domingo, 2 de março de 2014

O som da água

                           

                             
                              O som mais belo é o som da água que corre.
                              O ruído da água, a explicação da água
                               na casca das pequenas pedras, a livrá-las
                               da mancha de não serem. E as pedras
                               transformam-se nesse som, devolvendo
                               a própria escuridão para trás do tempo.
                               É isso a água que corre, essa
                               luz de liberdade para sempre.
                               Essa explosão de para sempre
                               e nunca.

                               Isabel Cristina Pires
                               http://www.youtube.com/watch?v=e9RS4biqyAc

domingo, 23 de fevereiro de 2014

para uma canção de embalar


embalo a minha filha joana que acordou num berreiro.
a casa está às escuras, vou passando com cuidado
para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina
que se calou mas está de olho muito aberto e quer brincar,
e há um halo de luz parda a coar-se pelas persianas
e às vezes uns faróis riscando estrias a correrem pelo tecto.

levo-a bem presa ao colo, toda de porcelana pesadinha,
enquanto a irmã está a dormir meio atravessada nos lençóis.
ao chegar-me a outra janela vejo as luzes fugindo na auto-estrada
em direcção ao rio, a uma placa da lua sobre o rio,
e trauteio "já gostava de te ve-er", enquanto acendo o fogão
para aquecer o leite e embalo a minha filha e a outra está a dormir.

oxalá cresçam ambas airosas e bem seguras,
e possam ir na vida serenamente como os rios correm,
ou como os veleiros voam, ou como elas agora respiram
em cadências regulares neste silêncio táctil.
a meio da noite um homem acordou no sossego da casa
e pôs-se a cuidar do sono das suas filhas pequenas.

oxalá haja fadas benfazejas esvoaçando das histórias
de princesas felizes e potros azul-turquesa, e forrem esta casa,
e pelas malvadas bruxas alegres sinos dobrem,
e estas meninas existam incólumes e puras no seu quente contentamento,
mesmo que o mundo vá girando numa ordem sobressaltada,
mesmo que os mares agonizem nos seus gonzos de chumbo.

Vasco Graça Moura
http://www.youtube.com/watch?v=0uerk86OpLk

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Ao rés da água

                         

                             No loch, ao rés da água,
                             dorme a foca sobre a pedra,
                             o sol é mínimo, a luz gelada.
                             Ullapool.
                             Cumprindo o ritual aceite,
                             rumo à Celtic Leather.
                             Cabelo embranquecido
                             neste intervalo que pareceu tanto,
                             a dona envelheceu, rugas agora
                             e o sorriso mais doce ainda.
                             Embarco para Stornoway,
                             um clã de golfinhos desenha,
                             à ilharga do ferry, os seus arcos
                             de graciosidade e alegria.
                             Depois a demanda de Callanish
                             e o aguardado pulsar de energia
                             daquelas pedras,
                             que de tão milenares,
                             parecem do princípio do tempo.
                             É lugar de renovação,
                             onde a mente se repousa
                             e atingimos o branco.
                             Devo, outrora, ter vivido ali.

                             Ou morrido ali.


                             João Alaiz
                             http://www.youtube.com/watch?v=GYnmfpA6yaQ

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Os meus Açores


Um lugar nunca é apenas "aquele" lugar: aquele lugar somos um pouco também nós. Seja como for, sem o sabermos, trazíamo-lo dentro de nós e um dia, por acaso, chegamos lá. Chegamos no dia certo ou no dia errado, conforme, mas isso não é responsabilidade do lugar, depende de nós. Depende de como lermos esse lugar, da nossa disponibilidade para o acolhermos dentro dos nossos olhos e dentro da nossa alma, de estarmos alegres ou melancólicos, eufóricos ou disfóricos, de sermos jovens ou velhos, de nos sentirmos bem ou de nos doer a barriga. Depende de quem somos no momento em que chegamos a esse lugar. Estas coisas aprendem-se com o tempo e, sobretudo, viajando. Mas há muitos anos, quando fiz a minha primeira viagem aos Açores, ainda não o sabia.
"Reconheces-me tu, ar, cheio dos lugares que uma vez foram meus?" É um verso de Rainer Maria Rilke que neste livro é recorrente. Alguém está a regressar a um lugar que conheceu noutros tempos e pede ao ar (o espírito do lugar?) que o reconheça, porque ele próprio não reconhece já esses lugares. Não reconhece o que contemplou noutros tempos nem o que nesse tempo sentia ao contemplar: as suas emoções, o seu eu de então. Cada lugar a que chegamos de viagem é uma espécie de radiografia de nós próprios. Muitas vezes, ingenuamente, tiramos fotografias com a ilusão de levarmos alguma coisa connosco. Mas as imagens são apenas a pele, pura aparência: o que esse lugar provoca em nós ao contemplá-lo  e vivê-lo não é fotografável. Acontece o mesmo que com os sonhos. Impelidos pelo desejo de comunicar a emoção sentida a alguém e quase com espanto damo-nos conta de que a história daquele sonho era banal, era um sonho como outro qualquer: assim ao contá-lo, não comunica nenhuma emoção, nem em quem nos escuta nem a nós próprios que o contamos. O que é que tinha então de tão especial para ter provocado tanta emoção? Nada. O importante daquele sonho não era o que acontecia, mas a maneira como o estávamos a viver: o sonho era a nossa própria emoção. Com um lugar é a mesma coisa. Contá-lo não significa descrevê-lo, mas conseguir transmitir, mesmo numa ínfima parte, as emoções que nos suscitou.

Antonio Tabucchi
http://www.youtube.com/watch?v=W4qjkIsYb4Y

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Neto-Avô

















Quando eu estou num bando alegre de crianças,
Ou num grupo de bons e trémulos velhinhos,
Sinto uma paz estranha: eu vejo pombas mansas
Com ramos de oliveira a arquitectar os ninhos.

Ao pé dos velhos sinto um mórbido desmaio,
Mas, se as crianças vêm, renasce-me o vigor;
Porque elas são a flor das árvores em Maio,
E os velhos são o Outono, as árvores em flor...

Contudo ao ver, em torno, as criancitas belas,
Brincando como uma ave, a rir como as andorinhas,
Os velhos a brincar e rindo como elas,
Transformam-se, bom Deus! Em velhos-criancinhas.

Os velhos são o inverno, a infância é o sol ardente:
No entanto, apesar disso, ao ouvi-los falar,
Eu sinto-me feliz e regalado e quente,
Como ao pé dum bom fogo, entre a expansão dum lar...

Inflamo-me, se escuto as suas idas glórias,
Com que guerreiro amor brandiam as espadas!...
E às crianças, então eu conto-lhes histórias,
Em que entram moiras, reis e príncipes e fadas...

De modo que hesitante, ó murchas esperanças!
Entre a velhice e a infância, entre esses dois caminhos,
Penso que sou avô, ao lado das crianças,
E julgo-me criança, ao lado dos velhinhos...

António Nobre
http://www.youtube.com/watch?v=A86rdOJzcgY

domingo, 26 de janeiro de 2014

Abracadabra

               
                 
           
                 
                     O conhecimento
                     do poder oculto da palavra
                     tinha-se perdido há muito.
                     Sabia-o.
                     Ali, frente à porta bloqueada,
                     ciente demais do que pretendia
                     e da impossibilidade de o alcançar,
                     desistia, aceitava o destino.
                     Resignado, olhou pela última vez
                     o obstáculo.
                     Sem convicção, avocou a palavra
                     esquecida, escarnecida
                     e murmurou,
                     como os avós que sabiam:
                     Abracadabra.

                     Silenciosamente a porta abriu-se.


                     João Alaiz
                     http://www.artbreak.com/JALAIZ


                       

domingo, 19 de janeiro de 2014

A Biblioteca de Babel


O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos. De qualquer hexágono vêem-se os pisos inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, a cinco longas estantes por lado, cobrem todos os lados menos dois; a sua altura, que é a dos pisos, mal excede a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um estreito saguão, que vai desembocar noutra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos. Um permite dormir de pé; o outro, satisfazer as necessidades finais. 
Há quinhentos anos o chefe de um hexágono superior deu com um livro tão confuso como os outros, mas que tinha quase duas folhas de linhas homogéneas. Mostrou o seu achado a um decifrador ambulante, que lhe disse que estavam escritas em português; outros disseram-lhe que era iídiche. Em menos de um século conseguiu-se estabelecer o idioma: um dialecto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico. Também se decifrou o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variações com repetição ilimitada. Também acrescentou um facto que todos os viajantes têm confirmado: Não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos. Destas premissas incontroversas deduziu que a Biblioteca é total e que as suas estantes registam todas as possíveis combinações dos vinte e tal símbolos ortográficos (número, embora vastíssimo, não infinito) ou seja, tudo o que nos é dado exprimir: em todos os idiomas. Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catálogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basilides, o comentário desse evangelho, o comentário do comentário desse evangelho, o relato verídico da tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros. o tratado que Beda pode ter escrito (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito.

Jorge Luis Borges
http://www.youtube.com/watch?v=w4xx7DeKdLU