terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O Bem e o Mal

AUTO DA BARCA DO INFERNO

Levado à cena pela primeira vez em 1517, O “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente passa-se num cais onde chegam, após a sua morte, várias personagens representativas da sociedade da época. Aí, um Anjo e um Diabo assumem o papel de juízes e discutem quem entrará na barca de cada um, conduzindo os seus passageiros à viagem para o Céu ou para o Inferno.



CENA I - Diabo e Companheiro

DIABO – (ao companheiro) À barca, à barca! 
Vamos lá! Que é muito boa a maré! Puxa a vela pra cá!
DIABO – Bem está!
Vai ali e, sem demora,
estica bem aquela corda
e libera aquele banco para a gente que virá.
À barca, à barca, uuh!
Depressa! Temos que ir!
Ah! Bom tempo de partir!
Louvores a Belzebu!
Ora, pois, que fazes tu?
Desocupa esse espaço!
COMPANHEIRO – É pra já! Pronto, está feito!
DIABO – Abaixa logo esse rabo!
Deixa preparado o cabo
E ajeita a corda de içar.
COMPANHEIRO- Vamos lá! Içar, Içar!

CENA II - Diabo e Fidalgo

DIABO – Oh! Que caravela esta!
Põe bandeiras, que é festa!
(vendo um Fidalgo que se aproxima)
Oh! Poderoso dom Henrique!
Vós aqui? Que coisa é esta?
Vem o FIDALGO acompanhado de um rapaz 
com uma cadeira. Chegando à barca do Inferno, diz:
FIDALGO- Esta barca, que sai agora,
Aonde vai tão preparada?
DIABO- Vai para a ilha danada
E há de partir sem demora.
FIDALGO- Para lá vai a senhora?
DIABO- (corrigindo irritado)
Senhor!... A vosso serviço.
FIDALGO- Isso parece um cortiço.
DIABO- Porque olhais lá de fora.
FIDALGO- A que terra passais vós?
DIABO- Para o inferno, senhor.
FIDALGO- (irónico)
Hum! Terra bem sem sabor!
E passageiros achais
Para tal embarcação?
DIABO- Ora pois, tu és a cara
Dessa embarcação!
FIDALGO- Parece-te mesmo assim?
DIABO- Onde esperas salvação?
FIDALGO- Eu deixo na outra vida
Quem reze sempre por mim.
DIABO- Quem reze sempre por ti?
Hi,hi,hi,hi,hi,hi,hi.
Tu viveste a teu prazer
Pensando aqui ter perdão
Porque lá rezam por ti?
Embarca já!
FIDALGO – (apavorado)
Quê?! É assim que a coisa vai?
DIABO – (impaciente)
Embarcai! Embarcai logo!
Segundo o que lá plantastes
Agora aqui recebereis.
E como a morte já passastes,
Passai agora este rio (...)


"INFERNO" DE DANTE

Canto III

A porta do Inferno - Vestíbulo

POR MIM SE VAI À CIDADE DOLOROSA; POR MIM  SE VAI ÀS PENAS  ETERNAS; POR MIM SE VAI À PERDIDA GENTE; DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!

Estas palavras estavam escritas em tom escuro, no alto de um portal. Eu, assustado, confidenciei ao meu guia:
- Mestre, estas palavras são muito duras.
- Não tenhas medo - respondeu Virgílio, experiente - mas não sejas fraco! Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei, onde encontraríamos as almas sofredoras que já perderam seu livre poder de arbítrio. Não temas, pois tu não és uma delas, tu ainda vives.
Em seguida, Virgílio segurou a minha mão, sorriu para me dar confiança, e guiou-me na direção daquele sinistro portal.
Logo que entrei ouvi gritos terríveis, suspiros e prantos que ecoavam pela escuridão sem estrelas. Os lamentos eram tão intensos que não me contive e chorei. Gritos de mágoa, brigas, queixas iradas em diversas línguas formavam um tumulto que tinha o som de uma ventania. Eu, com a cabeça já tomada de horror, perguntei:
- Mestre, quem são essas pessoas que sofrem tanto?
- Este é o destino daquelas almas que não procuraram fazer o bem divino, mas também não buscaram fazer o mal. - respondeu o mestre. - Misturam-se com aquele coro de anjos que não foram nem fiéis nem infiéis ao seu Deus. Tanto o céu quanto o inferno os rejeita.
-Mestre - continuei -, a que pena tão terrível estão esses coitados submetidos para que se lamentem tanto?
- Dir-te-ei em poucas palavras. Estes espíritos não têm esperança de morte nem de salvação. O mundo não se lembrará deles, a misericórdia e a justiça ignoram-nos. Deixa-os. Olha só e passa.
E então olhei e vi que as almas formavam uma grande multidão, correndo atrás de uma bandeira que nunca parava. Estavam todos nus, expostos a picadas de enxames de vespas que os feriam em todo o corpo. O sangue escorria, juntamente com as lágrimas, até aos pés, onde vermes doentes ainda os roíam. Como reconheci alguns deles imediatamente percebi e fiquei certo de que aquela era a seita dos cobardes, que a Deus não agradam nem aos seus inimigos.

Pormenor de "O Juízo Final" de Michelangelo




Visão à Jerónimo Bosch


Uma torre humana muito alta

A certa altura começa a desabar

Os indivíduos tentam agarrar-se uns aos outros

Mas continuam a escorregar mais e mais

De vez em quando um leve burburinho

Caiu uma pessoa que tenta equilibrar-se

E deambula às voltas meia tonta e seminua

O mesmo vai acontecendo a todas as outras

Conheço bem algumas destas criaturas.

HN



O EXILADO

Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.
Os sentidos em alarme gritam:
O demónio tem mais poder que Deus.
Preciso vomitar a vida em sangue
Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.
Passam ao largo os navios celestes
E os lírios do campo têm veneno.
Nem Job na sua desgraça
Estava despido como eu.
Eu vi a criança negar a graça divina
Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos
E a multidão me apontando como o falso profeta.
Espero a tempestade de fogo
Mais do que um sinal de vida.

Murillo Mendes

Menez






sábado, 27 de dezembro de 2025

Voto de Natal



Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.


David Mourão-Ferreira


LADAÍNHA DOS PÓSTUMOS NATAIS recitado por David Mourão Ferreira:

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Tempo de Natal










 O QUADRO DO FUTURO


Havemos de ir ao futuro.

Havemos de ir ao futuro e, quando lá chegarmos, hão-de estar no 
sofá os nossos pais
a cuidar dos sonhos que nos deram, os nossos avós a encher de 
luzes a árvore de Natal,
os nossos filhos e os filhos deles, espantados e atrevidos como nós.

Havemos de ir ao futuro e, quando lá chegarmos, hão-de estar todos 
juntos numa festa
à nossa espera, mesmo os amigos que perdemos no caminho.
Hão-de lá estar todos
com balões de várias cores, bolo-rei e, ao fundo da sala, um cartaz
do tamanho da nossa idade, onde se lê:
ainda bem que vieram.

Havemos de ir ao futuro ou, se não houver boleia para todos
ao mesmo tempo,
havemos de nos encontrar lá.

Havemos de ir ao futuro e, no futuro, estará finalmente tudo
como dantes.

Filipa Leal








terça-feira, 25 de novembro de 2025

F. Pessoa: saudades do passado?


José de Guimarães, Fernando Pessoa 1985


ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,

O que fui de coração e parentesco,

O que fui de serões de meia-província,

O que fui de amarem-me e eu ser menino.

O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...

A que distância!...

(Nem o acho...)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! (...)


Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,

O aparador com muitas coisas- doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado-, 

As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) 15-10-1929


Natal... Na província neva

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Fernando Pessoa


 À minha querida mamã

Ó terras de Portugal

Ó terras onde eu nasci

Por muito que goste delas

Inda gosto mais de ti.


Fernando Pessoa, 26-7-1895 (com apenas 7 anos)



Maria Bethânia recita "Num meio dia de fim de Primavera..." de Alberto Caeiro

https://www.youtube.com/watch?v=GV7uRmEdCSs

Maria Bethânia recita "Prece"de Fernando Pessoa

https://www.youtube.com/watch?v=ElXe3nsuHR0

sábado, 25 de outubro de 2025

Moliceiro património mundial da UNESCO?


O Barco Moliceiro é, mais do que uma embarcação tradicional, um dos principais elementos da identidade cultural da Região de Aveiro, com uma história rica e que está profundamente enraizada na tradição local.
Quem visita a Ria de Aveiro, certamente, não ficará indiferente ao humor dos seus painéis e à sua estrutura, completamente diferente dos outros barcos que aqui navegam. Conhecer a história do Barco Moliceiro e o seu processo de construção é entrar no mais íntimo da cultura aveirense.
O Barco Moliceiro é uma embarcação tradicional que apenas existe e navega na Ria de Aveiro, tendo sido criada, de raiz, pelos mestres construtores navais da região, no século XIX. Na época, a apanha do moliço na Ria de Aveiro – que servia como fertilizante dos terrenos agrícolas – era uma das atividades económicas que mais se desenvolvia e tornou-se necessário criar um barco que facilitasse este trabalho.
Foi neste contexto que os construtores navais da região construíram de raiz uma nova embarcação – a que deram de Moliceiro – que com várias adaptações na sua estrutura, facilitava o trabalho a bordo e permitia às pessoas dormirem na proa do barco – porque era frequente os trabalhadores não virem a casa durante vários dias. Além disso, o Moliceiro foi construído com um fundo pouco profundo, pois assim era garantido que o barco navegasse na Ria de Aveiro sem encalhar, uma vez que as suas águas são pouco profundas.
O sucesso da nova embarcação foi tal que diariamente a Ria de Aveiro começou a ser navegada por centenas de Barcos Moliceiros, tendo a Apanha do Moliço se tornado uma das principais atividades empregadoras das pessoas da região.
Com a evolução dos processos agrícolas, as pessoas começaram a abandonar a apanha do moliço na Ria de Aveiro e procuraram outros empregos (ou emigraram), porém o Barco Moliceiro já era um símbolo da região e, mesmo já não sendo necessário para a apanha do moliço, continuou a ser construído pelos mestres da região.
Hoje, é uma das principais atrações turísticas da Região de Aveiro. Mas há muito mais a descobrir. Não se fique pelos passeios de barco!

Este lindo barco serve para tudo (...) é o encanto da ria. Tem não sei quê de ave e de composição de teatro. Anima a paisagem(...) chega a servir de casa (...) Não conheço outro mais artístico, mais leve, mais adequado às funções que exerce e à paisagem que o circunda.  
Raúl Brandão, 1923, in “Os Pescadores"

A Arte da Carpintaria Naval do Barco Moliceiro candidatou-se a Património Mundial da UNESCO.
Após a inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, em 2022, a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro – entidade responsável pelo processo – entregou, em março de 2023, a candidatura “Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro” à Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade que Necessita de Salvaguarda Urgente – UNESCO.











AVEIRO
Campos de Aveiro
Manchas de arroz,
E a vela de um barco moliceiro
Que um pirata ali pôs.

A servir de moldura,
O velho mar cansado;
E um Céu alto e a ter fundura
Na quilha reluzente de um arado.

Miguel Torga








MOLICEIRO DESLIZANDO AO LONGO 
DAS SALINAS
(uma ria à janela)

                      Henri Matisse


Sempre abri a janela para o mar.
A ria levava-me e trazia-me a casa
ao anoitecer. A cidade passeava
                            pela avenida que ondulava de gente                            
em gente, mas a laguna era a cidade
branca com casinhotas e trilhos no meio
do nada: a cidade que eu queria ser quando
queria ser moliceiro e amarelo pintado,
petisco de fogareiro, nome na madeira
a caminho da barra. Vivi perto de mim 
nas avenidas do mar. Fui espuma de uma onda
que rebentou em letras e remo contra e a favor
do vento. Ainda hoje abro as janelas do mar.
Ainda me escondo no branco fundo das salinas,
mas o marulhar das águas traz à tona
palavras que sobem sem mim, e eu só
uma mão ao leme à procura do norte para
me perder nos seus cristais docemente salgados.

Rosa Alice Branco





sábado, 11 de outubro de 2025

Aveiro, porque sim

Adoro Aveiro. É simples. É isto. Os meus amorosos pais estão lá, cá; eu também estou lá, cá. Grande parte do resto da família também. Impossível sair mentalmente da cidade dos anos essenciais. Não foram inventados ainda os meios de transporte para isso, para essa saída. Não é mesmo possível.
Cresci em Aveiro: infância, adolescência, juventude e etc. E desde aí não larguei o bom osso da família e da infância.
Pré-escolar: "Primeiro Passo", chamava-se. Alguns colegas daí, ainda meninos sem alfabeto, só com balbucios e desenhos, ficaram para a primária, ciclo e liceu e ainda hoje são amigos...
Uma cidade onde a ria estava e está sempre presente, uma espécie de companheira muda, cidade que se faz a pé; uma cidade cada vez mais esperta e culta. Uma cidade onde joguei basquetebol e futebol o mais seriamente possível. No Beira-Mar, basquetebol num pavilhão que já desapareceu, junto ao bairro da Gukbenkian, e futebol depois, no estádio Mário Duarte, ainda no meio do jardim da cidade, jardim para onde se ia a pé jogar ou ver o jogo como quem vai ao café e já volta...
Nos meus 17 anos, Aveiro era para mim o futebol e a matemática, agora é cada vez mais coisas. Uma cidade que está a mudar, mantendo o essencial - cultura e modernidade. Adoro Aveiro, é simples, é isto. Não é mesmo possível sair da cidade dos anos essenciais.

Gonçalo M. Tavares



NO ALFA PARA AVEIRO

Eu entrei em Santa Apolónia, ele entrou em Santarém.
Um vago “bom dia, com licença” (o meu bilhete tinha-me dado a coxia, o dele a janela) e lá se sentou, a mesinha puxada, e o smartphone pousado em cima.
Eu continuei na leitura do livro que levava. A uma dada altura oiço um murmúrio ao meu lado: ”grande jornalista!” Olho para ele, que aponta para o meu livro e repete: “grande jornalista!”
Fico sem palavras. Porque o rapaz deve andar na casa dos trinta e poucos, e o livro que leio é a recente edição das crónicas radiofónicas do Fernando Assis Pacheco, que morreu há mais de vinte anos.
Ele percebeu o meu ar, e vá de me contar a sua vidinha ... De resto, o conhecimento do Assis Pacheco vem por via familiar: os pais são da zona de Aveiro, e o Assis também tinha lá raízes e andava por lá muitas vezes, como se lembra de sempre ouvir dizer aos pais.
Vai embalado na conversa, o que é bom porque de repente, ficámos empanados no Entroncamento, e para ali estamos, parados, sem que ninguém explique o que é que se passa, como também é norma nestes casos—e uma boa conversa sempre ajuda.
Estou um pouco aflita—eu, que sou a maluquinha da pontualidade…–porque tenho trabalho marcado para as 11 horas na Gafanha da Nazaré e não sei a que horas lá vamos chegar. Mas ele também está: tinha conseguido reunir a família naquele restaurante em Aveiro, para aquele almoço, porque depois tem de regressar à Suiça, onde trabalha na cidade de Genève. Só tem mesmo aquela manhã.
Para fazer conversa digo que conheço bem Genève, a minha editora em língua francesa é de lá, por isso lá vou às vezes. Ele quer saber o nome da editora e, já agora, o meu, desculpando-se de conhecer pouca literatura portuguesa (o Assis é uma excepção…).
O Alfa não arranca, e é então que nos mandam sair e nos enfiam num regional que para em toda a parte, e estamos ambos a ver a nossa vida a andar para trás. Vai conversando e os dedos sempre a nadarem no écran do smartphone, e eu a fazer contas ao atraso que levamos até que ele telefona para um restaurante de Aveiro a fazer a marcação para o tal almoço de família. Reconheço o nome do restaurante, sorrio e digo que também lá ia às vezes, agora nem tanto, mas…
E logo ele corta a conversa e diz que é natural, o meu marido era dali, não era?, já morreu há uns anos, é certo, mas enquanto esteve vivo devíamos ir ali muito, embora eu não deva ter muito tempo livre , com mais de 80 livros escritos, é obra!
O meu ar a olhar para ele devia ser tão apalermado, que ele se riu, apontou para o smartphone e exclamou: “está a ver as novas tecnologias? já sei a sua vida toda!”
Foi então que eu entendi por onde tinham navegado os dedos dele enquanto se esperava que o Alfa chegasse ao seu destino…
“Uma grande coisa, as novas tecnologias!”, repetia.
Até que finalmente chegámos a Aveiro. Despedimo-nos, como se nos conhecêssemos desde sempre. Já eu ia a descer quando o oiço: “a minha mãe está muito contente, por eu ter vindo ao seu lado no comboio!”
Mandei beijinhos para a mãe—e lá fui à minha vida, pensando que isto era exactamente um tipo de história que o Assis Pacheco havia de ter gostado de contar.

Alice Vieira


SONETO AOS FILHOS


Toda a epopeia da família cabe aqui
um avô galego chegado a Portugal rapazinho
outro de ao pé de Aveiro que se meteu
num barco para S. Tomé a fazer cacau

de filhos seus nasci
com este pouco de inútil fantasia
nutrida em solidões nas que me vejo
nu como um bacorinho na pocilga

e como ele indefeso e porém quis
mesmo assim ser mais que o animal
no tutano dos ossos pressentido

não peço nada usai meu nome
se vos praz lembrai-me
o que for costume

mas livrai-vos do luxo e da soberba

Fernando Assis Pacheco



Casa gandaresa

Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais levou-o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:
Procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em silabas de pó
é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longínquas açucenas
abertas sobre o mundo como estrelas:
Despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.

Carlos de Oliveira

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Os justiçados de Aveiro



No dia 16 de Maio de 1828, também apelidado de Dia dos Mártires da Liberdade, um grupo de homens da facção liberal, revoltado com o governo absolutista de D. Miguel, partiu de Aveiro em direcção ao Porto, onde com o apoio de muitos portuenses, deram início à Revolução de 1828. A repressão exercida pelos miguelistas resultou na condenação à pena de morte dos aveirenses responsáveis pelo movimento.
Seguiu-se  um período de grande instabilidade que se prolongou numa guerra civil. Em 1834, a vitória dos liberais põe fim ao conflito que opunha D. Pedro a seu irmão D. Miguel, o qual foi obrigado a seguir para o exílio na Alemanha.



CONFERÊNCIA DE JAIME CORTESÃO, 1956
Vejamos rapidamente como se passaram os factos. Falecido D. João VI, em 1826, passado mês e meio, D. Pedro, então Imperador do Brasil, renunciou à coroa de Portugal na pessoa de sua filha D. Maria da Glória e outorgou uma carta constitucional a Portugal na intenção de nomear regente seu irmão D. Miguel, que casaria com a princesa D. Maria desde que jurasse a Carta. Estava D. Miguel em Viena de Áustria, jurou a Carta, não obstante já então a conspirar contra as intenções de seu irmão. Passado pouco tempo, celebrava os esponsais com sua sobrinha, que era representada pelo Barão de Vila Seca. No ano seguinte veio para Portugal. Reunidas as Câmaras no Palácio da Ajuda, que ele elegera para sua residência, jurou novamente e solenemente, perante as Câmaras, fidelidade à Carta, declarando, palavras textuais, que reconhecia a legitimidade de D. Pedro IV e de sua sobrinha D. Maria como soberanos legítimos de Portugal. Não obstante, passados poucos dias deste juramento solene e público, ele começava a trair a sua palavra e, imediatamente, tratou de deitar por todos os meios mão do Poder. Demitiu da administração pública todas as pessoas que ocupavam lugares importantes, que fez substituir, transferiu oficiais, nomeou novos comandantes para os corpos, instaurou a censura, aumentou em quantidade enorme a polícia e, também imediatamente, inaugurou um sistema de repressão, o mais violento de que há memória na História de Portugal, contra os seus inimigos políticos.


D. Pedro defendia o liberalismo e seu irmão, D. Miguel, o absolutismo.

 
A reacção mais brutal, repito, que jamais se desencadeou em Portugal, acirrada pelos sermões de maus padres e maus frades desencadeou-se sobre os liberais, em primeiro lugar, de maneira oficial. A célebre Alçada do Porto começou a julgar os homens que tinham entrado na revolução. Foram muitos condenados à morte e a 7 de Maio de 1829 foram justiçados os dez primeiros, pouco depois mais alguns.
Rezavam as sentenças que esses homens, cujo crime era de ter ideias próprias políticas contrárias ao Governo absolutista e ter lutado por elas, esses homens perderiam todos os direitos, honras e privilégios, seriam levados pela cidade com baraços e pregão e depois conduzidos à forca onde seriam enforcados para depois lhes cortarem a cabeça e as cabeças serem espetadas num tronco nos lugares onde havia sido praticado o delito.
Dessas cabeças couberam seis ao distrito de Aveiro.
Não parou por aqui o horror. As cabeças desses homens foram levadas quatro para Aveiro, duas para a Feira e uma para Albergaria-a-Velha. Em Aveiro, quiseram alguns miguelistas que a cabeça de João de Morais Sarmento fosse espetada num pinheiro em frente da casa onde morava sua mãe. Houve alguns legitimistas que guardavam ainda um pedaço de humanidade no coração que se opuseram a isso.
As lojas, as casas na cidade, tinham fechado. Foi preciso ir buscar carpinteiros à força para preparar os madeiros onde se havia de espetar as cabeças. 
Não parou por aqui o suplício dos Liberais que ficaram em Portugal. Eram perseguidos a cacete nas ruas, eram levados para a prisão, na prisão violentados de toda a forma e havia sempre um padre ou um frade incitando, pedindo que os liberais fossem levados para a forca.

Jaime Cortesão, 1956



Monumento aos Mártires da Liberdade/Monumento aos Justiçados

Localização: Cemitério Central de Aveiro.
Data de colocação: 20 de Fevereiro de 1866.


Numa das faces do monumento está inscrito o nome dos justiçados de Aveiro:

7 de MAIO de 1829
Francisco Manoel Gravito da Veiga e Lima.
Manoel Luiz Nogueira.
Clemente de Mello // Soares de Freitas.
Francisco Silvério da Carvalho // de Magalhães Serrão.
9 do OUTUBRO de 1829
Clemente Moraes Sarmento.
João Henriques Ferreira.

A presença de alguns destes nomes na toponímia da cidade mostra o reconhecimento dos aveirenses e a importância de perpetuar a memória dos seus heróis.