domingo, 21 de outubro de 2012

O resto é silêncio (que resto?)


                                       Volto, pois, a casa. Mas a casa,
                                       a existência, não são apenas coisas que li?
                                       E o que encontrarei
                                       se não o que deixo: palavras?

                                       Eu, isto é, palavras falando,
                                       e falando me perdendo
                                       entre estando e sendo.
                                       Alguma vez, quando

                                       havia começo
                                       e não inércia,
                                       quando era cedo
                                       e não parecia,

                                       as minhas palavras puderam estar
                                       onde sempre estiveram:
                                       no apavorado lugar
                                       onde sou o silêncio.

                                       Manuel António Pina
                                       http://www.youtube.com/watch?v=Xl71VPq6LiE
                                           

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Final de caminhada


Entrada em Covas do Monte cerca das três horas, o Sol queimava, e eles começaram a atravessar a aldeia devagar, caminham um a um espaçadamente, detêm-se a observar e a fotografar o mais ínfimo pormenor, o encaixe perfeito das placas de xisto nos telhados, a estrutura de uma janela, a simplicidade de uma ponte de madeira. Como peregrinos acabados de chegar ao seu destino, não tinham pressa e queriam apreciar exaustivamente tudo quanto os seus olhos captavam. Cabras, muitas cabras, ao longo das paredes, para se abrigarem do Sol. A certa altura havia um muro muito comprido à sombra do qual descansavam dezenas de cabras tranquilamente alinhadas. Uma imagem deveras insólita e inesperada a merecer muitas fotografias. Não longe dali a pastora vagueava com alguns animais, pois a maior parte já se refugiara nos abrigos. Tudo parecia tão irreal. O som das palavras é abafado, os gestos lentos, o ar pesa, a claridade atordoa. Mas para além de tudo isto ou por isso mesmo, sente-se em harmonia com a natureza e o espírito do lugar. E principalmente com ela própria. Um sentimento de mansidão e de profundo bem-estar predispunha à manifestação de comportamentos espontâneos e alegres.
 A aldeia tem poucos habitantes, são muitos os sinais de abandono, no entanto viram algumas pessoas, talvez se encontrassem de visita a familiares ou a passar férias na terra, numa zona que deve funcionar como centro da aldeia, à volta de uma fonte e não longe do inesperado restaurante já referido.
Na fonte, eles aproveitaram para se refrescarem, beber água, molhar braços, rosto e cabelos, repetindo gestos idênticos aos dos seus antepassados. O mundo real continuava muito longe dos seus pensamentos.
Em seguida entraram no restaurante que, como foi dito, está instalado na antiga escola primária, atravessaram a sala de jantar decorada com gosto, num estilo regional sóbrio e dirigiram-se para a zona do café/bar, um espaço que corresponde ao que era dantes o telheiro no recreio da escola, fechado de lado por um vidro, equipado com uma fila de  mesas rectangulares de madeira colocadas paralelamente umas às outras e bancos corridos em vez de cadeiras. Este mobiliário simples era o mais adequado possível às dimensões e aos traços da arquitectura original do  lugar.
Neste café, onde não faltavam os usuais refrigerantes e gelados, resolveram beber uma cerveja bem fresquinha. Um prazer redobrado, sobretudo porque tão improvável numa aldeia tão isolada, talvez uma maneira de festejar esta aventura com final muito feliz.

HN
http://www.youtube.com/watch?v=hcr3XhXdXfA

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Não Chove


Não chove ainda mas a terra
na sua amarelenta e fria cor
já cheira a chuva.
Não poderia viver onde a luz
fosse estrangeira. Teria medo
de morrer sem partilhar
com o sol do meio-dia
a pulsação do próprio olhar.
Não se pode mudar a luz
como quem muda de camisa:
o meu país
é onde a pedra acesa do mar
ilumina as veredas
do coração. E a cal
escorre dos muros e do tronco
das oliveiras. Até ao chão.

Eugénio de Andrade

domingo, 23 de setembro de 2012

Uma referência


Aos pássaros que gorjeiam prefiro os que grasnam
como os corvos ou os que piam na escuridão
como as vigilantes corujas brancas que infestam os meus bosques.
O canto melodioso amolece os corpos
e anestesia as almas que renunciam à reflexão e ao tormento
e temem o rumor do dia predatório.
Sempre desejei que o meu reino fosse o da dissonância:
do gavião que, pousado na estaca, rumina a sua impiedade,
dos pássaros grasnantes que incomodam os partidários de uma
                     regência musical do mundo 
como se estivéssemos num teatro, ouvindo uma sinfonia.
Ao gorjeio que conduz ao deleite e embala o sono
oponho o grasnido que semeia
a insônia e o desconforto.

Lêdo Ivo
http://www.youtube.com/watch?v=Myd1iezrYw0&feature=related

domingo, 16 de setembro de 2012

A importância de não ser de lado nenhum



Não sei se somos nós o povo dos navegadores. Creio que todos os que cresceram junto a um mar também o são: holandeses, polinésios, viquingues, Cook, Tasman, Sinbad. Também não sei por que somos nós o povo dos poetas. Os húngaros consideram-se um povo de poetas, os chineses também, os persas cultivam a poesia desde os tempos de Zaratrusta, os chilenos e os polacos têm prémios Nobel de poesia, para não falar nos italianos, dos franceses, dos irlandeses.
O bacalhau tão amigo dos nossos pobres, também o era dos genoveses, e dos catalães, quando eles eram pobres e emigravam para a Califórnia e para a Argentina. O veneziano Pietro Querini, no século XV, iniciou o comércio regular de bacalhau das ilhas Lofoten com o norte de Itália, e ainda hoje um dos pratos mais típicos de Veneza é o bacalhau amanteigado.
Não sei por que o nosso vinho é o melhor do mundo. Também o dos neo-zelandeses, o dos sul-coreanos e o dos alemães o é. Basta bebê-lo com a companhia certa e qualquer vinho, de qualquer preço é o melhor do mundo. a nossa gente é simpática e hospitaleira, mas é rude e iletrada. O clima é bom mas húmido, temperado mas instável, o sol aquece mas o mar aleija.
Viajando, tenho reparado que é transversal a tantas pessoas de tantas nacionalidades esta necessidade de se assegurarem da mesma coisa: que pertencem a uma nação especial. E pertencem, porque é a sua. Cesare Pavese escreveu um livro lindíssimo sobre tudo isto, sobre a necessidade de pertencer a algum lugar, uma dolorosa reflexão da importância de ter raízes. Que são como os parentes: não se escolhem, recebem-se.
O clima é instável, o mar gelado, a terra pobre, as cidades desfiguradas, a gente dura mas hospitaleira. O bacalhau cada vez mais caro, o vinho também. Mas é tudo o que tenho e o que espera por mim. Às vezes, sabe bem regressar. Outras, apetecia mesmo era ficar para sempre lá fora - mas nem vale a pena tentar.

domingo, 9 de setembro de 2012

Palomar na praia




Leitura de uma onda
O mar está levemente encrespado e pequenas ondas vêm bater na costa arenosa. O senhor Palomar encontra-se na praia, de pé, e observa uma onda. Não se pode dizer que esteja absorto na contemplação das ondas. Não está absorto, porque sabe muito bem aquilo que faz: pretende observar uma onda e observa-a. Não está contemplando, porque para a contemplação é necessário um temperamento adequado, um estado de espírito adequado e um conjunto de circunstâncias externas adequadas: e apesar do senhor Palomar não ter qualquer questão de princípio contra a contemplação, nenhuma destas três condições se verifica no seu caso. Finalmente, não são as "ondas" que ele pretende observar, mas uma única onda e basta: querendo as sensações vagas, estabelece para cada um dos seus actos um objectivo limitado e bem definido.
A crista da onda que avança levanta-se num ponto determinado, mais do que nos outros, e é ali que começa a franjar-se de branco. Se isso acontece a uma certa distância da costa, a espuma tem tempo de se enrolar sobre si própria e de desaparecer de novo, como que engolida, para no mesmo momento tornar a envolver tudo, mas desta vez despontando de baixo, como um tapete branco que trepa pela praia acima para acolher a onda que está para chegar. Mas, quando se espera que a onda role sobre o tapete, verifica-se que já não há onda, mas somente o tapete, e mesmo este desaparece rapidamente, tornando-se uma cintilação de areia molhada que se retira veloz, como se fosse empurrada pela areia enxuta e opaca que faz avançar o seu limite ondulado.
Tomando como modelo o desenho das ondas, a praia insinua na água algumas línguas de areia mal delineadas, que se prolongam em bancos submersos, daqueles que as marés fazem e desfazem em cada maré. Foi uma destas baixas línguas de areia que o senhor Palomar escolheu como ponto de observação, porque as ondas batem nela obliquamente de um lado e do outro, e ao cavalgarem a superfície semi-submersa encontram-se com as que chegam do outro lado.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O Doiro


Começa em Miranda e acaba na Foz, este calvário. Começa em pedra e água, e acaba em pedra e água. Como nos pesadelos, não há nenhum intervalo para descansar. Entra-se e sai-se do transe em plena angústia.
No Portugal telúrico e fluvial não conheço outro drama assim, feito de carne e sangue. Drama cruciante e ciclópico, que é o embate de duas forças brutas no primeiro acto, um corpo-a-corpo de vida ou de morte no segundo, e uma espécie de triunfo da fatalidade no terceiro, com o pano do mar a cair.
Doiro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos. Nenhum outro caudal nosso corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho; nenhuma outra nesga de terra nossa possui mortórios tão vastos, tão estéreis e tão malditos. Basta sentir no corpo, uma só vez, a dentada daquelas fragas que devolvem ao céu, agressivamente, a luz recebida, ou molhar os pés na levada barrenta que o garrote dos espinhaços tenta estrangular, para se ver que não há desgraça maior dentro da pátria nem semelhante via-sacra de meditação. De ponta a ponta do ano nenhuma bênção possível mitiga a crucificação do sofrimento. No verão, um calor de forja caldeia o xisto e transforma a corrente numa alucinação de lava a mover-se; no inverno, até os olhos das videiras choram de frio. Beleza não falta em qualquer tempo, porque onde haja uma vela de barco e uma escadaria de Olimpo ela existe. Mas a própria beleza deve ser entendida. Não é subir aos restolhos de Lagoaça, contemprar o abismo, e quedar-se em êxtase. Não é espreitar de S. Salvador do Mundo o Cachão da Valeira, e sentir calafrios. Não é descer de Sabrosa para o Pinhão, estacar em S. Cristóvão, e abrir a boca de espanto. Não é ir a S. Leonardo de Galafura ou ao miradoiro  de S. Brás, olhar o caleidoscópio, e ficar maravilhado. É compreender toda a significação da tragédia.
Patético, o estreito território de angústia, cingido à sua artéria de irrigação, atravessa o país de lado a lado. E é, no mapa da pequenez que nos coube, a única evidência incomensurável com que podemos assombrar o mundo.

Miguel Torga
http://www.youtube.com/watch?v=D_LkoFn0JzI