quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Quinta da Paz






Vejo o Passado reviver,

Porque em meu coração

Tudo é ressurreição,

Amanhecer...

E vejo aquelas almas esperando,

Doidas de luz, seu próprio nascimento...

Nas nuvens já descubro as fontes marulhando

E a brisa, para mim, é já tumulto e vento.


Saio do velho lar escuro de abandono.

Cá fora, o céu azul dá nova graça

Às árvores despidas pelo Outono,

Ao passarinho, flor etérea que  esvoaça...


E vejo a antiga fonte: os dois golfinhos

E o nicho donde outrora

Um santo contemplava os passarinhos

Voando, à flor da aurora.

E, nas frestas antigas da parede,

A harmoniosa e límpida frescura

Que nos desperta a sede,

Pousava em alegrias de verdura...


Vejo a nossa ramada, ao longo do quintal:

Claustro de folhas mortas, a cair...

Leva-as, no seu regaço, o zéfiro outonal;

Nadam nos charcos de água...

Vestem de oiro mortal a dura frágua;

Outras, no Azul, vão ser estrelas a sorrir...


Teixeira de Pascoaes

https://www.youtube.com/watch?v=sKkk7vjSdeg&feature=youtu.be



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