domingo, 20 de agosto de 2023

Coimbra de António Nobre


Moro numa alta, numa velha Torre,
Cheia de sonho e de legenda, até!
Pelos seus muros verde suor escorre,
Porque, há mil anos, que ela está de pé!

Olhai o Sol que entre salgueiros morre,
E a velha Coimbra, enoitecendo, vê!
Aqui, sozinho, moro nesta Torre,
Com o meu cão e o velho e leal Joseph.

Sobe ao terraço: aqui, "fora de portas",
Perto das nuvens, nas regiões serenas,
Moram as minhas esperanças mortas:

Vê-as ao canto... Pobres andorinhas!
Nas asas têm já tão poucas penas,
Que parecem um bando de velhinhas...

Coimbra, 1889


Para as raparigas de Coimbra

Minha capa vos acoite,
Que é pra vos agasalhar:
Se por fora é cor da noite,
Por dentro é cor do luar...

Vou encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, que é da tua água?
Que é dos prantos que chorei?

Ó quem me dera abraçar-te,
Contra o peito assim, assim,
Levar-me a morte e levar-te
Toda abraçadinha a mim.
 
A cabra da velha Torre,
Meu amor, chama por mim;
Quando um estudante morre,
Os sinos chamam, assim.
 
Ó sinos de Santa Clara,
Por quem dobrais, quem morreu?
Ah, foi-se a mais linda cara
Que houve debaixo do Céu!

Coimbra, 1890

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Quietude



Que poema de paz agora me apetece!
Sereno,
Transparente,
A sugerir somente
Um rio já cansado de correr,
Um doce entardecer,
Um fim de sementeira.
Versos como cordeiros a pastar,
Sem o meu nome em baixo, a recordar
Os outros que cantei a vida inteira.

Miguel Torga

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Natália Correia visita Torga





Em Coimbra, na casa de Miguel Torga, que visitávamos sempre que acedíamos à cidade, Natália Correia perturba-se. O escritor abeira-se do fim. Deitado num divã, junto à janela do escritório onde nos recebe, sidera-nos com o seu desespero branco: "Ainda bem que vou morrer, não assistirei à agonia de Portugal. Portugal vai desaparecer nesta CEE, a sua cultura, a sua economia, não aguentarão os embates que lhe vão ser impostos. Onde estão os políticos, os intelectuais, que não vêem isso? É catastrófica a sua falta de lucidez!"
Ele não acreditava que " o País sobrevivesse integrado na comunidade Europeia",  repetia, repetia - qual Camões após Alcácer Quibir. "Portugal está a ser destruído por dentro, pelo centrão que o sequestrou através do voto para o roubar, enganar, aviltar", arquejava, olhando para lá dos vidros da saleta onde o corpo se lhe desfazia. 
Preocupado com a tosse de Natália (a doença tomara-a já), levantou-se, foi buscar um estetoscópio e obrigou-a a deixar-se consultar. "Não está nada bem", sussurraria. Sentou-se à secretária e prescreveu-lhe uma receita. A última que passou. "Em vez de a aviar numa farmácia vou guardá-la como recordação, um tesouro", decidiu ela comovida...

"Oh, Pátria minha tão bela e perdida", irrompe no auto-rádio, de regresso a Lisboa, o coro do Nabuco de Verdi. Então ela eleva a voz, abre a janela e canta, e leva-nos a cantar, lágrimas e entoações soltas ao infinito: "Oh, mia Patria si bella e perduta, Patria mia perduta"..."
O carro oscila e, alado, ergue-se da estrada, deixando as luzes do casario de Coimbra para baixo, para baixo, e, por eternidades, voga à altura do Va Pensiero, à altura da paixão de Torga e Natália pelo país que os almou para sempre. 

Fernando Dacosta


Miguel Torga o insubmisso



Coimbra, 20 de Junho de 1975 

Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que apesar de tudo valeu a pena assistir ao descalabro...



Chaves, 11 de Setembro de 1975

LAMENTO

Pátria sem rumo, minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura, 
Que o poeta, adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?

Ah, Camões, que  não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia...
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!...
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente...

Miguel Torga
Retrato de Isolino Vaz



Coimbra, 1 de Nov. de 1983

Memória
De todos os cilícios, um, apenas
Me foi grato sofrer
Cinquenta anos de desassossego
A ver correr 
Serenas
As águas do Mondego


Escultura que assinala o percurso que Miguel Torga fazia do seu consultório na Portagem até à beira do Mondego para ir apreciar a paisagem.

Obra concebida pelo arquitecto José António Bandeirinha e pelo artista plástico António Olaio.

domingo, 30 de julho de 2023

Melides, breve




a ribanceira caía ao mar
no topo um casabre demasiado bem
situado
para não ser clandestino

velhos estáticos
no meio o alemão com o cão
de roda

de tábuas de cofragem era
a mesa com garrafas de cerveja bebidas talvez
o costumeiro cinzeiro de lata

conversámos em inglês
vagarosos como o azul visto dali e cuja espuma
terei apontado à laia de versos num 
caderno que perdi

não era Verão ainda
o silêncio floria entre o pó a urze o medronheiro
o barro à volta do esgoto

a bicicleta apoiada no grelhador
a ferrugem que corrói o bidão amolgado
do litoral

Miguel-Manso

Maria Campaniça


Debaixo do lenço azul com sua barra amarela
os lindos olhos que tem!
Mas o rosto macerado
de andar na ceifa e na monda
desde manhã ao sol-posto,
mas o jeito
das mãos torcendo o xaile nos dedos
é de mágoa e abandono...
Ai Maria Campaniça,
levanta os olhos do chão
que eu quero ver nascer o sol!

Manuel da Fonseca
Pintura de António Galvão

Alentejano recoveiro de seu ofício


Pois, nessa tarde fria, vem à baila um homem de pelico, calçando botas de atanado, um homem metido consigo, recoveiro de seu ofício, que, depois de a muito custo aceitar um copo de vinho, nos desabafou parte da sua existência, com os braços erguidos: "Há quarenta anos que faço recados para as aldeias!"
- Tenho visto muito mundo, nestas andanças das aldeias, mas posso afiançar-lhe que nunca vi Inverno tão triste... Não vêm cantar às estradas os meus patrícios, perdeu-se a alma de outrora, é tudo uma dúvida... Ali fica a Igrejinha, uma terra gentil como uma charneca cor-de-rosa, cheia de trigo e de favas; mais para baixo, à distância do olhar de um maltês, fica a povoação de Lavre, com as suas ricas herdades, e Mora, com as suas ricas cortiças...
Por um rasgo de paz, tornei a encher o copo de vinho ao charnaquenho, meu irmão. Custosamente, só com a alegria do líquido, o homem conseguiu sorrir para a paisagem de Inverno.
- Está o tempo fusco, senhor. Nunca vi um Janeiro tão triste... - prosseguiu na sua voz cantada. - Vem aí a temporada dos ventos rijos. Na serra de Ossa nasce o temporal nalguma cova de ladrões, ou quem sabe se nasce das profundezas do mar salgado, a muitas horas de comboio daqui!...
Não havia dúvidas de que o homenzinho era mais um daqueles poetas que dão coragem às pessoas. No entanto, com uma réstia de incerteza, perguntei:
- Vossemecê faz versos?
- Eu? Que ideia! Não senhor, nunca fiz versos na minha vida! Quero lá saber disso! Só canto as modas de improviso e que os caminhos me ensinam. Veja que é fácil: anda-se por uma azinhaga e ouve-se o rouxinol, passa-se um alqueive e ouve-se a calhandra, o pintarroxo e a milheirinha. São nossos mestres desde a infância. E vêem-se as verduras das árvores a nascer todos os anos. Depois vem a chuva, o vento, o frio, a estorrina do sol, o céu misterioso e a existência que uma pessoa leva, e é isto que faz o Alentejo! E também falta o trabalho, sabe? E vem a fome disfarçada em almoços de ervas cozidas, catacuzes, poejos, vem a desgraça numa casa de campo. De maneira que se aprende a cantar. É isso mesmo que vossemecê vê. 

Antunes da Siva
Pintura de Joaquim Rosa