqueada,
ciente demais do que pretendia
e da impossibilidade de o alcançar,
desistia, aceitava o destino.
Resignado, olhou pela última vez
o obstáculo.
Sem convicção, avocou a palavra
esquecida, escarnecida
e murmurou,
como os avós que sabiam:
Abracadabra.
Silenciosamente a porta abriu-se.
João Alaiz
http://www.artbreak.com/JALAIZ
domingo, 19 de janeiro de 2014
A Biblioteca de Babel
O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos. De qualquer hexágono vêem-se os pisos inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, a cinco longas estantes por lado, cobrem todos os lados menos dois; a sua altura, que é a dos pisos, mal excede a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um estreito saguão, que vai desembocar noutra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos. Um permite dormir de pé; o outro, satisfazer as necessidades finais.
Há quinhentos anos o chefe de um hexágono superior deu com um livro tão confuso como os outros, mas que tinha quase duas folhas de linhas homogéneas. Mostrou o seu achado a um decifrador ambulante, que lhe disse que estavam escritas em português; outros disseram-lhe que era iídiche. Em menos de um século conseguiu-se estabelecer o idioma: um dialecto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico. Também se decifrou o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variações com repetição ilimitada. Também acrescentou um facto que todos os viajantes têm confirmado: Não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos. Destas premissas incontroversas deduziu que a Biblioteca é total e que as suas estantes registam todas as possíveis combinações dos vinte e tal símbolos ortográficos (número, embora vastíssimo, não infinito) ou seja, tudo o que nos é dado exprimir: em todos os idiomas. Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catálogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basilides, o comentário desse evangelho, o comentário do comentário desse evangelho, o relato verídico da tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros. o tratado que Beda pode ter escrito (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito.
Jorge Luis Borges
http://www.youtube.com/watch?v=w4xx7DeKdLU
Jorge Luis Borges
http://www.youtube.com/watch?v=w4xx7DeKdLU
domingo, 12 de janeiro de 2014
Para fazer o retrato de um pássaro
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas.
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.
Jacques Prévert
domingo, 5 de janeiro de 2014
Que coisa são as nuvens
Falaram-me de um jogo um bocado elementar que é utilizado nas escolas quando se quer introduzir a questão das escolhas éticas. Existe um navio que se está a afundar e que transporta dez tripulantes. Ao lado, está um providencial bote salva-vidas pronto para ser posto em funcionamento mas onde infelizmente não cabem todos. O bote só comporta sete pessoas. Urge, por isso, determinar quem tem lugar ali. Tarefa bem dramática!
Chamou-me a atenção um dado que os investigadores detetam. Quanto mais jovens forem os alunos a quem se apresenta o jogo, mais previsível se torna a escolha seguinte: se entre os tripulantes do navio estiverem avós, eles são dos primeiros a ser salvos. E a gente pergunta: porquê os avós? O que é uma avó ou um avô no percurso de uma vida, quando, à maneira das sementes, mergulhamos no demorado processo de germinação ou iniciamos as aprendizagens fundamentais? Que contributo indispensável é o seu? Porque sentem os mais novos que eles devem indiscutivelmente ser salvos?
Os avós são mestres de uma arte esplêndida e rara: a arte de ser. Os avós sabem tornar um mero encontro quotidiano numa apetitosa celebração. Sabem olhar e olhar-nos sem pressas, vendo-nos esperançosamente mais adiante. Sabem dar valor às coisas de nada. Nunca consideram que quando se entretêm connosco estão a perder tempo, muito pelo contrário. Sabem que o amor dá-se bem com essa com essa gratuita condivisão. Os avós caminham a nosso lado sem pressa. Têm tanto de distante como de próximo no arco do tempo. Têm uma sabedoria que se expressa por histórias calorosas e não por conceitos. Têm uma memória que nos parece inesgotável, cheia de aventuras, de bagatelas e de detalhes para divertir. Têm armários carregados de objetos (alguns incompreensíveis) que nos põem a sonhar. Apresentam-nos a gostos e a sabores que passamos a identificar com eles. Os avós já foram muitas vezes aos lugares onde nos levam pela primeira vez. Chamam a atenção para coisas incalculáveis como a forma de uma nuvem ou a cor diferente que ganham as folhas. Ensinam-nos com serenidade, colocando-se a nosso lado. Nunca acham despropositada a fantasia, nem os medos, nem o mimo. Têm o sentido das pequenas coisas e colos onde cabem as grandes. Amparam os nossos desequilíbrios com o corrimão invisível e seguro do seu afeto, disponíveis degrau a degrau, Adivinham o que não dizemos sem se confundirem com a nossa confusão. Quando não estão connosco, pensam em nós, repetem aos amigos as frases que dissemos, disputam-nos, orgulham-se de coisas parvas, como o modo como sorrimos ou respiramos. Penso que se sentimos tão intensamente que os devemos salvar é porque percebemos, desde muito cedo, que somos salvos por eles.
José Tolentino Mendonça
http://www.youtube.com/watch?v=kGvY4tqcgUQ
José Tolentino Mendonça
http://www.youtube.com/watch?v=kGvY4tqcgUQ
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