quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

EUA, meados do séc. XXI...




Caricaturas do artista americano Robert Berkeley (Bob Minor) (1884-1952).

1.
Uma nova lei no espaço mais consevador
dos Estados Conservadores e Unidos.
Cronologicamente é possível enumerar factos
que levaram a este estado de coisas.

Primeiro, em meados do século XXI,
no estado mais conservador dos Estados Unidos, 
alguém murmurou, em pontas de pés e voz finita,
a hipótese de um dia ser legalmente aconselhável
os ricos não procriarem com os pobres.

Não tanto por haver algo a lamentar no método
usado classicamente para a procriação
- essa forma, dizia Ted, de um pénis largar a sua carga de futuro
na hospedeira dos nove meses seguintes do mundo -
mas sim porque nada garantia que essa peste estranha,
caída em plena cabeça dos sem-abrigo e dos sem emprego,
não pudesse subitamente mudar de direcção,
como um búfalo desnorteado,
e dirigir os seus cornos mortais para a classe média e rica.

2.
Daí que a cautela legislativa não pareça excessiva;
e como em tempos se proíbira que homem copulasse com homem
e muitíssimas outras restrições em muitíssimas outras variantes,
também agora, porque não? existir uma lei que tornasse claro
que pobre não pode copular com rico nem filho de pobre 
com filho de rico.

O certo é que o governador do Estado do Texas, Ted Trash, aprovou;
setenta votos contra 666 do lado vencedor, na câmara das leis.
Discussões existiram em redor, por exemplo, 
da mínima linha, acima e abaixo da qual um pobre é pobre
e discussões ainda sobre se variantes afectivas,
não capazes de gerar descendência,
deveriam ser enquadradas na lei (...)

Gonçalo M. Tavares

Antena  3 - "Prova Oral" com Gonçalo M. Tavares sobre a obra "O fim dos Estados Unidos da América":