sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

José Estêvão tribuno de Aveiro

Foto anterior a 1889, data da inauguração da estátua a José Estêvão (Col. Morais Sarmento)



Praça de Município cerca de 1967, já com o edifício projectado pelo arquit. Fernando Távora

Ave, Aveiro

Escrevo-te e não sei quem és — como face para sempre talhada! A mais antiga memória que guardo de ti é da ria a transbordar por praças e vielas, nas marés vivas. Sob os lampiões dos Arcos, Rua dos Mercadores abaixo, vogavam bateiras conduzindo os teus íncolas (ia a dizer os teus doges) às soleiras das portas. E eu batia palmas de menino com brinquedo, na janela da avó. 

Salto o calendário e fustiga-me o rosto a saibrada que o vento erguia, corro pela Mina, mergulho nas Pirâmides, pergunto pelo dicionário ao sapateiro da Fonte Nova, faço as primeiras malcriadices no Parque, invejo a farda soldadesca do Luisinho, tenho uma icterícia de ovos moles...

Vamos crescendo, os dois, já sem laranjas roubadas na Rua do Gravito e sem aventuras nocturnas pelos arrabaldes — descubro a beleza com que te despedes (te despes) do Sol, perco-me em versos pelos carreiros das marinhas, levo a pasta da namorada à Estação, invento um jornalzinho de estudantes... Aprendo a respeitar professores como João Joaquim Pires, José Pereira Tavares, Francisco de Assis Maia, George Agostinho da Silva, António Salgado Júnior, guardo um profundo desprezo por outros, lanço uma cervantina burricada pelo teu centro, compenso o José Estêvão ensinando-lhe (junto às grades da estátua) o canto em coro da lnternacional — conspiro adolescentemente...

Que te aconteceu, entretanto? Não dou fé disso. Estavas aí, talvez. Para onde quer que me volte, descubro, porém, que um braço me acompanha sempre, apontando — como sombra impressa no chão! — o caminho dos meus passos: o do discurso coalhado em bronze do teu tribuno... Lobrigo-o na Barra, mandando calar a ronca; na Costa Nova, mostrando as xávegas desprotegidas; no paredão, invectivando o porto inconcluso; no Senhor das Barrocas, deplorando o que resta do templo; nas cancelas, dizendo porquê? ao tráfego... Nem sempre entendo o que quer, mas que quer, quer!

E redescubro, olhando-o melhor, que eras uma vilazinha apenas, perdida nas brumas do passado... Como eu, cresces desajeitada e errabunda. Largas os calções, engravatas-te, ganhas borbulhas na cara, abres risca na cabeça, asfaltas as pantalonas, escanhoas o arvoredo até ao sangue, pões moderno onde devia ser antigo e antigo onde devia ser moderno, tiras o nome do teu génio tutelar do frontispício do Liceu... Deliras, ó púbere!  Pouco tempo tenho, uma vez mais, para dar conta de ti. Passamos um pelo outro, eu trocando a farda pela bata, tu trocando os pergaminhos por licets camarários... Descontas letras onde vendias cafés, proíbes que as casas tenham uma testa mais alta que a do vizinho, fazes concorrência ao Portugal dos Pequeninos como quem ganha saudades dos tempos em que podia brincar... Eu palpo barrigas, tu palpas carteiras. E acontece a tragédia: descubro que envelheço mais depressa do que tu — e sem que tenha podido conhecer-te! Não chegarei a ver-te dona dos teus passos, querida Amiga, e tenho pena, pois virás a ser formosa quando ganhares o juízo que a juventude não tem! Não te passeiam ainda — senão como amostra — as cabeleiras e as barbas psicadélicas. Mas andas tão miniurbe que coro de ver-te!

Passaram os tempos em que davas ovos moles e políticos. E, todavia, és pura ainda, ó Aveiro! Tens o sal, tens o sol, tens o céu encaixilhado nas marinhas — e o bacalhau, sem shorts nem nada, a bronzear-se nos tabuleiros... Serás cidade um dia, ó vila de outrora! Entre les deux ton coeur balance indecisamente — e o meu com o teu... Mas o meu com cãs e o teu indesvendado ainda, como sempre! Foste noiva, foste esposa e és viúva dum só Homem: o que filtra bronze num pedestal eterno...  O bronze e a salmoira te protejam até à consumação dos séculos!

                                                                                                     Amén

Mário Sacramento (1920-1969)

Publicado em "Comércio do Porto" , 22 de Fevereiro de 1969 (texto com supressões)


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