segunda-feira, 6 de abril de 2020

A decadência do riso


Foi o grande mestre Rabelais que disse:

- ...Riez! Riez!
Car le rire est le propre de l´homme!

"Ride! Ride! Porque o riso é próprio do homem!" Mas como poderia pensar de outro modo o tão forte e tão profundamente humano abade de Meudon? A Meia Idade findara ou parecia findar: - e com ela findava esse irradicável desalento, tão bem simbolizado pelo velho Albert Durer, na sua gravura da "Melancolia". Um formoso moço de asas potentes, em meio de um vasto laboratório onde se acumulam todos os instrumentos das ciências e das artes, deixa pender entre as mãos a cabeça coroada de louro, e fica inerte, considerando a inutilidade de tudo, enquanto um imenso morcego, por trás, se desdobra e tapa o disco do Sol. Nos dias de Rabelais - já esse formoso moço erguera a face, se revelara em toda a sua beleza e força como o génio da Renascença, e apanhando os instrumentos esparsos pelo laboratório, começava, brilhante de esperança e vida, a reconstrução de um mundo.
Mas hoje, se, para grande vantagem da paróquia de Meudon e do universo, Rabelais ressurgisse, e de novo caminhasse entre nós com o seu "Gargântua", que diria o nobre mestre? Nós, com efeito, filhos deste século sério, perdemos o dom divino do riso.
Eu ainda me recordo de ter ouvido, na minha infância e na minha terra, a gargalhada - a antiga gargalhada, genuína, livre, franca, ressonante, cristalina!... Vinha da alma, abalava todas as vidraças de uma casa, e só pelo seu toque puro, como o do ouro puro, provava a força, a saúde, a paz, a simplicidade, a liberdade!
Não há que duvidar! Voltaram os tempos de Albert Durer! Outra vez o famoso moço de asa potentes sente, sob esta produção excessiva que o não tornou nem melhor, nem mais feliz, um imenso desalento, e, considerando a inutilidade de tudo, de novo deixa pender sobre as mãos a testa coroada de louro.


Eça de Queiroz (texto com supressões)
Gravura de Albert Durer
https://www.youtube.com/watch?v=z11pYvaLctY&t=23s

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