domingo, 21 de maio de 2023

Regresso


Poderia regressar vendada, triunfantes
a porta, a chave e como rodá-la, os meus encontros.
Aqui, o armário onde arrumei a primeira biblioteca
ali uma lição de círculos e de trópicos
a trajectória circular do meu Globo.

O que mudou mudou, o essencial ficou
inalterado - a secretária baixa, os cadernos
escritos com lápis da Viarco e uma borracha.
Por eles abri a porta a uma torrente inexplicável
feita de gente que nunca vi, nem conheci, mas
que fiz nascer e baptizei com nomes que trouxe
de cartórios ignorados e outros rostos(...)

Regresso a estes cantos e ponho as mãos 
nestes lugares como se esta casa fosse um clone
prévio do meu corpo, e só descanso quando me 
escondo entre os lençóis de linho em cuja superfície 
quando era moça deixava nódoas cor de vinho.

Aqui, tudo o que bate à janela,  como a chuva
desordenado e bruto, em escrito, não é produto
é uma chamada por alguém que está escondido
noutro mundo.

Lídia Jorge
Arte de Lourdes Castro

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Vagas de Amplitude

Vagas de amplitude sobre o país mesquinho.
Nitidez de ondas que ascendem, embriagam
até à espuma do espaço. O inominável espraia-se
dissipando o insignificante, o turvo, o tépido.
Quase uma catástrofe ou as imagens de um sonho.
Mas o ritmo é soberano e simples e as perspectivas lisas.
As ondas derrubam as estátuas, os demónios e os deuses.
O ar fica brilhante e limpo na unidade do silêncio.
A igualdade estabelece-se no esparso e no diverso.
Frescura imensa do supremo, suspensão indefinida.
Equilíbrio ligeiro. A sabedoria apaga-se
no próprio ar que a incendeia. A respiração é transparente.
Tudo é incomparável mas tudo é simples.
Tocamos as teclas da terra com o orvalho do sol.
Vestidos de vento dançamos com o claro enigma.
Já não há fronteiras entre o abandono e a vigília.
Espáduas dilaceradas são agora tranquilas dunas.
Ouve-se o riso pacífico e dourado de marulhantes mulheres.
Tanta embriaguez clara, tanta ligeira liberdade.

António Ramos Rosa
Caricatura de João Abel Manta

sábado, 15 de abril de 2023

Vinte e cinco de Abril

 

Este é um poema

com saudade da festa...

 

Dias de vermelho

de damasco e de riso

 

Das horas de alegria

e de bandeiras, de cravos

rubros postos no vestido

 

Este é um poema

feito de memória

 

Da pressa incontida

no passo corrido

 

De fala crescida

de prisões abertas, de escrita

liberta descobrindo o sentido

 

Este é um poema recordando

a mudança, da esperança

e do sonho acontecido

 

Com palavras

do corpo e de lembrança

 

Exigindo o futuro

a promessa e o grito

 

Este é um poema

cantando

a liberdade

 

De lágrimas costuradas

suturando o sorriso

 

Ousando dizer da ambiguidade

da estranheza do novo

misturado ao antigo

 

Este é um poema

torneando o avesso

 

Da luz da madrugada

de uma noz de vidro

 

Do voo das gaivotas

junto à pele das águas

fazendo do Tejo o seu precipício

 

Este é um poema

de visitar a História

 

Da revolução

o ganho

e também o perdido

 

Da viagem e do mar

da língua portuguesa

onde na paixão me encontro comigo


Maria Teresa Horta

https://www.50anos25abril.pt/iniciativas/marco

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Endoenças

Não há em toda a montanha terra tão desgraçada e tão negra como Saudel. Aquilo nem são casas, nem mora lá gente. São tocas com bichos dentro.
Apesar disso, Cristo Nosso Senhor, aos domingos, digna-se visitar a aldeia na pessoa do padre Unhão, que vem rezar missa ao nascer do sol. O padre apeia-se da égua, assoa-se a um lenço tabaqueiro encardido, tosse, dá duas badaladas no sino, e entra numa igreja tão escura e tão gelada que se lembra sempre duma pneumonia dupla. Diz o intróito com muita solenidade, sobe as escadas de granito, lê, treslê, vira-se, volta-se, benze-se, e, por fim, prega. É sempre uma descompustura de cima abaixo. Que ninguém presta. Que os pais são assim, que as mães são assado, que as filhas são porcas, que os filhos são brutos, que é tudo uma miséria.
Saudel, abismado, ouve. Depois, à saída, põe-se a ruminar. Quem irá dizer lá em cima tão mal do povo? Os homens cavam de manhã à noite, as mulheres parem quantas vezes a Virgem Maria quer, os rapazes e as raparigas vão com o gado... Quem irá meter coisas daquelas nos ouvidos de Deus?
Seja quem for, o certo é que no domingo seguinte, Nosso Senhor, sempre pela boca sem dentes do abade, recomeça a ralhar. Que o fim do mundo está perto e que não haja ilusões. Todos para as profundas dos infernos. Os velhos, as velhas e os novos. Ficam só as ovelhas.
Saudel aí desespera. Chora umas lágrimas negras, barrentas,  e geme como quem uiva. Os rebanhos na serra sem pastor! O que não teriam dito de Saudel no céu!
E o pior é que nem o próprio padre Unhão descortina saída para semelhante calamidade, depois da falência do remédio que tentou. Seguro de que a misericórdia divina tudo pode, resolveu salvar o desterrado lugarejo e a sua endemoninhada gente, através de um acto colectivo de expiação. Endoenças. Estava a Semana Santa à porta. Realizasse o povo endoenças, e remisse os pecados na dor e na oração. 
Saudel, lanzudo como os carneiros, nem sequer percebeu. O que eram endoenças?
E foi preciso o pároco explicar. Eram a Paixão e a Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, representadas ao natural. De Cristo, Nosso Senhor, fazia o Coelho, que nem de encomenda para o papel. 

Miguel Torga
Foto: Auto da Paixão, em Vilar de Perdizes,Montalegre


domingo, 2 de abril de 2023

À sombra de uma mulemba...

Chegando ao seu quarto, Jude descobre que se esqueceu de deixar o laptop a carregar. Entretanto desligaram o gerador. O computador tem apenas dois por cento de bateria. Sai do quarto e senta-se na varanda com um caderno e uma caneta Montblanc, oferta de John. À luz hesitante de uma vela, começa a escrever:
"Quando o construtor de castelos abriu os olhos continuava no mesmo lugar. Não saberia dizer há quanto tempo estava ali. Nem sequer saberia dizer se onde estava existia tempo. Os dias e as noites não se sucediam uns aos outros. Tão-pouco os bichos e as árvores se desenvolviam, ou os corpos envelheciam. O construtor de castelos fechava os olhos o tempo suficiente para que o capim crescesse e engolisse tudo, e quando os voltava a abrir encontrava o mundo igual. A farta e fresca sombra da mulemba, um perfume feliz, um rio correndo ao fundo e o seu lento rumor. 
Por muito que caminhasse, e já caminhara muito, não conseguia abandonar a sombra da mulemba. O rio continuava colado ao horizonte, cintilante e mudo, como uma miragem. Só mudavam os visitantes.
Naquele momento, ao abrir os olhos, encontrou um menino parado diante dele.
- Quem és tu? - perguntou.
- Sou o menino que vendia amendoins - respondeu o menino. - E tu quem és?
(...) Fechou os olhos e logo foi substituído por um marinheiro de pernas cruzadas, costas muito direitas. Usava um brinco na orelha esquerda. Antes que conseguisse perguntar-lhe alguma coisa, o marinheiro estendeu a mão e apontou para o rio. 
- Sabe o que falta ali?
O construtor de castelos encarou-o, surpreso.
- Onde? No rio?
- Sim, no rio.
- O que falta?
- Uma ponte!
- Uma ponte?
- Evidentemente, uma ponte. Como iremos atravessar para a outra margem?
O construtor de castelos não conseguiu disfarçar a irritação. Ergueu a voz.
- Nunca passaremos para a outra margem. não existe uma outra margem. 
O marinheiro riu-se. Não havia maldade no riso dele.
- Claro que existe. Existe o rio, existe esta margem, onde nós estamos, e existe a outra. Todos os rios têm duas margens. Isso significa que temos de atravessá-lo e alcançar o lado de lá.
O construtor de castelos mostrou com um gesto fatigado a farta sombra que os cercava.
- A sombra desta mulemba é a nossa prisão. Não há como sair daqui. 
- A sombra só é uma prisão quando nos impede de ver.
- O senhor acredita no inferno?
- Claro. É um território interior. Não se vai para o inferno, não se vai para o paraíso. Vamos é com eles para toda a parte. Há pessoas que expandem o inferno que trazem dentro de si. Noutras cresce-lhes um paraíso na cabeça. Muitas não chegam a desenvolver nenhum dos dois. Essas são as mais infelizes, porque nunca viveram (...)"

José Eduardo Agualusa

domingo, 19 de março de 2023

A MESA:

A minha pátria

é esta sala que dá para a varanda,

e é também a varanda com as suas flores

que vão e vêm meses fora, e eu vejo luminosas

mesmo quando se tornam cor

de vento triste


A minha pátria

é a toalha branca que me cobre, são os pratos

que sustento todos os dias, os braços

que se encostam a mim,

até a água onde quase me afoguei,

por culpa distraída da mão que no meu corpo 

a colocou, mão insensata

esquecida de cuidar


Comecei por conhecê-la,

à minha pátria.

Quando era ainda a paisagem perfumada

das madeiras, irmãs de nascimento, a serração,

o ar coberto de minúsculos fios e pó

tão bem cheiroso, os dedos que depois me tomaram,

tábua larga, me afagaram

com plainas, o verniz, o brilho

tudo isso foi já a minha pátria: pradaria de insectos,

ventos brancos, a seiva viva que corria

nos meus veios, a água que eu bebia para sobreviver,

e que me protegia


Que a mão que agora aqui e sobre mim

se estende

se lembre desta inteira condição comum:

de reino igual viemos, para igual  reino

vamos, ela e eu


os átomos que me formam e fizeram 

podem ter sido os seus


Ana Luísa Amaral

Pintura de Di Cavalcanti

https://www.youtube.com/watch?v=pUlJ-3TuRnA


domingo, 5 de março de 2023

Mulheres




Ultrabiográfico

Que sexta-feira de estilhaços!
(na via-sacra é a paixão)
Se já morri foi nos meus braços
Por não haver ressurreição.

Cheguei a esta mitologia
Como os ciganos, pelo caminho.
Na minha humana eucaristia
Não há o pão. Só bebo o vinho.

Deixem ao céu a concordata
Com uma flor, se lhe apetece.
Mas não me mostrem santos de prata
Como quem mostra o que padece.

Para Jeová, sofro de mais.
Para o demónio, sofro de menos.
Prefiro os olhos dos animais
E o meu vestido de ver a Vénus.


Natália Correia
Retrato de Natália Correia por Carlos Botelho





Mulheres à beira-mar

Confundido os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente
a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga,
feliz de ser tão verde.

Sophia de Breyner Mello Andresen
Retrato de Sophia por Maria Helena Vieira da Silva




Porque...

Porque tens nos olhos
o sol
e o mar

Porque tens nos olhos
o rio
e também

o riso
o fogo

Porque logo te chamam
de manhã
e a comida preparas para todos

Porque no ventre
semeias
os teus filhos...

Porque ceifas a fome
porque ceifas o trigo

Porque tratas os feridos
os perdidos
e os embalas nos braços sem razão
a não ser pela razão do teu carinho

Porque esperas os outros
no caminho
estendendo devagar as tuas mãos



Maria Teresa Horta
Pintura de Paula Rego



Maria Helena, Sophia e Agustina


Íamos nisso do meu primeiro encontro com o Arpad e a Maria Helena. Arpad disse que estavam ali as três mulheres de mais talento em Portugal, e, por sorte, ninguém mais o ouviu senão nós três. Ele sabia que não ia acender rivalidades porque tínhamos diferentes artes. Modalidades, como se diz no Porto. O Carlos Carneiro, que era um snob com muita fantasia para agourar o mau gosto burguês, dizia que um dia o chamou um pedante tímido, que os há nas faustas ruas da cidade, e lhe confessou: "Eu também me dedico à modalidade". E deu em mostrar-lhe horrendas aguarelas, marinhas e não sei que mais. Pois nós não nos acotovelávamos na modalidade. Maria Helena pintava, eu escrevia romances, a Sophia fazia poesia - e assim continuamos dentro do território demarcado, sorrindo, aplaudindo e permitindo ao génio a cumplicidade em que a emulação não mete o dente. A Sophia era um caso - uma mulher que tem a cortesia de parecer vulnerável. Eu era um caso - incerteza apaixonada. Vieira era um caso - uma mulher justa, o que é extraordinário e incalculável. Por exemplo: eu não sou justa, ajuízo as coisas. Eu e a justiça somos pura coincidência; o facto de isto se repetir faz talvez o prodígio, mas não a certeza.

Agustina Bessa-Luís
Retrato de Maria Helena Vieira da Silva por Arpad Szenes