domingo, 6 de janeiro de 2013

Ano Novo


Janeiro 1872.

Querido público, eis-te diante de um Ano Novo - o ano de 1872.
Aí o tens defronte de ti, mudo, impenetrável, com o seu largo chapéu de feltro escondendo a face, a capa cor de mistério traçada à Lindor, e altas botas de pregas reluzentes. A ponta da sua espada ergue de leve, por trás, uma prega subtil, a orla do manto escuro. O traidor! - vem armado!
Como será o seu rosto - claro e pacífico ou sombrio e batalhador? E os seus cabelos - grisalhos e acamados como os de um musgoso conservador, ou negros e revoltos como os de um revolucionário impaciente? E a palma da sua mão - macia e fácil como a do que espalha dinheiro, ou adunca e áspera como a de um avaro ganchoso?
"Quem o sabe? Quem o saberá?" diz o cuco da lenda.
Que ele, o Ano Novo amável, te conserve a cabeça serena, o estômago são, o bolso sonoro, e a mão decidida. Eis o bom e o positivo da vida.
E que trará ele à Pátria? É justo que pensemos um pouco na Pátria. Porque enfim, temos uma pátria. Temos pelo menos - um sítio. Um sítio verdadeiramente é que temos: isto é - uma língua de terra onde construímos as nossas casas e plantamos os nossos trigos. O nosso sítio é Portugal.  Não é propriamente uma nação, é um sítio. Já não achamos mal. A Lapónia nem um sítio é: apenas uma dispersão de cabanas na vaga extensão da neve. Nós ao menos temos um sítio!
O que vai trazer à nossa terra, debaixo da sua capa, o digno Ano de 1872?
Trar-lhe-á a paz, como um folhetim monótono continuado da véspera?
Trar-lhe-á a guerra, como uma aventura emovente a marche-marche?
Trar-lhe-á, embrulhada num cartucho, a revolução?
Trar-lhe-á, no meio de um espantado oh! universal - uma ideia?
Trar-lhe-á entre os braços, para lhe depositar no colo, uma nova dinastia - de mama?
"Quem o sabe, quem o saberá?" diz o cuco da lenda.
Nem ele mesmo o sabe talvez, o Ano Novo! Os anos chegam desprevenidos, sem plano, e começam por tomar informações com os anos que saem. E então, pelas notas colhidas, como um dramaturgo, preparam os seus episódios! Ah! Que diria o Ano Velho, ao partir com as suas malas e as suas rugas, a este Ano Novo que chegava, inexperiente e curioso? Que confidências trocaram, ao encontrar-se nessa misteriosa estrada por onde caminham os dias e os anos, pacientes transeuntes da Eternidade?

Nenhum comentário:

Postar um comentário