domingo, 8 de março de 2026

Não escrevo para entreter...

António Lobo Antunes por Júlio Pomar

O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no Verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore, mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava
-Tu
até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se embora a pensar. Do lado da serra um canavial, um sapo grande debruçado no parapeito de si mesmo, severo, a pensar também. Até que as pedras se tornem mais leves que  a água. E, a partir desse momento, não escrevo mais. Deixo de existir, claro que deixo de existir: já não sou mais necessário (...)

António Lobo Antunes, crónica da revista Visão, 18/08/2016



OPINIÃO DE UMA LEITORA

Em 2018, estive presente numa conferência promovida pela revista Visão com António Lobo Antunes e, em 2019, numa aula aberta da Universidade Católica. Queria muito conhecer e ouvir o homem e o escritor.
Durante as intervenções de António Lobo Antunes, recordo o silêncio da assistência, muito atenta ao sentido de todas as suas palavras. Ele  parecia falar apenas consigo próprio e nós, cheios de sorte, a escutá-lo!
António Lobo Antunes era dotado de uma extraordinária memória de elefante. Não se limitava a fazer referência a uma obra, citava-a, prosa ou verso de qualquer época, como se estivesse a ler naquele momento.
Nas crónicas,  António Lobo Antunes reflecte sobre variados assuntos, alguns de carácter pessoal e familiar que nos revelam a sua formação e sensibilidade. Outras vezes, retrata com argúcia  e  humor o comportamento de homens e mulheres de todas as camadas sociais.  Não poupa nada,  ninguém, nem ele próprio, mas ao mesmo tempo daquelas páginas transparece uma certa humanidade e até ternura. Não faz julgamentos, apenas mostra.  E cada uma das suas crónicas é perfeita e a linguagem muito poética.
Quanto aos romances, António Lobo Antunes declara: "O livro faz-se sozinho. Não tenho personagens, não são romances. Não imagino, são vozes, não imagino corpo naquelas vozes. Aquela ideia de contar histórias que se perpetuou aqui (...) Nunca me interessou. Tinha muito claro o que queria para mim, só queria mudar a arte de escrever."
 A sua influência e adesão a este novo conceito da arte de escrever verificou-se logo após a publicação do seu primeiro romance, "Memória de Elefante", que obteve um enorme sucesso.  Ao longo do tempo,  o processo de escrita de António Lobo Antunes  tornou-se mais complexo e exigente. Por vezes os próprios temas exploram muito o lado negro das situações e das personagens e tanto pessimismo pode afectar o nosso estado de espírito. Isso é bom ou mau? Quanto a esta questão as opiniões divergem.
António Lobo Antunes merece a maior admiração e o reconhecimento do seu valor não só como escritor  cuja obra muito premiada se encontra traduzida em inúmeras línguas, mas também pela sua forte personalidade e papel na cultura do nosso país.

HN

POEMA LIDO NA CERIMÓNIA FÚNEBRE DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES A PEDIDO DO ESCRITOR:

Na Mão De Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero de Quental

quarta-feira, 4 de março de 2026

Heróis da Amazónia

 

Candido Portinari "Seringueiros"

No início de 2007, Al Gore ganhou o prémio Oscar de melhor documentário pelo seu filme “Uma Verdade Inconveniente”, sobre a crise climática global. Em outubro, recebeu o Prémio Nobel da Paz. Comprometido com a causa ambiental desde o início da década de 1980, o ex-vice-presidente norte-americano visitou a Amazónia quando ainda era senador, para apoiar a luta dos seringueiros . 

No final de 1988, os senadores Tim Wirth, John Heinz e eu, os congressistas John Bryant, Gerry Sikorski e uma delegação de observadores, estávamos a caminho do Brasil para encontrar Chico Mendes, talvez o mais famoso herói da resistência dos últimos anos, quando ele foi assassinado por um grupo de ricos latifundiários.
Nascido no Acre, na região amazónica, Chico Mendes organizou e liderou os seringueiros, que colhem os produtos renováveis da floresta tropical – frutos, castanhas e principalmente borracha – que obtêm da seiva colhida através de pequenos cortes nas seringueiras. Este modo de vida tem ajudado a preservar a floresta tropical, mas começou a prejudicar os interesses comerciais que visam explorá-la, queimando-a e derrubando árvores para abrir espaço para fazendas de gado. Em diversas ocasiões, Chico Mendes e os seringueiros tentaram impedir a passagem de máquinas e recusaram-se a permitir que os exploradores cruzassem a floresta tropical para incendiar áreas próximas.
Além disso, Chico Mendes encontrou formas alternativas – e sustentáveis – de ganhar a vida na floresta tropical e incentivou uma série de empreendimentos criativos para estimular os proprietários de terras a não as destruir, de forma a viver em harmonia com elas. Como aumentou o seu conhecimento da complexidade dessas questões e desenvolveu a sua capacidade de liderança, tentou entrar para a política, mas a riqueza e o poder dos latifundiários garantiram-lhe a derrota. Entretanto, como continuou a ameaçar os seus interesses, mataram-no com uma rajada de tiros, à porta de sua casa.


Al Gore




CHICO MENDES


Peço proteção infinita
para Apolo ser meu guia
pra eu narrar uma história
com muita melancolia:
A Morte de Chico Mendes
defensor da ecologia.

Chico Mendes morava
na cidade de Xapuri
Estado do Acre
onde lutava ali
defendendo os seringueiros
as matas, os rios e bem-te-vis.

Foi vereador, lutador
defendendo o pessoal
ingressou na ONU
tendo fama mundial
lutou pelo verde
até no dia de seu final.

Chico além de corajoso
dedicou todo amor
à natureza amazônica
no qual foi defensor
e o mundo inteiro perdeu
um herói de grande valor.

Foi assassinado
usado de covardia
por gente de alta classe
empilhada na burguesia
alguns são aqueles
que falam em democracia.

Usam palanques,
palestras e algo mais
falam em fraternidade
e fingem ter muitas paz
mas quem conhece bem
sabe o que são capazes.

Chico já havia antes
sofrido dois atentados
e por um milagre
havia escapado
mas na terceira vez
acabou no chão, deitado.

Antes de sua morte
havia feito uma reunião
com muitos seringueiros
de Xapuri e região
para discutir melhores preços
e ampla comercialização.

Dizia Chico aos colegas
caros amigos companheiros
temos que protestar,
a nossa classe de seringueiros
para melhor comércio
e ganhar mais dinheiro.

Temos que preservar
também a natureza
porque a Amazônia
é a maior riqueza
e o verde que alucina
transborda tanta beleza.

Defender o que é nosso
é a única saída
assim vamos de mãos dadas
manter a classe unida
lutaremos até o fim
mesmo que custe a vida.

José Aparecido Lima (Xandú) Literatura de cordel.