sábado, 28 de dezembro de 2019

Paz

                   

                  Como ao terror do Inferno
                   Sucedeu 
                   O horror do Nada!
                   A inquietação moderna,
                   A antevisão
                   Da cósmica catástrofe,
                   Prometida
                   Por sábios e teólogos
                   Apocalípticos.
                   Divino Orfeu, vem tu salvar-nos.
                   Tange, de novo, a lira!
                   Amansa as feras.
                   Que o teu cantar volatilize
                   A estátua em bronze do deus Marte!
                   A esculpa, em oiro amanhecente,
                   Sobre o mais alto
                   Píncaro do mundo,
                   O Anjo simbólico
                   Da Paz.

                  Teixeira de Pascoaes
                         Pintura "O Poeta e o Anjo" de Mário Eloy
                         https://www.youtube.com/watch?v=XVn0dSKx0z0

domingo, 15 de dezembro de 2019

O Natal em Aveiro


Em todas as ocasiões importantes é na nossa casa de Aveiro que gostamos de nos reunir. No Natal, todos marcam presença e agora com as crianças (bisnetos) o “Menino” renasceu. A Teté (neta mais nova) ofereceu uns versos à avó Lena, em 2006, que retratam bem o espírito de Natal para nós:

Natal, casa cheia, animação, alegria…
Assim é o Natal cá em casa!!
Mesmo que passemos o ano todo separados
No Natal juntamo-nos…
Contamos as nossas últimas aventuras,
Brincamos uns com os outros,
Discutimos temas actuais
E falamos dos tempos de outrora.

Ao cheiro característico da casa,
Junta-se o aroma da comida e dos doces!
O barulho das tábuas a ranger
E as “luzes” no chão
São únicos desta casa
Que já viu tanta gente crescer!!

E aquele nervosismo miudinho
Que nos cresce depois da ceia de Natal,
Porque ainda falta fazer embrulhos,
Ou encontrar as palavras certas
Para um postal ou uma brincadeira,
Ou porque nos faltam os laços
Ou a fita-cola e a tesoura…

Ora o Natal não é prendas
Mas sim a alegria dentro de nós…
Porque as prendas chegam sempre
Atrasadas aos sapatinhos,
(Que normalmente são todos da Avó)
E têm sempre um papelzinho
Com o nome de cada um
Escrito à última da hora…

Aqui, o Natal nunca começa à meia-noite!!
Começa com o valor que damos à palavra FAMÍLIA!!

Com os bisnetos, iniciou-se um novo ciclo. Voltaram as correrias pela casa, a algazarra e os gritos de alegria por todo o lado. Felizmente,  de vez em quando abrandam e então dá gosto vê-los entretidos a brincar e a jogar. Mas na Noite de Natal as crianças ficam particularmente agitadas e costuma ser grande o rebuliço que precede a "chegada do Pai Natal". Depois, desembrulham as prendas o mais depressa possível e sentem-se as pessoas mais felizes do mundo porque vêem quase sempre os seus desejos concretizados. Dificilmente esquecerão estes momentos únicos vividos em família e com certeza não vão deixar morrer o espírito de Natal. 


https://www.youtube.com/watch?v=NuGHTthQj_I&list=RDEl_-n4wjA7E&index=5

domingo, 8 de dezembro de 2019

Entre flores e obras de arte









A terceira duquesa de Palmela, de seu nome completo Maria Luísa Domingues Eugénia Ana Filomena Josefa Antónia Francisca Xavier Sales de Borja de Assis Paula de Sousa Holstein Beck, era também terceira marquesa do Faial e terceira condessa do Calhariz e de Sanfrè.
A duquesa acompanhou as obras de restauro que promoveu no palácio, construído nos finais do século XVIII, que foi também redecorado com novas e valiosas peças que o casal Palmela adquiria em Portugal e no estrangeiro, onde muitas vezes passavam férias. O próprio avô Pedro tinha feito restauros e ampliações no palácio, para onde fora viver, depois de se reformar da política que tantas glórias e amarguras lhe causara. Restara-lhe a alegria de coleccionar obras de arte e transmitir à neta esse amor pelo Belo.
Sabe-se que a duquesa tinha um especial carinho pelas árvores e flores e que aprendeu mesmo horticultura para poder explicar aos jardineiros como tratar e cuidar das flores conforme as estações do ano. O palácio tinha sempre nas jarras flores frescas do seu jardim.
No lindíssimo estúdio que a duquesa mandou construir nas traseiras do palácio, entre flores e árvores, passava longas horas dedicada à escultura. Se bem que os motivos religiosos fossem uma das suas fontes de inspiração, muitos outros temas a encantaram, e também se dedicou a moldar e esculpir bustos de figuras conhecidas ou notáveis da sociedade do seu tempo. Artista, era amiga dos artistas auxiliando-os não apenas com o seu dinheiro mas também com o seu afecto, a sua solidariedade amiga, a aura que lhes criava. A ela se deve que Maria Amália tenha escrito uma das suas obras mais notáveis "A Vida do Duque de Palmela”. A duquesa, mais tarde, legaria a Maria Amália Vaz de Carvalho uma casa em Cascais e uma quantia em forma de pensão.
O casal Palmela, bem ao estilo da sociedade do seu tempo, fazia uma intensa vida social, sendo o Palácio do Rato local de encontros culturais, bailes e jantares de convívio com grandes nomes da cena internacional: de realçar as faustosas festas de Carnaval, que já vinham do tempo do avô Pedro, especialmente naquele ano de 1885,que contou com uma orquestra de ciganos do príncipe Esterhazy e também aquele memorável jantar onde se homenageou a actriz famosa Sarah Bernhardt, corria o mês de Novembro de 1895.

Maria Luísa V. Paiva Boléo (texto com supressões)
https://www.youtube.com/watch?v=QzLVmVXVjyU


domingo, 1 de dezembro de 2019

Fado da Tristeza


Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca

Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Pois e tentar a fingir

Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és
Só podes dar o que é teu

José Mário Branco
https://www.youtube.com/watch?v=EjgroRhQKJA