sábado, 31 de outubro de 2020
Os números
sábado, 17 de outubro de 2020
Redacção da Guidinha
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
Mestre
Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstracta e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjectiva...
Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu coração não aprendeu nada.
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.
Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!
A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
segunda-feira, 28 de setembro de 2020
A minha filha (vendo-a dormir)
Que alma intacta e delicada!
Que argila pura e mimosa!
É a estrela d'alvorada
Dentro dum botão de rosa!
E, enquanto dormes tranquila,
Vejo o divino esplendor
Da alma a sair da argila,
Da estrela a sair da flor!
Anjos, no azul inocente,
Sobre o teu hálito leve
Desdobram candidamente,
Em pálio, as asas de neve...
E eu, urze má das encostas,
Eu sinto o dever sagrado
De te beijar— de mãos postas!
De te abençoar — ajoelhado!
Guerra Junqueiro
sábado, 12 de setembro de 2020
Sonhando com Dacosta
Detivemo-nos numa praia. É uma praia de uma minha ilha, disse Dacosta, olhe que bonita que é.
A areia era fina e dourada, salpicada de crustáceos e moluscos, com pequenas concreções azuis que pareciam vindas de outro planeta. Na praia havia uma barraca de madeira pintada de branco e na porta estava escrito: Restaurante. Entrámos e Dacosta cumprimentou o dono.Era um hospedeiro bizarro, com duas asas azuis nas costas e o cabelo vermelho. Esta é a minha Caça ao Anjo, disse Dacosta, é assim que se chama este restaurante, e este é o meu anjo da guarda, o anjo que cuida do meu estômago e da minha alma.
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
Quinta da Paz
Vejo o Passado reviver,
Porque em meu coração
Tudo é ressurreição,
Amanhecer...
E vejo aquelas almas esperando,
Doidas de luz, seu próprio nascimento...
Nas nuvens já descubro as fontes marulhando
E a brisa, para mim, é já tumulto e vento.
Saio do velho lar escuro de abandono.
Cá fora, o céu azul dá nova graça
Às árvores despidas pelo Outono,
Ao passarinho, flor etérea que esvoaça...
E vejo a antiga fonte: os dois golfinhos
E o nicho donde outrora
Um santo contemplava os passarinhos
Voando, à flor da aurora.
E, nas frestas antigas da parede,
A harmoniosa e límpida frescura
Que nos desperta a sede,
Pousava em alegrias de verdura...
Vejo a nossa ramada, ao longo do quintal:
Claustro de folhas mortas, a cair...
Leva-as, no seu regaço, o zéfiro outonal;
Nadam nos charcos de água...
Vestem de oiro mortal a dura frágua;
Outras, no Azul, vão ser estrelas a sorrir...
Teixeira de Pascoaes
https://www.youtube.com/watch?v=sKkk7vjSdeg&feature=youtu.be




